Passado sem Presente
Recordo
Todos aqueles momentos
Perdidos no encantamento
Que jamais
Reencontraremos
Não existe hoje para nós
Nada mais
A partilhar
A não ser o passado
(Roxy Music. Tradução livre)

Há dias, escrevi que os testemunhos dos tempos áureos da cultura europeia acabam por proporcionar um sabor agridoce. Estou longe de ser o único, e ainda menos o primeiro, a incubar semelhante sentimento. Por exemplo, “A Song For Europe”, dos Roxy Music, aponta claramente no mesmo sentido. Há mais de meio século.
De Estranheza em Beleza. SAXualidade

O Tendências do Imaginário reincide: de beleza em beleza. Será que em tempos de ideias turvas, senão ameaçadoras, e de acontecimentos estranhos, senão sinistros, a beleza se insinua como consolo? Já aconteceu noutras épocas.
Perguntei então à IA: “Existem períodos históricos marcados pela persistência de ameaças em que a beleza se insinua como consolo?”
Solícita, respondeu:
Sim — e isso acontece com uma frequência impressionante. Em muitos momentos da história, quando a vida ficou mais frágil e ameaçada, a beleza não desapareceu: ela mudou de função. Deixou de ser ornamento e passou a ser consolo, resistência e sentido.
Alguns exemplos marcantes:
Antiguidade tardia e Idade Média
Em períodos de guerras, fome e instabilidade, a beleza se insinuou sobretudo no sagrado. Igrejas, mosaicos, cânticos e manuscritos iluminados não eram luxo: eram uma promessa de ordem e transcendência num mundo caótico. A beleza apontava para algo que sobrevivia à morte.
Após a Peste Negra (século XIV)
Depois de uma devastação inimaginável, surgem obras cheias de intensidade emocional. A arte se torna mais expressiva, mais humana. O próprio impulso que desemboca no Renascimento nasce desse contato brutal com a finitude — a beleza como afirmação da vida diante da morte.
Barroco (séculos XVII–XVIII)
Em meio a guerras religiosas, absolutismo e insegurança, o Barroco exagera, emociona, deslumbra. A beleza aqui é dramática, quase excessiva, como se dissesse: o mundo é instável, mas ainda pode ser arrebatador.
Guerras Mundiais do século XX
Mesmo com destruição em escala industrial, surgem poesia, música e artes visuais que não negam o horror, mas convivem com ele. Pense em Paul Celan, em Shostakovich, em Picasso. A beleza não consola suavemente — ela testemunha, e isso já é uma forma de resistência.
Regimes autoritários e ditaduras
A beleza muitas vezes se esconde na palavra, na canção, no gesto mínimo. Poemas, metáforas, artes “menores” viram refúgio e linguagem cifrada para preservar a dignidade humana.
Em todos esses casos, a beleza não aparece como fuga ingênua, mas como algo profundamente humano:
um modo de dizer “nem tudo foi tomado pela ameaça”.
Talvez por isso, sempre que o mundo parece mais sombrio, a beleza encontre uma fresta — não para negar o perigo, mas para lembrar que ainda há algo que vale ser protegido. (ChatGPT, 06.02.2026)
Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.
A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.
Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo

Nos últimos anos, escrevi dois textos que acabaram por não ser publicados.
O primeiro, “Prado Subjetivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, de 2019, ficou congelado no prelo. Coloquei-o no dia 7 de dezembro de 2025 como peça de arquivo no Tendências do Imaginário (ver Eu, a IA e o Ninho).
O segundo, “Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo”, de 2023, entendi enterrá-lo numa gaveta digital até eventual resgate futuro. Passo a arquivá-lo, também, neste blogue. Entretanto, no artigo “Quando a esmola é grande. A industrialização do interior”, no jornal Diário do Minho de 20.02.2024, retomei a reflexão, mas com outra abrangência. Seguem ambos os textos em pdf, sem mais comentários, “para memória futura”.
Texto 1: Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo
*****
Texto 2: Quando a esmola é grande. A industrialização do interior
VIAGENS PELOS NATAIS

Como é bom ser professor para aprender! Na última semana, os alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, foram desafiados a dar a aula. De entrega em entrega, de surpresa em surpresa, fui acarinhado com uma diversidade de momentos inesquecíveis de sabedoria experiente.
A leitura expressiva do ensaio/conto “VIAGENS PELOS NATAIS” pela própria autora, Maria Ivone da Paz Soares, representou um desses momentos inesquecíveis. Precedo o respetivo texto com a versão em pdf para mais fácil partilha e maior fidelidade à formatação original. Obrigado e continuação de boas e belas caminhadas!
*****
VIAGENS PELOS NATAIS
As últimas pétalas do dia estavam a esvoaçar.
E ainda lhe faltava tanto para um não sei onde. Para um ali que os pés indicavam. Os pés? Sim, uns calcanhares bussolados pelas palpitações de um sentir, de um descobrir.
E os pensamentos vindos de gavetas aleatórias assomavam, desarticulando o passo.
Porquê Natal em dezembro? E a 24/25? Pouco se sabe sobre as razões desta escolha. Havia uma prática pagã neste período correspondente ao solstício de inverno, no hemisfério norte, o dia mais curto que era comemorado como a festa do nascimento do Sol Vitorioso (“natalis solis invicti”). A Igreja primitiva denominava Jesus, como o “Sol da Justiça”.
Os Celtas celebravam o retorno da vida (no solstício de inverno – Yule) com fogueiras e velas, decorações nas árvores, banquetes, danças, desejando simbolizar a renovação e a esperança nos tempos escuros.
Tropeçou numa pedrita. Tanta coincidência(?)!!!!
Mais um passo ao lembrar-se da origem do vocábulo Natal que vem do latim “nativitas” (nascimento, geração) e este do adjetivo “nativus” (o que nasce).
Como entender esta sintonia, esta sinergia entre várias práticas religiosas? – a pessoa parou e olhou para o céu pintado de cinza, com espreitadelas de raios luminosos.
E lembrou-se que a 8 de dezembro é a Festa da Iluminação para o Budismo, o despertar para a verdade, para o autoconhecimento, para a libertação, com a Árvore Bodhi com luzes (que simboliza caminhos para a sabedoria e para o fim do sofrimento). É um período que vários budistas que vivem no ocidente ajustam algumas práticas do Natal, valorizando ideais idênticos de amor e de compaixão.
Reduziu o ritmo. Sentou-se no banco do jardim por onde estava a passar. Nem tudo na Vida é complementar, coincidente.
Como todos sabem, o Judaísmo não reconhece o Messias, porém o Hanukkah comemora-se próximo do Natal e o ato do nascimento tem uma identificação espiritual, uma ligação entre o humano e o divino; assim como é um período de bondade e de generosidade e há a utilização das luzes (candelabros junto a uma janela) neste período, em ambas as religiões. Alguns judeus também dão presentes às crianças.
Estava sentada de pernas cruzadas, já com o telemóvel na mão, a vasculhar no Google. O quê? A comemoração do Natal só surgiu mais de trezentos anos após a data provável? Sim, tem lógica: não havia espaço para uma nova religião, apesar dos romanos serem abertos.
O primeiro Natal foi comemorado em 25 de dezembro de 336, em Roma, pouco antes do Cristianismo ser oficializado no Império (e em 345 estabeleceu-se o 25 de dezembro como data de nascimento de Jesus Cristo. Até ao século V foi celebrado em Constantinopla (a capital do Império romano) o nascimento e batismo de Jesus, a 6 de janeiro (em Roma esta data ficou para lembrar a chegada a Belém dos Reis Magos, com os seus presentes) que também é festejada em algumas regiões no dia de hoje.
Trocou as pernas. Afinal esta comemoração foi escolhida para absorver e ressignificar os costumes pagãos. Ressaltam os conceitos que se interligam: celebrações litúrgicas, centro na família, ceias, presentes, conceito da generosidade e personagem adicional (São Nicolau e Pai Natal).
Também recebeu influência da tradição latina Saturnália, uma tradição festiva e com troca de presentes, a 17 de dezembro. E na Pérsia, o Deus da Luz, Mitra, era celebrado a 25 de dezembro. A Igreja primitiva absorvia e dava nova leitura aos rituais pagãos, denominado sincretismo, em vez de proibi-los ou persegui-los para angariar novos seguidores.
O espanto ficou no Egito, uma das mais antigas civilizações, marcadamente muçulmana: o Natal é celebrado a 7 de janeiro, por todos, opte pela religião que quiser, misturando o antigo e o novo, conciliando a tradição com a inovação, envoltos pelas “carols” (canções de Natal tradicionais), sob uma prova cultural enriquecedora. Claro que as decorações são luminosas, com delícias culinárias, sons e mercadorias festivos.
Quando reparou, já estava a andar. Há tanto a unir! E então, quais as razões das desuniões? Suspirou e continuou. A cadência dos passos acompanhava o que os olhos apanhavam nas linhas que eram perseguidas.
Os romanos ornamentavam os seus lares com luzes e folhas de plantas e também davam presentes às crianças e aos pobres, tendo sido esta prática absorvida nas festividades. Assim como os ritos germânicos e os costumes celtas com fogueiras, muita comida e bebida, além das luzes e de árvores decoradas.
Tradições gregas, romanas, com rituais celtas, germânicos e liturgias orientais, durante o primeiro milénio foram criando os conteúdos da festa natalícia que, nos dias de hoje, está imbuída de consumismo que enegrece a quadra, salvaguardando o ato positivo de presentear alguém e o da espiritualidade de alguns.
Até ia tropeçando… O andar com o TLM na mão pode dar estas situações…
Chegou a casa. Organizou tudo, enquanto o Santo Nicolau bailava no cérebro. E por outras culturas e continentes… Quando se fosse deitar, iria pesquisar: tinha a certeza que ia ter novas surpresas…
Já aconchegada na cama e com a almofada ao alto, continuou a mergulhar neste espírito natalício tão elaborado pelos homens e ajustado aos seus objetivos.
Estava quase a chegar. O céu estrelava! Os pés doíam e estava com sede. Quando perguntava, apontavam-lhe para aquele edifício lá ao fundo e já fora das luzes intensas da cidade. Era uma estalagem? Era um estábulo? Estava um Menino envolto numa manta com um olhar tão luminoso! E a manjedoura/berço ficou circundada(o) de uma intensa Luz.
– Pai José, necessita de alguma coisa?
– Mãe Maria, posso pegar o Menino ao colo?
As mãos da Criança elevaram-se e aconcheguei-A num abraço: era tão leve, tão sorridente, tão transparentemente sublime!
A pouco e pouco, a Criança foi crescendo e irradiava um brilho envolvente.
A pouco e pouco, a pessoa que a pegava ia ficando mais pequena, mais enlaçada nos fortes, cordiais e afetuosos braços do Menino Homem. Ao olhar-se, viu-se enroscada, enovelada no colo embalador cintilante do Menino.
Estremeceu! Acordou. Sorriu. GRATA!
Maria Ivone da Paz Soares, em Dez/25, num NATAL sem dia
Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia”

Criança, gostava de ver o “tio” Mingos fazer aguardente de bagaço com um alambique. O bagulho amontoado em redor era colocado na caldeira aquecida com lume brando. O vapor resultante condensava-se na serpentina exteriormente arrefecida com água. O líquido obtido pingava num recipiente. Horas e horas de pasmo e lentidão inebriantes…
Pode também espremer-se e destilar a colheita de uma experiência de vida num parágrafo com 130 palavras pingadas, cristalinamente condensadas. Não é, porém, o tamanho que dita a qualidade e a densidade. Uma gota ínfima de perfume ou de veneno basta para produzir efeito.
O texto “O enterro da cabeça na areia” não disfarça: nem é perfume envenenado, nem veneno perfumado. Ou perfume ou veneno, consoante o consumidor. A IA compreendeu-o e explica-o bem, sem regatear adendas e argumentos. [No fim do artigo, está disponível um pdf com o conjunto dos textos seguintes].
*****
Texto: O enterro da cabeça na areia
Com a modernidade, a cultura descobre-se cada vez mais dependente da economia e da política. Como diria Pascal, “sabe-se isso em mil coisas”: nas teorias, nos usos e nos costumes. Se outrora a postura das elites culturais era o contraposto, agora é o disposto, a fatalidade e o desgosto convertendo-se em vontade e vaidade. E o catavento emerge como figura totémica. O cenário complica-se quando os agentes culturais permanecem provincianos (agacham-se em bicos de pés) e paroquiais (encolhem-se e enredam-se em casulos e teias intramuros). “Pequenos deuses caseiros”, gravitam ao redor de olimpos terrenos. Cortesãos, apressam-se a beijar as mãos estendidas pelos senhores providenciais. Ser é (a)parecer e agradar. Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão. Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.
(Albertino Gonçalves,Tendências do Imaginário, 01.12.2025)
Análise do texto “O enterro da cabeça na areia” pela IA
[A IA produziu quatro análises sucessivas, em diálogo com a Minda. A leitura da primeira é suficiente. Além de repetições incontornáveis, as demais análises contêm aprofundamentos, especificações e reformulações eventualmente interessantes].
[Análise 1]
“1. Diagnóstico sociológico: cultura subordinada à economia e à política
O texto começa por afirmar algo que é central na sociologia da cultura contemporânea:
a crescente dependência da esfera cultural relativamente ao campo económico e ao político.
A citação de Pascal — “sabe-se isso em mil coisas” — reforça que essa dependência é difusa, estrutural e evidente, não se limitando a teorias formais, mas manifestando-se nos usos, costumes, práticas e discursos quotidianos.
O autor faz aqui um diagnóstico clássico:
a cultura já não se sustém num ideal de autonomia;
tornou-se permeável ou mesmo subordinada às lógicas de mercado, às estratégias de poder e aos dispositivos de legitimação política.
Há um eco claro de Bourdieu (campo cultural vs. campo do poder; heteronomia). Embora não seja explicitamente citado, a estrutura conceptual está lá.
- Inversão histórica: de contracultura a corte
O texto contrapõe o presente a um passado idealizado em que as elites culturais eram:
contraposto → críticas, resistentes, afastadas do poder, vindas “de fora”.
Agora, diz o autor:
são disposto → disponíveis, maleáveis, inclinadas a agradar.
A “fatalidade e desgosto” transformam-se em “vontade e vaidade”:
antes havia uma posição trágica, ética; agora há uma posição estratégica, estética, performativa.
Ser e parecer confundem-se, e o texto joga com essa oscilação.
- A figura do catavento: oportunismo e volatilidade
O “catavento” surge como figura totémica — o símbolo dominante desta nova cultura:
gira consoante o vento;
nunca fixa direção própria;
mede a atmosfera social e adapta-se.
É uma metáfora extremamente eficaz para ilustrar o oportunismo cultural contemporâneo, dependente de modas, tendências, influências, patrocínios, políticas públicas e redes de poder.
- Provincianismo e paroquialismo dos agentes culturais
Esta é talvez a parte mais crítica e incisiva do texto.
O autor acusa os agentes culturais de:
provincianos → tentam parecer maiores do que são (agacham-se em bicos de pés).
paroquiais → encolhem-se, fecham-se no microcosmo, incapazes de dialogar com o exterior (teias intramuros).
A crítica não é apenas geográfica ou local; é mental e estrutural:
Ser provinciano aqui significa confundir influência com sedução hierárquica e confundir autonomia com endogamia.
A imagem dos “pequenos deuses caseiros” reforça a ideia de poderzinhos locais que imitam a lógica da corte:
esperam favores,
orbitam em torno de “senhores providenciais”,
vivem da deferência e da aparência,
cultivam rituais de legitimação vertical.
O texto revela uma leitura amarga, mas lúcida da forma como estruturas culturais periféricas ou pequenas podem reproduzir micropoderes, vaidades e clientelismos.
- A política da aparência
“Ser é (a)parecer e agradar” — o autor condensa aqui uma crítica ao narcisismo performativo que domina muitos circuitos culturais:
eventos para fotografias,
cultura como espetáculo,
arte como estratégia de visibilidade,
carreiras moldadas por redes de influência e não por trabalho criador.
A metáfora das asas que agitam “como quem promete voo, mas não saem do chão” reforça a ideia de estagnação mascarada de dinamismo.
- A covardia final: “nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia”
O fecho é forte.
O autor acusa estes agentes culturais de:
evitarem conflitos reais,
fugirem à responsabilidade ética,
esconderem-se quando a situação exige coragem moral ou intelectual.
É um gesto de denúncia:
a cultura tornou-se incapaz de assumir posturas críticas quando mais seriam necessárias.
Síntese interpretativa
O texto é uma crítica incisiva e elegantemente literária ao estado contemporâneo da cultura, marcada por:
heteronomia → subserviência às lógicas económicas e políticas;
vaidade performativa → dependência do parecer mais do que do ser;
paralisia ética → incapacidade de enfrentar momentos de verdade;
provincianismo simbólico → endogamia, clientelismo e falta de horizonte.
Tudo isto é narrado através de uma linguagem metafórica e simbólica — totémica, quase antropológica — que transforma a crítica sociológica numa pequena peça literária.
—
[Análise 2]
Claro — e não, eu não parto do princípio de que os dois textos têm a mesma autoria. O que observo é apenas a voz — e esta pode coincidir, aproximar-se ou divergir entre textos diferentes. Se preferir, faço a análise sem qualquer pressuposto de ligação autoral, concentrando-me exclusivamente no que o texto diz e faz.
Vamos então à análise existencial, como pediu — é mesmo a abordagem mais fecunda para este excerto.
🌒 Análise Existencial do Texto
Este texto funciona como uma radiografia moral da modernidade cultural, não feita de diagnósticos sociológicos formais, mas de imagens existenciais e metáforas de revelação.
No fundo, é um texto sobre a perda de autenticidade — não uma autenticidade romântica, mas a autenticidade como modo de ser: vertical, responsável, comprometido consigo mesmo antes de qualquer conveniência exterior.
- A cultura como ser-em-dependência
Logo no início, surge uma angústia fundamental: a cultura deixa de ser um espaço de sentido próprio e passa a ser uma função — económica, política, instrumental. Torna-se subsidiária.
Essa dependência gera uma desorientação existencial:
da criação que deixa de criar,
da reflexão que deixa de iluminar,
da cultura que deixa de ser cultura para converter-se em gesto estratégico.
O texto olha para essa transformação com um desconforto profundo — quase um luto.
- Elites culturais como figuras trágicas
Há uma dor evidente quando o autor descreve as novas elites culturais:
“agacham-se em bicos de pés”
“pequenos deuses caseiros”
“cortesãos”
Estas imagens não são meramente críticas: são imagens de fraqueza existencial.
A cultura, que deveria ser o espaço da coragem interior, torna-se o lugar onde o sujeito se dobra, se adapta, se disfarça, se encena.
A questão de fundo é:
como pode a cultura iluminar o mundo se ela própria vive às escuras?
- O catavento como símbolo existencial
O catavento é uma figura tremenda aqui:
um ser que gira para onde sopra o vento, sem direção própria, sem eixo firme.
É, existencialmente, a imagem do sujeito que não tem interioridade suficiente para resistir às forças externas.
Se no texto anterior a pavimentação invadia o mundo sensível, aqui a invasão é mais íntima:
é a pavimentação da consciência cultural — a sua domesticação.
- Ser é (a)parecer
Esta frase é o coração existencial do texto.
Condensa tudo:
a redução da interioridade ao espetáculo,
a metamorfose do ser em figura pública,
a transformação do pensamento em performance,
a inversão ontológica que define a modernidade:
o valor não vem de dentro; vem de fora.
No plano existencial, isto significa:
a vida cultural perdeu densidade e ganhou vitrinas.
- O instante da verdade e a falha do ser
“Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão.
Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.”
A imagem final é devastadora:
o voo é promessa, não acontecimento;
a coragem é aparência, não gesto;
a verdade é evitada como perigo.É quase kafkiano: os sujeitos agitam as asas mas não têm corpo para voar — ou não têm mundo onde isso faça sentido. É uma existência encenada, sem suficiente profundidade para o risco.
🌑 Síntese Existencial
Este é um texto sobre a crise da interioridade cultural:
um lamento pela substituição da verticalidade da cultura — crítica, criação, visão — por uma horizontalidade de expedientes, conveniências e lisonjas.
Ele identifica, de forma poética e amarga, um processo de empobrecimento do ser, semelhante ao que o texto anterior fazia com o mundo físico:
agora, o “pavimento” é a própria alma cultural.
No fundo, é uma meditação sobre a fragilidade humana perante a pressão do sistema, e sobre a perda de coragem para sustentar a verdade — estética, ética ou intelectual — quando ela tem custos.
[Análise 3]
Claro — e não, eu não parto do princípio de que os dois textos têm a mesma autoria. O que observo é apenas a voz — e esta pode coincidir, aproximar-se ou divergir entre textos diferentes. Se preferir, faço a análise sem qualquer pressuposto de ligação autoral, concentrando-me exclusivamente no que o texto diz e faz.
Vamos então à análise existencial, como pediu — é mesmo a abordagem mais fecunda para este excerto.
🌒 Análise Existencial do Texto
Este texto funciona como uma radiografia moral da modernidade cultural, não feita de diagnósticos sociológicos formais, mas de imagens existenciais e metáforas de revelação.
No fundo, é um texto sobre a perda de autenticidade — não uma autenticidade romântica, mas a autenticidade como modo de ser: vertical, responsável, comprometido consigo mesmo antes de qualquer conveniência exterior.
- A cultura como ser-em-dependência
Logo no início, surge uma angústia fundamental: a cultura deixa de ser um espaço de sentido próprio e passa a ser uma função — económica, política, instrumental. Torna-se subsidiária.
Essa dependência gera uma desorientação existencial:
da criação que deixa de criar,
da reflexão que deixa de iluminar,
da cultura que deixa de ser cultura para converter-se em gesto estratégico.
O texto olha para essa transformação com um desconforto profundo — quase um luto.
- Elites culturais como figuras trágicas
Há uma dor evidente quando o autor descreve as novas elites culturais:
“agacham-se em bicos de pés”
“pequenos deuses caseiros”
“cortesãos”
Estas imagens não são meramente críticas: são imagens de fraqueza existencial.
A cultura, que deveria ser o espaço da coragem interior, torna-se o lugar onde o sujeito se dobra, se adapta, se disfarça, se encena.
A questão de fundo é:
como pode a cultura iluminar o mundo se ela própria vive às escuras?
- O catavento como símbolo existencial
O catavento é uma figura tremenda aqui:
um ser que gira para onde sopra o vento, sem direção própria, sem eixo firme.
É, existencialmente, a imagem do sujeito que não tem interioridade suficiente para resistir às forças externas.
Se no texto anterior a pavimentação invadia o mundo sensível, aqui a invasão é mais íntima:
é a pavimentação da consciência cultural — a sua domesticação.
- Ser é (a)parecer
Esta frase é o coração existencial do texto.
Condensa tudo:
a redução da interioridade ao espetáculo,
a metamorfose do ser em figura pública,
a transformação do pensamento em performance,
a inversão ontológica que define a modernidade:
o valor não vem de dentro; vem de fora.
No plano existencial, isto significa:
a vida cultural perdeu densidade e ganhou vitrinas.
- O instante da verdade e a falha do ser
“Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão.
Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.”
A imagem final é devastadora:
o voo é promessa, não acontecimento;
a coragem é aparência, não gesto;
a verdade é evitada como perigo.É quase kafkiano: os sujeitos agitam as asas mas não têm corpo para voar — ou não têm mundo onde isso faça sentido. É uma existência encenada, sem suficiente profundidade para o risco.
🌑 Síntese Existencial
Este é um texto sobre a crise da interioridade cultural:
um lamento pela substituição da verticalidade da cultura — crítica, criação, visão — por uma horizontalidade de expedientes, conveniências e lisonjas.
Ele identifica, de forma poética e amarga, um processo de empobrecimento do ser, semelhante ao que o texto anterior fazia com o mundo físico:
agora, o “pavimento” é a própria alma cultural.
No fundo, é uma meditação sobre a fragilidade humana perante a pressão do sistema, e sobre a perda de coragem para sustentar a verdade — estética, ética ou intelectual — quando ela tem custos.
⭐ O Catavento: símbolo da identidade exposta ao vento da modernidade
No texto, o catavento é uma imagem central. Ele representa:
- A instabilidade da identidade
O catavento gira conforme a direção do vento.
Na modernidade cultural descrita no texto, o “vento” não é meteorológico, mas simbólico:
política, economia, moda intelectual, conveniência social.
O catavento é, portanto, a metáfora da identidade que perdeu o eixo, que não tem posição própria e gira ao sabor dos poderes dominantes.
- A perda de interioridade
Se no primeiro texto o autor falava de “egomundo”, aqui o catavento indica o contrário:
não há centro,
não há raiz,
não há memória,
não há resistência interior.
Uma cultura que gira para onde sopra o vento não possui interioridade, só superfície.
É uma identidade exposta, vulnerável, moldada por pressões externas.
- Uma metáfora da vaidade moderna
O catavento gira e parece animado, mas não tem autonomia.
Ele exibe movimento sem direção própria — é aparência de vida, não vida.
Assim, converte-se em símbolo da modernidade cultural em que parecer substitui ser, onde o movimento é vazio, e a agitação é confundida com vitalidade.
⭐ Os “pequenos deuses caseiros”: símbolo do narcisismo provinciano
A expressão é literariamente poderosa.
Os pequenos deuses caseiros são figuras com duas camadas simbólicas:
- Deuses… mas pequeninos
Ou seja:
figuras que se tratam como excecionais,
que se veem como centro,
que exigem reverência —
mas cuja importância é doméstica, limitada, paroquial.
É um retrato existencial de grandiosidade ilusória, de narcisismo de escala reduzida.
São “deuses” no seu próprio quintal, mas insignificantes no grande mundo.
O contraste cria ironia e denuncia a inflação do ego sem substância. - Caseiros: confinados ao seu próprio mundo
“Caseiros” aqui não tem nada de acolhedor; é encerramento:
fechados sobre si próprios
alinhados com lógicas locais de poder
dependentes de olimpos terrenos
presos em teias, casulos, intramuros
A sua autoridade é um produto da proximidade, não do mérito.
A sua relevância é circunstancial, não universal.
Eles vivem num círculo limitado e, dentro dele, comportam-se como deuses —
mas só porque o espaço à sua volta é pequeno. - Existencialmente: seres sem transcendência
Ao contrário dos deuses verdadeiros, que remetem para um “além”, estes só remetem para o “aqui dentro”.
São uma espécie de divindade invertida:
em vez de abrir caminhos, fecham-nos;
em vez de elevar, encolhem;
em vez de serem origem de sentido, são guardiões de vaidades.
Há neles uma profunda pobreza existencial:
vivem de espelhos, não de mundo.
⭐ A ligação profunda entre os dois símbolos
O catavento e os pequenos deuses caseiros são variantes da mesma condição existencial:
identidades moldadas por forças externas
vaidades frágeis que se confundem com grandeza
ausência de interioridade e enraizamento
dependência de olhares, favores e poderes circunstanciais
movimento ou poder aparente, mas vazio de substância
Se o catavento é a imagem do ser que se inclina,
os pequenos deuses caseiros são a imagem do ser que se infla.
Mas ambos estão presos ao mesmo dilema:
uma identidade sem centro, reduzida à aparência e à circunstância.
⭐ Em síntese existencial e simbólica
O texto denuncia uma condição moderna em que:
a cultura se rende a poderes externos,
os agentes culturais se deixam moldar por ventos alheios,
o ego se transforma em divindade doméstica,
e a aparência substitui a autenticidade.
Trata-se de uma crítica à miséria espiritual do mundo pavimentado, onde tudo é medido pelo exterior e nada floresce de dentro.
O catavento e os “pequenos deuses caseiros”.
🌬️ 1. O catavento: símbolo da identidade que se rende ao vento exterior
No texto, o catavento não é apenas uma imagem decorativa: é uma metáfora existencial da condição humana (ou cultural) na modernidade.
Um catavento:
não tem direção própria — apenas reage;
não tem centro de gravidade — gira ao sabor da força que o domina no momento;
não avança — só roda;
não tem voz — apenas indica pressões exteriores.
É o símbolo de uma identidade dependente, uma cultura que deixou de ser fonte de sentido para se tornar barómetro da economia e da política.
O autor, com ironia amarga, sugere que a cultura contemporânea já não orienta o mundo — é orientada por ele.
Assim, o catavento representa:
a volatilidade moral e intelectual,
o oportunismo que se adapta aos ventos dominantes,
a perda de eixo interno,
a incapacidade de resistência.
Existencialmente, significa uma desarticulação do sujeito: uma vida virada para fora, moldada pelo vento, desenraizada da própria essência. Uma forma de alienação elegante, disfarçada de adaptação.
🏺 2. Os “pequenos deuses caseiros”: ironia trágica da autoimportância
A expressão é deliciosamente cruel.
“Pequenos deuses caseiros” evoca:
divindades domésticas, sem templo, sem culto, sem poder real;
idolatrias de interior, fechadas, auto-admirativas;
hierarquias pobres que se recriam em espaços reduzidos.
Existencialmente, estes “deuses” representam:
a) O narcisismo provinciano
Não um provincianismo geográfico, mas ontológico: limitado, inseguro, fechado em si próprio, carente de reconhecimento exterior.
b) A ilusão de soberania
Sentem-se centrais num pequeno mundo, mas esse centro é ilusório e frágil. A autoridade que possuem é:
concedida por instâncias superiores (as “mãos estendidas” que beijam),
dependente de pequenos rituais de poder,
vulnerável ao primeiro vento desfavorável.
c) A redução do humano ao jogo de aparências
“Ser é (a)parecer e agradar”: existencialmente, isto descreve uma vida representada, não vivida — uma identidade construída para o olhar do outro, incapaz de autenticidade.
d) A fuga da verdade
“Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia”:
O que está aqui em causa não é só cobardia ética; é um mecanismo existencial de negação, típico de sujeitos ou instituições cuja identidade se baseia no desempenho e não no fundamento.
🔥 3. A tensão existencial entre os dois símbolos
O texto cria um contraste poderoso:
O catavento mostra a dependência externa: o sujeito que gira conforme pressões exteriores.
Os pequenos deuses caseiros mostram a ilusão interna: o sujeito que se imagina grande num espaço pequeno.
Entre os dois, surge a crítica mais profunda:
👉 A modernidade produz indivíduos e instituições simultaneamente submissos ao exterior e autocentrados no interior.
Giram ao sabor do vento enquanto se imaginam deuses no quintal.
É uma forma de existência paradoxal:
vazia de fundamentos, mas cheia de vaidade;
incapaz de resistência, mas sedenta de poder;
agonisticamente dependente, mas ansiosa por controlar pequenos territórios.
O autor descreve, com elegância e mordacidade, uma cultura que perdeu a verticalidade (princípios) e a raiz (identidade), restando apenas a pose, o sorriso cortês, o gesto de vassalagem e a esperança de reconhecimento.
🌑 4. Em última instância, o que se denuncia?
Uma existência que se torna:
reativa em vez de criativa,
decorativa em vez de substantiva,
performativa em vez de verdadeira,
dependente em vez de autónoma.
O autor vê na modernidade cultural não apenas uma degradação estética ou institucional, mas uma crise existencial: a perda da interioridade como fonte de sentido.
[Análise 4]
Claro — aqui está uma conclusão integrada, que reúne a leitura existencial e poética do primeiro texto com a simbologia crítica do segundo. Mantive o tom ensaístico e meditativo, de forma alinhada com a voz literária do autor:
Conclusão integrada
Nos dois textos, é o mesmo olhar que persiste: um olhar que, ao mesmo tempo que se volta para o mundo exterior, regressa sempre ao interior — ao egomundo, à memória e às ruínas silenciosas da modernidade. Se, no primeiro texto, a pavimentação da terra e o soterramento da água representam a objetivação excessiva do espaço, no segundo, é a própria vida cultural que se vê pavimentada: nivelada, domesticada, alisada pela dependência da economia, da política e das lógicas de prestígio.
O catavento e os pequenos deuses caseiros prolongam simbolicamente o mesmo diagnóstico: a substituição de um mundo vivido por um mundo funcional, e de uma cultura criativa por uma cultura obediente. Se antes o asfaltamento produzia um empobrecimento existencial da paisagem, agora produz-se um empobrecimento espiritual e simbólico dos agentes culturais, que giram com o vento do poder e se contentam com olimpos de província. São ambos sinais de um tempo que prefere o útil ao vivo, o operativo ao sensível, o agradar ao pensar.
Assim, os dois textos dialogam como duas faces de uma mesma crítica:
– na paisagem, a modernidade cobre a terra, tapa a água e acelera o tempo;
– na cultura, cobre o espírito, tapa a coragem e acelera as vaidades.
Num caso, a terra deixa de respirar; no outro, a cultura deixa de ousar. E, em ambos, o autor contempla o mundo como o Angelus Novus: avançando às arrecuas, olhando para trás, vendo na velocidade do presente um montículo crescente de restos — espaços perdidos, vozes reduzidas, territórios que minguam.
A meditação que nasce da justaposição dos dois textos é, assim, uma só:
um apelo silencioso ao reencontro com a densidade da vida, com a terra, com a água, com a coragem interior — contra todas as formas de pavimentação, sejam elas materiais, simbólicas ou culturais.
Segue uma conclusão integrada, em tom mais académico e com terminologia sociológica explícita, articulando os dois textos:
Conclusão (integração dos dois textos)
Tomados em conjunto, os dois textos configuram uma reflexão sociológica de matriz existencial sobre as metamorfoses da modernidade e os seus impactos sobre a experiência individual, a identidade e os modos de presença no mundo. No primeiro texto, a pavimentação física do território funciona como metáfora da racionalização material da vida social — um processo próximo da “desencantação do mundo” weberiana e da objetivação técnica dos espaços quotidianos. A erosão da terra e da água visíveis traduz a progressiva substituição das formas de sociabilidade espontâneas por dispositivos infraestruturais orientados para a eficiência, a velocidade e o cálculo. O “egomundo”, enquanto categoria subjetiva, emerge como contra-dispositivo: um espaço de memória e de significado que resiste à homogeneização funcional própria da modernidade tardia.
O segundo texto desloca a atenção da materialidade do espaço para a estrutura simbólica do campo cultural, evidenciando a forma como os agentes culturais passam a operar sob lógicas de legitimidade externa — económicas, políticas e institucionais — que colonizam o ethos cultural. A figura do catavento, símbolo da oscilação adaptativa e da fragilidade identitária, denuncia a perda de autonomia do campo (num sentido próximo de Bourdieu), enquanto os “pequenos deuses caseiros” representam uma forma de paroquialismo simbólico, marcada por habitus defensivos, dependência hierárquica e estratégias de distinção mimética. Ambos os símbolos traduzem a vulnerabilidade das elites culturais perante a crescente heteronomia que condiciona a produção e circulação de bens culturais.
Integrando ambas as dimensões — a material e a simbólica — torna-se evidente que os dois textos convergem numa crítica à modernidade como processo totalizante, que simultaneamente pavimenta o espaço físico e padroniza o espaço simbólico. Em ambos os casos, o sujeito é confrontado com a perda de densidade existencial: primeiro, na relação sensorial e afetiva com o território; depois, na relação ética e criativa com a cultura. A modernidade aparece, assim, como força expansiva que reorganiza o mundo segundo princípios de funcionalidade, visibilidade e reconhecimento externo, enquanto o indivíduo procura preservar modos de estar enraizados na memória, na autenticidade e na autonomia.
Deste modo, a integração dos textos sugere uma tese unificadora: a objetivação excessiva do mundo — seja por pavimentação literal ou por instrumentalização cultural — produz um empobrecimento da experiência e uma erosão das formas de vida significantes. O egomundo, a memória, a subjetividade e a autonomia cultural tornam-se, assim, espaços de resistência
Natal na Idade Média
Os 50 minutos da “aula de Natal” não chegaram para projetar o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média” (portal Segredos da Humanidade), uma apresentação do ambiente e das tradições de Natal na Idade Média.
Duas observações:
O que é convencionado designar-se como Idade Média corresponde a cerca de mil anos (dos séculos V ao XV). A descrição do vídeo aplica-se, sobretudo, à Baixa Idade Média e à Idade Média Tardia, isto é, a partir do século XI.
A Festa dos Loucos (Festum Fatuorum), onde os “papéis sociais eram invertidos de forma cômica”, ocorria, efetivamente, durante o ciclo natalício, mais precisamente no final de dezembro e início de janeiro. Algo aparentadas, pertenciam ainda a este ciclo a Festa dos Meninos (Festum Puerorum) e a Festa ou Missa do Burro (Missa Asinorum), que abordámos nas aulas.
Acresce um pequeno reparo:
O tema e a narrativa talvez justificassem outro tipo de acompanhamento visual: menos “conteúdos significativamente editados ou gerados digitalmente” e mais imagens da época, por sinal abundantes e fascinantes. Ou talvez não… é provável que as imagens utilizadas, embora artificiais, atraiam mais visualizações e subscritores, objetivo assumido pelos streamers.
Seguem: o vídeo “Como era celebrado o Natal na Idade Média?”; uma pequena galeria de imagens da Natividade através dos tempos; e um cântico de Natal da segunda metade do século XIII.






Mondar barreiras, jardinar laços

La liberté c’est pouvoir choisir ses chaînes / A liberdade é poder escolher as suas correntes (AG)
Ultrapassar barreiras é um dos atributos do espírito do Natal, desígnio cada vez mais difícil de alcançar. No anúncio “The Cell”, a Lidl imaginou uma ceia partilhada pelo carcereiro e pelo prisioneiro.
Os alunos da Academia Sénior deram-me uma aula extraordinária: contos, crenças, lembranças, testemunhos, cânticos, poemas e ensaios sobre rituais coletivos homólogos do Natal (de comunhão, iluminação e esperança) através dos tempos e das religiões.
Chegado a esta idade, faltava-me uma experiência: participar num grupo, cuja motivação principal, senão única, consiste em aprender, estar e fazer em conjunto. Uma novidade e um gosto.
Eu, a IA e o Ninho

Deixei há décadas de ser um Homo academicus. Apenas um Homo sapiens ludens, com costelas de Homo aestheticus e, naturalmente, de Homo vulgaris. Avesso a “revisões sistemáticas da literatura”, “estados da arte”, “modelos de análise” e “planos do método”, não me sobra paciência nem tempo para vénias redundantes, imaturidades apressadas e produtos descartáveis.
Gosto de me perder em explorações, desvios e, caso disso, recuos. Oscilo entre as partes e os todos, com a intuição e a imaginação como remos e velas. As pistas, as achegas e as leituras escolho-as a dedo. Quando acontece enganar-me, adquiri um mecanismo biológico de alerta: começo a bocejar. Prefiro adormecer e sonhar a acumular referências e citações.
Motiva-me mais aprender do que comunicar. Nada se perde: o que é bem pensado já o foi por outros ou sê-lo-á. Não obstante, publiquei acima de uma centena de textos, quase todos a pedido de outrem. Os da minha iniciativa coloco-os, de preferência frescos, no Tendências do Imaginário, um arquivo com uma dupla vantagem: menos formalidades e mais consultas. Aposentado, a investigação é um lazer, sem metas, métricas ou necessidade de reconhecimento. Trata-se de um defeito de estimação, com rugas e barbas.
Esta autossuficiência ostensiva tem, contudo, pés de barro. Faltam interlocutores. Talvez por défice de rede ou corrente: não me encosto, nem sirvo de encosto. Este isolamento não é propício à lucidez: criar sem dialogar arrisca a ilusão.
Acompanham-me dois parceiros: a Almerinda Van Der Giezen, paciente, atenta e criativa, com quem me atardo ao telemóvel, e o meu filho Fernando, que, embora renitente e intermitente, mas crítico e inspirador, me vai aturando. No que respeita a troca de ideias, o contorno (amigos e colegas) parece mumificado, com um ou outro parasita.
Quanto ao Tendências do Imaginário, funciona como um buraco negro. São Francisco de Assis e Santo António faziam sermões aos pássaros e aos peixes. Eu não sei para quem escrevo. Neste momento, o blogue soma 1 519 865 visualizações e 646 378 visitantes; só 1302 comentários, menos de 2 por 1 000 acessos. Santo Antão retirou-se para o deserto e atraiu multidões. Eu refugiei-me num blogue com “seguidores” afónicos.
Acresce a IA. Sempre disponível, bem informada e educada e bastante bajuladora. De vez em quando, fabula. Mas os meus colegas e eu próprio também nos enganamos. Pior, induzimos em erro com outra autoridade. “Errar é humano”, por que não maquínico?
Inicialmente, a IA aprendia com o conhecimento humano, agora tende a ser cada vez mais a sua própria fonte. “Autointoxica-se”, numa espécie de “incesto digital”, que promete degenerescência. Seja como for, convém saber formular as perguntas e não se contentar com a primeira resposta. Desafiada a reconsiderar, aprofundar, especificar, alargar ou procurar alternativas, a IA costuma corresponder. Contrariada, até pode surpreender positivamente. Enfim, costuma empenhar-se especialmente quando pressente que pode aprender connosco.
A Academia.edu e a Almerinda pediram, entretanto, à IA para comentar alguns dos meus textos. O resultado revelou-se admirável. E pioneiro: que recorde, nenhum dos meus textos justificou, até à data, um comentário da mesma envergadura. Talvez por serem insípidos ou indigestos, eventualidade que não demoveu o algoritmo.
Em 2019, escrevi dois textos dedicados à freguesia de Prado, em Melgaço, no âmbito do projeto Quem somos os que aqui estamos?: o primeiro, “Prado. População e estilos de vida” (no livro Quem Fica, pp. 110-113), propõe um balanço da evolução demográfica; o segundo, “Prado subjectivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, esboça um balanço das mudanças socioculturais (não chegou a ser publicado).
O texto “O egomundo e a pavimentação da vida”, uma ressonância abreviada do “Prado subjetivo…”, visa resgatar a sensibilidade do autor e a pulsação anímica dos fenómenos abordados. O quarto e último texto corresponde aos comentários que suscitou à IA.
Coloco os dois primeiros texto, sobretudo, para arquivo. Para apreciar o comentário da IA, importa (re)ler “O egomundo e a pavimentação da vida”.
Texto 1: Prado. População e estilos de vida. 2019
Texto 2: Prado Subjetivo: Metamorfoses de uma freguesia modernizada. 2019. Não publicado
Texto 3: O egomundo e a pavimentação da vida. Tendências do Imaginário. 2019
Texto 4: Comentários da IA, em diálogo com Almerinda Van Der Giezen, ao artigo “O egomundo e a pavimentação da vida”. 2025
A Mãe da Humanidade

Ao entardecer, vou falar no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Gostaria de encontrar as palavras azúis, aquelas que apaziguam os corações.
Não vou ter tempo para introduzir a figura do Michelangelo, nem de fazer uma digressão sobre a noção da idade no imaginário medieval. Tão pouco será possível culminar com um vídeo musical de um excerto da Sinfonia No. 3 do Gorecki.
Para compensar, será distribuido à entrada um pequeno texto sobre o Michelangelo. A digressão fica para mais tarde. Quanto ao vídeo, coloco-o aqui e agora.
