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“As da raia”, contrabando entre Galiza e Portugal

O jornal galego Faro de Vigo publica hoje, 25 de outubro de 2025, a reportagem “«As da raia», contrabando entre Galicia y Portugal”, da autoria de Malena Álvarez. O artigo focaliza-se em particular no concelho de Melgaço. Contém testemunhos de várias mulheres que intervieram no contrabando. Tive o gosto de colaborar, tal como o Américo Rodrigues. Para aceder ao artigo, carregue na imagem seguinte ou no endereço: https://www.farodevigo.es/estela/2025/10/25/as-da-raia-contrabando-galicia-123019046.html

«As da raia», contrabando entre Galicia y Portugal. Por Malena Alvarez. Jornal Faro de Vigo, 25 OCT 2025 18:33

A mobilização das identidades locais. O caso da aldeia da Varziela de Castro Laboreiro

Acaba de ser publicado na revista Trabalhos de Antropologia e Etnologia (2025, volume 65, pp. 379-398) o artigo “Varziela – Do comunitarismo agro-pastoril às redes sociais”, da autoria de Álvaro Domingues.

Chegou a estar previsto integrar este estudo na revista Boletim Cultural nº 11, da Câmara Municipal de Melgaço, lançada em janeiro de 2025, mas não se proporcionou.

Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, no caso vertente um projeto de aproveitamento turístico por um influencer de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.

Centrado em Castro Laboreiro, nomeadamente na aldeia de Varziela, o artigo constitui, antes de mais, um ensaio sobre a mobilização das identidades locais na era da globalização, neste caso, a propósito de um projeto, promovido por um influencer, de aproveitamento turístico de um lugar (destino) recôndito com selo (#) de autenticidade cultural e qualidade ambiental.

Para aceder ao artigo através do link respeitante à globalidade da revista, carregar na imagem com a capa ou no seguinte endereço: https://revistataeonline.weebly.com/uacuteltimo-volume.html

Acrescento um vídeo com o projeto de aproveitamento turístico da aldeia da Varziela programado pelo  influencer João Amorim.

Comprei MEIA ALDEIA por 100 000 € – O projeto. Follow the Sun. Colocado em 17.03.2024

O Cinzel e o Pincel. A Ilusão, de Michelangelo à Arte de Rua

Michelangelo foi escultor, pintor, arquiteto e poeta. Autor, por exemplo, na escultura, da Pietà Vaticana, do David e do Moisés, na pintura, do teto da Capela Sistina e do Juízo Final, na arquitetura, do projeto da cúpula da Basílica de São Pedro, da Biblioteca Laurenziana e da Praça do Campidoglio. Escreveu cerca de 300 poemas, a maior parte sonetos e madrigais.

Imagem: Daniele da Volterra – Retrato de Michelangelo, c, 1553. Museu Teyler, Haarlem

Galeria: Obras de Michelangelo (Carregar nas imagens para as aumentar e ver as legendas)

Apesar da sua reputação em todos estes domínios, Michelangelo, assume-se, antes de mais, com escultor. Abraça a vocação desde a infância como um destino com contornos praticamente místicos.

A primeira oficina onde se exercitou foi a de Domenico Ghirlandaio, com quem não teve boas relações. O que se deveu, sem dúvida, a que, a partir de certo momento, Michelangelo deixou de considerar a pintura como uma arte e descobriu que a essência do seu génio propendia para a escultura. O artista imortalizado pelos frescos da Capela Sistina não queria na realidade pintar, e quando o fez foi sempre de má vontade e forçado. Por esse motivo, decidiu passar para a oficina de Giovanni di Bertoldo, aluno de Donatello, que dirigia uma escola de escultura bem como a coleção de antiguidades de Lorenzo de Médici nos jardins de San Marco” (Gilles Néret, Miguel Ángel, TASCHEN, 2024, p. 10).

No âmbito da própria escultura, desvaloriza as modalidades que em vez de retirar, acrescentam matéria, como a modelagem em barro ou gesso. Na sua óptica, a matéria, por exemplo, um bloco de mármore, já contém dentro a figura a desvelar. Esculpir consiste em escavar, em retirar o supérfluo, para libertar o essencial. Atente-se no soneto “Non ha l’ottimo artista alcun concetto” (Selected poems from Michelangelo Buonarroti. Boston: Lee and Shepard, publishers, 1885, p. 68):

Imagine-se Michelangelo obcecado, exausto, sofrido, mal nutrido e mal dormido, eventualmente penitente, a martelar, cinzelar e polir um bloco de pedra, dias, meses, anos a fio, até eliminar o último excedente que obsta à perfeição. Mais do que uma libertação, trata-se, porventura de uma purificação, senão de uma revelação. Ao esculpir, Michelangelo excede a matéria e excede-se. Ao demandar a essência e criar beleza, pressente e aproxima-se do divino. Pelo menos, assim o experiencia até que acaba, com a idade, por descrer nas potencialidades e virtudes da beleza.

Se a pedra encerra em si a ideia, não admira a importância atribuida à sua escolha. Tornou-se famosa a reação inicial perante o bloco de que resultou o David. Ao contrário dos artistas que antes dele desistiram, sente-se imediatamente atraído e desafiado pela promessa que aquele monstro com 5,5 metros de comprimento e 12 toneladas de peso lhe inspira.

Com apenas um ano para entregar a Pietà, dispendeu mais tempo a selecionar e a transportar o bloco de mármore do que a esculpi-lo! O filme “Il Peccato – Il furore di Michelangelo”, de Andrei Konchalovsky (2019), ilustra esta realidade: atarda-se mais em Carrara do que em Roma ou Florença.

Il peccato – Il furore di Michelangelo. Rússia – Itália. Realização: Andrei Konchalovsky. Outubro 2019. Duração: 134 minutos. Em italiano, legendado em espanhol

Michelangelo não se identifica, sem magem para dúvida, como pintor. Pergunta uma aluna: “Então, como produziu obras tão grandiosas como o teto da Capela Sistina ou o Juízo Final?”

Quando pintou foi por interesse monetário, como o Tondo Doni (1504-1506), ou obrigado, como o teto da Capela Sistina (1508-1512), pela insistência inabalável do Papa Júlio II. A propósito desta incumbência, escreve no último verso de um poema: “Eu não estou no lugar certo, nem sou pintor” [ver poema 2].

Imagem: Michelangelo. Santa Família. Tondo Doni. 1505-06

Mas, mais uma vez, Michelangelo lida com a contrariedade inovando. Cria uma nova maneira de pintar. Transforma, de algum modo, o pincel em cinzel e pinta como quem esculpe, apostando no volume, na luz e na ilusão. Os seus afrescos distinguem-se claramente dos precedentes, mais estáticos e aplanados (ver o exemplo de Piero della Francesca).

Piero della Francesca, Procissão da Rainha de Sabá; Encontro entre a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, entre 1452 e 1466 San Francesco, Arezzo. Depois e antes do restauro.

A pintura de Michelangelo é uma pintura de escultor. Isto é evidente. Ao modelado fluido, macio, à sombra carregada de mistério de Leonardo da Vinci, opõe-se aqui um jogo de sombras e de luzes de uma nitidez perfeitamente escultural. Michelangelo não é um pintor, é um escultor que utiliza os seus pincéis como utiliza o cinzel ou o martelo. Talha os rostos, os corpos, o vestuário, como admirador da força e da beleza do ser humano e da matéria (Renée Arbour, Michel-Ange, Paris, Editions Aimery Somogy, 1962, pp. 53-54).

Michelangelo. Capela Sistina, 1508-1512
Michelangelo. Capela Sistina. Detalhe. 1508-1512

Esta arte de pintar será adotada e desenvolvida pelos maneiristas. A multiplicação de planos, o volume e a luminosidade tendem a substituir-se à perspetiva renascentista. Nas paredes e nos tetos do Palazzo Te, em Mântua, Giulio Romano, um dos principais assistentes de Rafael Sanzio, expande e aprimora o ilusionismo: acrescenta o trompe l’oeil e a sensação de imersão [Na era digital, a experiência de imersão, em particular nas pinturas, tornou-se uma atração turística monumental, ver A pedreira das luzes, 21.12.2017: https://tendimag.com/2017/12/21/a-pedreira-das-luzes/).

Giulio Romano, Rinaldo Mantovano e Benedetto Pagni, Sala dos Cavalosi, Palazzo Te, ca. 1526-28
Giulio Romano, Rinaldo Mantovano e Benedetto Pagni, Camera di amore e psiche, Palazzo Te, ca. 1526-28

O chão da Sala dos Gigantes do Palazzo Te era originalmente revestido com seixos para dar aos transeuntes a sensação de catástrofe correspondente ao tema que é retratado no fresco envolvente.

Volvidos 150 anos, em plena era barroca, Andrea Pozzo esmera este estilo de afresco nas glórias dos tetos das igrejas de São Francisco Xavier (1676), em Mondovi, e de Santo Inácio de Loiola (1685), em Roma.

Andrea Pozzo. Falsa cúpula com A Glorificação de S. Francisco Xavier, ca. 1676, Mondovi, Piedmont
Andrea Pozzo. Apoteose de Santo Inácio. Igreja de Jesus. Roma. 1684

No corredor da Casa Professa dos Jesuítas em Roma, um autêntico assombro de ilusionismo, Andrea Pozzo retoma um efeito ainda não referido: a anamorfose. Segundo o dicionário, uma anamorfose é “uma representação ou imagem que parece deformada ou confusa e que se apresenta mais regular ou mais perceptível em determinado ângulo ou posição ou ainda através de lente ou espelho não plano”.

Andrea Pozzo. Corredor da Casa Professa dos Jesuítas em Roma, após ca. 1680

Dois anjos, deformados quando observados de frente, adquirem realismo e volume se perspetivados a partir de um ponto predeterminado assinalado no solo.

Andrea Pozzo não foi pioneiro em matéria de anamorfose. Por exemplo, o quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein, concluído em 1533, oferece uma das anamorfoses mais célebres da história da arte. Precisa e minuciosa, a pintura apresenta, insolitamente, uma espécie de borrão na parte inferior. Ao deslocar-se para a direita, o espetador é surpreendido, a um dado momento, pela transformação dessa anomalia numa caveira, numa vanitas.

O recurso a estas diversas formas de ilusão na pintura prosseguiu, naturalmente, até aos nossos dias. No século XX, destacam-se, por exemplo, René Magritte, Salvador Dali ou Mauritius C. Escher. Termino, porém, com uma galeria composta por uma quinzena imagens provenientes da arte de rua (street art), que anima cada vez mais as paredes e os pavimentos do nosso quotidiano.

Antes de concluir esta travessia algo vertiginosa que nos trouxe desde Michelangelo até à atualidade, gostaria de proceder a uma ressalva. Um fenómeno quase nunca começa no “início”. Costuma ter precedentes. O recurso a vários planos, ao volume e à ilusão não esperou pelos frescos do teto da Capela Sistina. Já espreita nas iluminuras medievais. Encontra-se um bom exemplo na página “L’eterno e gli eremiti” do livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, concluido pelos ilustradores Giovannino dei Grassi e Belbello da Pavia por volta de 1390, um século antes das pinturas de Michelangelo.

Livro de Horas de Visconti. L’eterno e gli eremiti, ca. 1390. Biblioteca Nacional de Florença

Parte da imagem condiz com o esquema visual a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos  transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página. (Albertino Gonçalves, A ilusão: Da iluminura ao postal ilustrado, 18.10.2012: https://tendimag.com/2012/10/18/a-ilusao-da-iluminura-ao-postal-ilustrado/).

Galeria com uma amostra de exemplos de arte de rua

P.S. – Este artigo corresponde, grosso modo, à aula de 9 de outubro de 2025 da disciplina Sociologia da Arte e do Imaginário, na Academia Sénior de Braga.

Enoturismo em Melgaço

Vinha em Melgaço. Fonte – Voz de Melgaço, 9 de Novembro, 2023

Graças ao Válter Alves e ao blogue Melgaço, entre o Minho e a Serra, tomei conhecimento da convidativa reportagem da RTP dedicada às múltiplas virtudes do enoturismo do território de Melgaço. Para aceder, carregar aqui ou no vídeo seguinte.

Programa “A Essência” da RTP de 13-09-2020 dedicado a Melgaço

Pietà colorida

Hoje, adquiri uma Pietà. Andava à procura de uma boa versão colorida há muito tempo.

Aliás, também estou a preparar há anos uma “aula poética” sobre as esculturas da Pietà desde inícios do século XIV até finais do seculo XV. O título principal será “Com o Filho no Colo”.

Acontecerá lá para outubro ou novembro, se entretanto não me estimar demasiado ignorante.

Os leilões online são um dos meus passatempos preferidos. Normalmente, sei o que pretendo e não descanso até encontrar a bom preço.

A proprietária teve a gentileza de me trazer a escultura a casa.

De pedra, com 40 cm de altura, é deveras pesada.

Conduzi a senhora, sempre com a escultura no seu colo, até à sala onde já estava um lugar vago reservado na lareira, um dos santuários domésticos.

Pedi-lhe para ser ela a colocá-la. Apaguei-me enquanto permaneceu um bom momento a contemplá-la como quem se despede:

“Sabe, já a tenho comigo há mais de 20 anos. Mas fica bem entregue!”

Philip Glass – Closing. Glassworks, 1982. From 2017 PCF Concert at Merkin Hall Jan 9

Recordações do liceu Sá de Miranda

Escadas do Liceu Nacional Sé de Miranda, em 2014

Esparsa
Não vejo o rosto a ninguém,
cuidais que sou, e não sou.
Sombras que não vão nem vêm,
parece que avante vão.
Entre o doente e o são
mente cada passo a espia;
no meio do claro dia
andais entre lobo e cão.
(Sá de Miranda)

Revolvo o passado. Por estímulo alheio. O Facebook conduziu-me às publicações de agosto 2021 (Jogar às cartas com o Diabo 1 a 5), a Almerinda Van Der Giezen desencantou esta entrevista de 2014: O ensino depois da Revolução. O Fernando precisou que já me tinha mostrado a fotografia. A minha memória parece uma peneira que só retém o restolho.

A vida está cheia de ruturas e viragens, mas, pelos vistos, persistem algumas linhas de fundo. Por exemplo, a alergia à disciplina e o amor, entre outros, à arte.

Reparo que me tenho autocentrado demasiado. Quase sem convívio, propicia-se o diálogo comigo mesmo. Por acréscimo, experiências recentes inspiram-me a apostar menos na invisibilidade.

Neste mundo (no outro, não sei), para que serve e a quem serve a humildade? Não resulta de escassa utilidade para o próprio? Não tende a prejudicá-lo e a beneficiar os outros? Quem prega a humildade? A quem? Pregar a humildade não costuma ser uma iniciativa de humildes.

A despropósito, as palavras humilde e humilhado partilham a mesma raiz etimológica. Ambas derivam do adjetivo humilis (perto do solo) associado ao vocábulo humus (terra ou solo). Humilde significa perto do solo, sem elevação excessiva; humilhado, remetido para o solo, rebaixado.

Na banda desenhada, por exemplo, existem personagens que brilham pela humildade ou, até, humilhação, tais como o Pateta, o Felipe e o Charlie Brown ou Calimero e o Cascão.

O Tendências do Imaginário funciona não só como diário, mas também como arquivo. Faltava esta peça. Para aceder à entrevista, carregar na fotografia acima ou no seguinte endereço: https://ensinopij1314.weebly.com/vocaccedilatildeo.html.

Jogar às cartas com o Diabo 4. Meia dúzia de mãos

Quando encalhamos, torna-se difícil voltar a navegar. Principalmente sem a ajuda de alguém que sopre às velas e reme connosco.

Convém esperar pouco dos outros, por muito amigos que sejam. Uma vez fora de circulação, desaparecemos das suas agendas.

Imagem: Valerio Cioli, Alegoria da Escultura. Túmulo de Michelangelo. Ca. 1564-74

Durante três anos, sobram os dedos das mãos para contar as visitas. Quase todas uma única vez, uma ou duas de familiares ou colegas. Partilhei o dia a dia apenas com três companhias: a São, mulher, o Fernando, filho, e a Ana, empregada.,

Cuidar, desamparado, de um dependente deve ser duro. Dar-lhe o colo numa travessia que o arrasta para a eternidade, ainda pior. Uma experiência desgastante e demolidora das pessoas e respetivas relações.

Seguem os artigos Embarcados (08.08.2021), Abrigo (06.08.2021) e A tua mão (08.08.2021).

Embarcados

Ícaro. Recipiente de terracota. Grécia. Século V a. C. The Metropolitan Museum of Art.

Estás embarcado (Blaise Pascal). Por inteiro. Não pasmes! Ousa! Aposta! Perde-te! Renova! Sê trágico! Sê insensato! Arranha as asas! Rasga as fraldas do mundo! Somos pequenos, somos de uma pequenez infinita (Blaise Pascal).

Segue uma interpretação, original, despojada, das Bachianas nº5, de Heitor Villa-Lobos. Adiciono um vídeo da canção Hey You, dos Pink Floyd.

Heitor Villa-Lobos: Bachianas brasileiras No. 5, W. 389, 1. Aria (Cantilena). Ao vivo em Borchardt, Berlim. 2018. Intérprete: Nadine Sierra.
Pink Floyd. Hey You. The Wall. 1979. Ao vivo no Eart’s Court, em Agosto de 1980.

Abrigo

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

(Antero de Quental)

Branda da Aveleira, 2003.

Verdi. La Traviata. Excerto.

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.

Jogar às cartas com o Diabo 3. E a vida sorri! Rejuvenescimento tardio

A Fonte da Juventude. ‘De Sphaera’ fol.11r. Escola Italiana. 1450-1460. Biblioteca Estense, Modena

O alívio não basta! Não move moinhos. Importa restaurar. Inverter, na medida do possível, o prolongado envelhecimento precoce. Arregaçar a vontade e pôr a alma a pedalar. Os artigos Reincidência (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021) expressam este sonho de rejuvenescimento tardio.

No mesmo dia, 15 de julho de 2021, os astros sintonizaram-se numa constelação estelar ímpar. Apareceram anjos em dois hospitais. Em Braga, a neurologista Margarida Rodrigues desmascarou o Mal, abrindo, a porta à cura; em Antuérpia, nasceu a neta Sara, um passarinho acabado de sair do ovo. Uma deu vida, a outra fôlego. Ambas as graças merecem um cântico de natividade especial: “Sã qui turo zente pleta” (Sara, 05.08.2021). Estou a incorrer em pensamento mágico? Certamente, mas a fé e a magia são performativas. Não movem só moinhos, mas até montanhas. Assim iniciou uma nova maratona. Com os restos do corpo que sobraram….

Seguem os artigos Sara (05.08.2021), Reincidência. O híbrido e o ciclista (06.08.2021) e Aleijados (07.08.2021).

Sara

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo (Miguel Torga).

Sara.

E a vida sorri! A Sara nasceu no dia 15 de Julho de 2021.

Coro de natividade: Sã qui turo zente pleta. Vilancico negro português anónimo do séc. XVII. Intérprete: Coro Sinfónico Lisboa Cantata.

Reincidência. O híbrido e o ciclista

Umberto Boccioni. Dinamismo de um ciclista. 1913.

Sem descurar a pedalada belga, holandesa e chinesa, a França é, em termos míticos, o país do ciclismo. Retenha-se, por exemplo, o filme As Bicicletas de Belleville (ver anexo 2) ou o álbum Tour de France, dos Kraftwerk (anexo 3). O protagonista do anúncio Unstoppable, da Renault, é um veterano ciclista que regressa à estrada. Barroco, o argumento não é original (anexo 1). Um sucedâneo da lenda da fonte da juventude, neste caso, a prenda.. Empolgante, o anúncio é extenso, sinuoso, invertido e retorcido. Ironicamente, vejo e revejo este anúncio sentado numa cadeira de rodas.

Marca: Renault Captur. Título: Unstoppable. Agência: Publicis Conseil. França, Maio 2021

Anexo 1: Anúncio Dream Rangers.

Marca: TC Bank. Título: Dream Rangers. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.

Anexo 2: Trailer do filme Les Triplettes de Belleville.

Les triplettes de Belleville (trailer). Realizador: Sylvain Chomet. França, 2004

Anexo 3: Tour de France, dos Kraftwerk.

Kraftwerk. Tour de France. Tour de France Soundtracks. 2003. Vídeo Oficial

Aleijados

Oscilamos entre o gesto da compaixão, que sofre com o outro, e o olhar à distância que se deleita com ao espetáculo da miséria do mundo (inspirado em Hannah Arendt e Luc Boltanski).

Mendigo aleijado. Tóquio. 1965. Por Daido Moriyama.

Acorda devagar! Humano. Não te importes de perder tempo. Ganhas seiva e vida! O anúncio tailandês Beautiful Run é magnífico. Um épico do sofrimento e da solidariedade. Excessivo, lento e repetitivo. Diria, “maneirista”. Uma jovem inválida participa numa maratona para curar o pai. Não há maior competição do que aquela que mobiliza as pernas da alma.

A minha escrita foi-se tornando minimalista. Com a recente abstinência forçada, o vício agravou-se. Não escrevo textos. Escrevo esqueletos de palavras.

Marca: CP Group. Título: Beautiful Run. Agência: Ogilvy Thailand. Direção: Suwimol Suthanya. Tailândia, Julho 2021

Luminárias

Entrevista junto ao Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Julho 2025. Fotografia de Março Gonçalves

Os “intelectuais” ganhavam em ser mais contidos quando falam sobre assuntos e pessoas que não conheceram. Pela experiência que tenho, que pode ser errada, considero o “mundo intelectual” particularmente propenso ao delírio. A banda norte-americana The Lumineers vem, pelo título (luminárias), a talhe de foice.

O artigo Numinoso, de 11.02.2022, já inclui os sucessos “Ho Hey” e “Stubborn Love”, do álbum The Lumineers (2012). Acrescento, agora, “Cleopatra”, “Sleep On The Floor” e “Gloria”.

The Lumineers – Cleopatra. Cleopatra, 2016. Live for KEXP at Columbia City Theater. Recorded April 1, 2016
The Lumineers – Sleep On The Floor (Official Video). Cleopatra, 2016
The Lumineers – Gloria. III, 2020. Live On The Graham Norton Show. © 2019

Cosmética pomífera. Maçãs, ideias e ilusões

“Se tens uma maçã [um dólar] e eu tenho outra; e trocamos as maçãs [os dólares], então cada um ficará com uma maçã [um dólar]. Mas se tens uma ideia e eu tenho outra, que partilhamos; então cada um terá duas ideias.” (A partir de George Bernard Shaw)

Imagem: George Bernard Shaw

Numa série de anúncios provenientes da Arábia Saudita, a Apple propôe-se contribuir para a (re)composição dos retratos e dos laços de família, designadamente no que respeita ao protagonismo e ao encanto dos membros atuais e futuros. Trata-se de uma gestão da imagem capaz de potenciar o desígnio de ilusionismo almejado, sobretudo, por tantas figuras públicas, ver políticas.

Marca: Apple. Título: Favorite Son. Agência: TBWAMedia Arts Lab London. Direção: Ali Kalthami. Arábia Saudita, 2025
Marca: Apple. Título: The Matchmaker. Direção: Ali Kalthami. Arábia Saudita, 2025