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Anúncio português vintage 4. Quanto mais cópias, menos originais

Folha a folha, apaga-se a floresta. O anúncio “Cópias”, do Observatório do Ambiente, não precisa nem mais tempo, nem mais imagens. “Quanto mais cópias, menos originais. Não desperdice papel”. Neste aspeto, bem-vindo o digital. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo]

Anunciante: Observatório do Ambiente. Título: Cópias [?]. Agência: McCann Erickson. Portugal, 2001

O papel como destino

Imagem colocada por Almerinda Van Der Giezen, no Facebook, em 26.08.2025

Há imagens que valem mais do que mil palavras.

Consta que Prometeu trouxe o fogo e o progresso. Pois, parecem insinuar-se espectros de árvores em papel precoce.

Uma espécie de memento mori?

Acode-me um artigo publicado há dez anos, no dia 30 de agosto de 2015, O Abismo, que anexo.

Imagem: Jan Cossiers – Prometeo trayendo el fuego, 1636-1638. Museu do Prado

O abismo (30.08.2015)

Incêndio em Caminha. 2015

Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!

O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.

Marca: Unilever. Título: Farewell to the forest. Agência: David Buenos Aires/Ogilvy & Matter. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Agosto 2015.

Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017

Os pés

René Magritte. Le Modèle Rouge. 1935

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)

Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)

Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.

Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.

Carlos Hof – “Adore” (Julie Gautier Visualiser). Por Marriott Bonvoy, 2019
Narcisse (feat. Julie Gautier). Por Julie Gautier & Behind The Mask, abril 2022
NARCOSE by Julie Gautier with Guillaume Néry, janeiro 2023
Carte Blanche (Directed by Julie Gautier). Paris Haute Couture week, January 23rd, 2023
BAKELITE by Julie Gautier | #SickOfPlastic campaign. Produced by @imagine2050_ and Magali Payen. Directed by  @juliegautierofficial, 07/11/2023

Somos o que deixámos de ser

A ubi vinimus?

De onde viemos? Em “Immortal: Nature’s Symphony”, o Royal Ontario Museum convida-nos a testemunhar a história do mundo através da experiência de um chimpanzé que não para de cantar uma ária da ópera italiana L’elisir d’amore. Uma maravilha!

Anunciante: Royal Ontario Museum. Título: Immortal: Nature’s Symphony. Agência: Broken Heart Love Affair/Toronto. Produção: Revolver Films. Efeitos especiais: Chemistry Film. Direção: Rune Milton. Canadá, novembro 2024

O humano nas alturas

Virgem com o Menino, Santa Clara, Santa Marta, Santa Lúcia e Santo António Abade. Oficina de Llorenç Saragossà. 1365. Detalhe. Museu Nacional de Arte de Catalunha.

Ontem, socializei! Visitas ao almoço e ao lanche. Ao entardecer, o magnífico concerto na Igreja dos Congregados dedicado às “Lamentações para a Semana Santa”, do compositor belga Joseph-Hector Fiocco, pelo Ensemble Bonne Corde, com Diana Vinagre, violoncelo barroco e direcção artística; Ana Quintans, soprano; Rebecca Rosen, violoncelo barroco; Marta Vicente, contrabaixo barroco; e Miguel Jalôto, órgão. Tantos talentos jovens!

À noite, explorei imagens da Virgem Maria para um texto que estou a escrevinhar intitulado “A Cruz e o Cálice” onde abordo as figuras de Cristo como proeminência e Maria como recetáculo. Bafejado pela sorte, descortinei um detalhe inesperado com o momento em que a pomba do Espírito Santo penetra na auréola/corpo da Virgem, num painel da Oficina de Llorenç Saragossà, datado por volta de 1365.

Por último, o habitual momento de recolhimento quotidiano. Coloquei um vídeo com a música My Heart’s in the Highlands, do Arvo Pärt (na imagem), e, reclinado, deixei-me planar pelas alturas, como quem se aproxima do divino neste mundo.

Arvo Pärt – My Heart’s in the Highlands. 2000. David James (countertenor), Christopher Bowers-Broadbent (organ).
Virgem com o Menino, Santa Clara, Santa Marta, Santa Lúcia e Santo António Abade. Oficina de Llorenç Saragossà. 1365. Museu Nacional de Arte de Catalunha

Nuvens de lã

Todos viajam nesta casa. A São já está na Holanda e os rapazes, o João e o Fernando, ainda no avião rumo à Coreia do Sul e ao Japão. No que me respeita, nem sequer demando as terras por onde andou o rei pasmado (Gonzalo Torrente Ballester). Fico de guarda, mas não conto carneiros. Vejo, antes, a sua lã transformar-se em nuvens que choram, na extraordinária curta-metragem de animação AFTER DE RAIN, produzida por um grupo de alunos da MoPA (Motion Picture in Arts – Arles, França).

Para a Sara

Um pastor vive sozinho num vale isolado, acompanhado apenas pelo seu rebanho de ovelhas e pelo seu cão fiel. O pastor tem uma aptidão notável: tosquia as ovelhas e cria nuvens com a lã, que por seu turno se desfazem em chuva, mantendo o vale verdejante e fértil. Mas quando o pastor morre, o vale torna-se árido e as ovelhas necessitam ser tosquiadas. Cumpre ao cão encontrar uma solução…
Com imagens extravagantes, uma narrativa escorreita e um fundo musical impecável, esta curta-metragem oferece uma bela parábola sobre natureza, equilíbrio, lealdade e herança. Encanta os olhos e ouvidos com formas suaves e arredondadas e cores lindamente claras, representando personagens e cenários com sensibilidade, graça e atenção aos detalhes e gestos para comunicar emoções. Por exemplo, na maneira como o pastor acaricia o cachorro, na forma como este abana o rabo ou na sua tristeza e perplexidade quando o pastor morre. Mas também há humor fino e bem-disposto, como quando as ovelhas incham por causa da lã demasiado crescida…
AFTER THE RAIN excela ao nível do modo como conta a história. Embora a sua duração seja inferior a nove minutos, possui a profundidade, a inteligência e a sabedoria caraterísticas de narrativas muito maiores. Como a maior parte das grandes histórias da literatura infantil, explora o arquetípico e o simbólico, colocando emoções e dilemas universais ao serviço do esclarecimento moral e emocional (Omeleto, 2020; tradução muito livre).

AFTER THE RAIN. Curta-metragem produzida pelos alunos da Escola de Animação Francesa MoPA Valerian Desterne, Juan Olarte Zuniga, Carlos Osmar Salazar Tornero, Lucile Palomino, Juan Pablo de la Rosa Zalamea, Celine Collin and Rebecca Black, 2019. Colocado por Omeleto no YouTube em janeiro de 2020.

O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 3

Com estas três parcerias de 2024, concluo este devaneio domingueiro acompanhado pela voz de Ekaterina. Desejo uma boa semana de trabalho, que, segundo alguns entendidos, o trabalho configura uma potencialidade do ser humano. Mudando de assunto, que este oferece-se resvaladiço, porventura mais consensual, a minha bisavó não se cansava de repetir: se perseguires o belo, talvez encontres o prazer!

Na canção e no vídeo “Stand Still”, vocacionada para uma conexão com a natureza, ela é o vento e ele a árvore.

Ekaterina Shelehova & Thom’Art Raidho – Stand Still. Stand Still, 2024

Ekaterina Shelehova, Vian Izak & RØRE – Glow in the Dark. Where do we end up when life goes on?, 2024
Ekaterina Shelehova, Nathan Pacheco & Leo Z – L’Assenza. L’Assenza, 2024

Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas

O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.

Marca: Le Gaulois. Título: French Cancan. Agência: Leo Burnett (Paris). França, 2007

No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Chicken – Magic Body Control. Agência: Jung Von Matt/Neckar Stuttgart. Direção: Daniel Warwick. Alemanha, 2014

Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.

Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…

Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.