Roupa fantasma
“Every synthetic garment ever made still exists in any form haunting our planet”. Nem mais, nem menos. Trata-se de uma coisa do outro mundo que está a acabar com o nosso! No anúncio “Wear Wool, Not Waste”, da Woolmark Company, a roupa sintética não sei se me lembra os pássaros do Alfred Hitchcock, se os zombies do George A. Romero. Sem poupar nos pixéis, com tanta roupa a cair, além de Os Pássaros (1963) e A Noite dos Mortos-Vivos (1968), acudir-me-ia também o Nove Semanas e Meia (1986), do Adrian Lyne.
Este anúncio é bem ao gosto da Beatriz, em particular da sua devoção pela reciclagem de roupa. Já o comentário, menos sério, duvido.
Registo Civil Vegetal e Limoeiro

O limoeiro é muito bonito e a flor do limão é doce
Mas o fruto do pobre limão é impossível de comer
(Peter, Paul & Mary, Lemon Tree, 1962)
A árvore torna-se forte com o vento (Séneca, 4 a.C. – 65 d.C.)

Uma ideia genial preside ao anúncio “Árvore”, da rádio e TV brasileira Jovem Pan, qualidade que compensa a fraca resolução do vídeo. Um caso ímpar de minimalismo perspicaz e eloquente, Leão do Festival de Cannes de 1998. As versões inglesa e portuguesa são acompanhadas por dois cartoons deveras sugestivos e pela canção Lemon Tree.
Cartoon: Alireza Karimi Moghaddam, iraniano
O Rei Vai Transparente

Vídeos que convocam a nudez, estilizada ou não, como os seguintes são cada vez mais raros na publicidade e na comunicação social. Migraram para as redes sociais e páginas especializadas da Internet. Trata-se de uma mudança de mentalidade e de sensibilidade, de uma contradança acelerada a que o homem eletrónico nos habituou.
Neste contexto e com esta dinâmica, não admira que estes três anúncios sejam difíceis de encontrar, sobretudo La Poire, de 1990, e Anti Dioxine, de 1997. Para exibir o primeiro, recorri ao arquivo pessoal; o fabuloso arquivo da Culturepub valeu-me no segundo. Procurei e procurei, principalmente o Antidoxine, cujo acesso, em dois tempos, não é amigável: primeiro, carrega-se na imagem do artigo; em seguida, abre-se o vídeo na Culturepub. Nem sequer no arquivo da Greenpeace International o encontrei. O que se compreende. Diferente dos demais, Anti Dioxine não mostra, como diria um tio, as “partes pudibundas”. Sugere algo pior. Dá asas à imaginação. Ora, os neurónios em voo não são de fiar.

Andam deveras zelosos os guardiões da ética. E muito atarefados, também. A amplitude e as subtilezas do mal não param de alastrar. Neste cenário adverso, toda a ajuda é pouca!
Há quatro ou cinco séculos, as famílias respeitáveis retocavam ou amputavam as pinturas e as esculturas para furtar as crianças a semelhantes obscenidades. Hoje, os bebés mergulham, porventura demasiado cedo, nos ecrãs e folheiam histórias duvidosas. Até a literatura infantil requer pente fino. A começar pelos títulos. Proponho, por exemplo, a alteração de O Rei Vai Nu, de Hans Christian Andersen, para “O Rei Vai Transparente”. Assim, toda aquela multidão não “vê” o rei nu mas transparente! Esta solução possui, aliás, a virtude de se coadunar com o linguajar e as preocupações atuais.
Enfim, o único intuito com que partilho estes vídeos indecorosos é de ordem meramente profilática, em jeito de vacina ou para homeopatia. Não se brinca com estas coisas!
Ecologia do espírito

É um consolo ouvir a neerlandesa Mei-Ian (e o paquistanês Ali Pervez Mehd) com o chilrear dos pássaros e o murmúrio do mar como único fundo. Acresce uma sensação de estar bem consigo mesmo (nem por isso com o mundo). Uma prioridade que vinga há décadas. O resto… o resto pode passar, pode esperar. Misticismo, religiosidade ou ética singela? Uma espécie de “ecologia do espírito”, que nada tem a ver com egoísmos ou altruísmos.
Gregory Bateson. Steps to an Ecology of Mind. 1ª ed. 1972
Atribulações climáticas
O ambiente e as alterações climáticas estão na ordem do dia. Até rendem simbolicamente como alegoria ou disparate. Por exemplo, na publicidade, como alegoria no anúncio The Tempest, do Grupo Boticário, e disparate, no anúncio The Big Jump, da Gaz Réseau Distribution France (GRDF).
Pégadas
Um toque de ecologia fica sempre bem!
Caminante, son tus huellas [pégadas]
el camino y nada más
(Antonio Machado)
“Para esta campaña abordamos el concepto de retornabilidad desde una perspectiva única, apelando a las emociones positivas que experimentas al salir de casa y emprender una acción beneficiosa para tu bolsillo. Para transmitir esta sensación, en el comercial aparece una pareja que baila al ritmo de la conocida canción de Moloko Sing It Back. Dado que la melodía cuenta con un coro pegajoso que repite la frase Bring It Back to Me, resulta ideal para motivar a las personas a devolver las botellas de Michelob Ultra. De esta manera, creamos una pieza de contenido atractiva que el público disfrutará”, agregaron Roberto Gabián y Santiago Gonzalez, directores creativos de la agencia.” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-michelob-ultra-y-gut-invitan-a-retornar-para-sentirse-bien)
Abraço apertado
How many ways are there left to say I love you?
Há tantas maneiras de o dizer.
Beatas: Luz divina e pegada tóxica
Nem tudo o que arde purifica, nem tudo o que se apaga acaba.
Natureza
A natureza só é comandada se for obedecida (BACON, F., Novo Órgão ou elementos de interpretação da natureza, 1620)

