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Variações

Continuemos com a guitarra portuguesa, com as variações em La, por António Chainho, e em Ré Menor, por Carlos Paredes.

Variações La – António Chainho
Carlos Paredes – Variações em ré menor. Movimento Perpétuo, 2003

Marta e Companhia

Coloco pouca música portuguesa. Na verdade, neste domínio o meu contributo resulta mínimo. Mas, hoje, com a ajuda da tempestade, lembrei-me da guitarrista Marta Pereira da Costa.

Marta Pereira da Costa & Camané – Fado Laranjeira (Vídeo Oficial). Colocado em 29.08.2017
Marta Pereira da Costa e Tiago Bettencourt – Soneto do Amor Difícil. Colocado em 23.01.2018
Marta Pereira da Costa com Richard Bona – Encontro (Vídeo Oficial). Colocado em 27.06.2016

O arco da generosidade

No passado 30 de janeiro, no artigo “Carta de uma Criança ao Menino Jesus”, escrevi: “Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar”.

Na disciplina de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, propomo-nos fazer um vídeo dedicado à felicidade. A pesquisa de obras com alguma afinidade com o tema conduziu-me a “Ripple – Kindness and good deeds will come back to you”, do realizador singapurense Daniel Yam, que alude precisamente à circulação da dádiva, a qual, passado algum tempo, pode regressar à origem, embora com outra carga simbólica.

Ripple – Kindness and good deeds will come back to you. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 16.07.2021

Do mesmo realizador, pode também ver as curtas In the Heart of the Zoo e The Journey. A primeira convoca “o amor, a família e a natureza”, a segunda realça o papel dos marcadores da memória, por banais e simples que sejam, na preservação da felicidade.

In the Heart of the Zoo: A Love Story For All Ages. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 17.04.2023
The Journey. Realizador: Daniel Yam. Colocado em 18.07.2021

De Estranheza em Beleza. SAXualidade

O Tendências do Imaginário reincide: de beleza em beleza. Será que em tempos de ideias turvas, senão ameaçadoras, e de acontecimentos estranhos, senão sinistros, a beleza se insinua como consolo? Já aconteceu noutras épocas.
Perguntei então à IA: “Existem períodos históricos marcados pela persistência de ameaças em que a beleza se insinua como consolo?”

Solícita, respondeu:

Sim — e isso acontece com uma frequência impressionante. Em muitos momentos da história, quando a vida ficou mais frágil e ameaçada, a beleza não desapareceu: ela mudou de função. Deixou de ser ornamento e passou a ser consolo, resistência e sentido.
Alguns exemplos marcantes:
Antiguidade tardia e Idade Média
Em períodos de guerras, fome e instabilidade, a beleza se insinuou sobretudo no sagrado. Igrejas, mosaicos, cânticos e manuscritos iluminados não eram luxo: eram uma promessa de ordem e transcendência num mundo caótico. A beleza apontava para algo que sobrevivia à morte.
Após a Peste Negra (século XIV)
Depois de uma devastação inimaginável, surgem obras cheias de intensidade emocional. A arte se torna mais expressiva, mais humana. O próprio impulso que desemboca no Renascimento nasce desse contato brutal com a finitude — a beleza como afirmação da vida diante da morte.
Barroco (séculos XVII–XVIII)
Em meio a guerras religiosas, absolutismo e insegurança, o Barroco exagera, emociona, deslumbra. A beleza aqui é dramática, quase excessiva, como se dissesse: o mundo é instável, mas ainda pode ser arrebatador.
Guerras Mundiais do século XX
Mesmo com destruição em escala industrial, surgem poesia, música e artes visuais que não negam o horror, mas convivem com ele. Pense em Paul Celan, em Shostakovich, em Picasso. A beleza não consola suavemente — ela testemunha, e isso já é uma forma de resistência.
Regimes autoritários e ditaduras
A beleza muitas vezes se esconde na palavra, na canção, no gesto mínimo. Poemas, metáforas, artes “menores” viram refúgio e linguagem cifrada para preservar a dignidade humana.
Em todos esses casos, a beleza não aparece como fuga ingênua, mas como algo profundamente humano:
um modo de dizer “nem tudo foi tomado pela ameaça”.
Talvez por isso, sempre que o mundo parece mais sombrio, a beleza encontre uma fresta — não para negar o perigo, mas para lembrar que ainda há algo que vale ser protegido. (ChatGPT, 06.02.2026)

David A. Stewart – Lily Was Here ft. Candy Dulfer. Music video by David A. Stewart performing Lily Was Here. (C) 1989 & 2015 Sony Music Entertainment UK Limited

Carta de uma Criança ao Menino Jesus

Pinturicchio – Madonna with Writing Child. Ca. 1494-1498. Philadelphia Museum of Art. Detail

Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar.

A Academia Sénior de Braga é um espaço de generosidade. Em dezembro de 2025, os alunos foram convidados a colocar uma carta ao Menino Jesus na árvore de Natal instalada na Biblioteca. Partilhada por uma aluna, a carta escrita por uma criança de sete anos, por volta dos anos 1940′, é uma pérola rara; e a análise, da autoria da professora Maria da Graça Guimarães, coordenadora pedagógica da Academia, um diamante penetrante, detalhado e brilhante. Segue o respetivo pdf, cuja leitura recomendo.

O meu carro é barroco

A pretexto das aulas de Sociologia da Arte e do Imaginário, tenho refeito, aumentado e melhorado, alguns materiais de apoio. É o caso do vídeo O Meu Carro É Barroco que contempla os anúncios a automóveis mencionados no texto “Dobras e fragmentos: a turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis”, publicado em 2009, no livro Vertigens. Para uma sociologia da perversidade (Coimbra: Grácio Editor, p. 47-63). Após tantos anos, resulta possível a leitura do texto acompanhada pelo visionamento dos anúncios. Graças às novas ferramentas, com maior nitidez e resolução. Porventura, um regalo para a vista, o ouvido e a mente.

My Car Is Baroque, by Albertino Gonçalves. 1st edition: 2007. Expanded edition: January 22, 2026

Cápsulas de emoções

Incorporei o vídeo “Emoções Confortáveis” no Tendência do Imaginário em 10 de junho de 2015. Subsistem, porém, algumas dificuldades de reprodução. Recoloco uma versão alargada (31 em vez de 26 minutos) a partir do meu canal no YouTube.

“Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade” é uma compilação de anúncios destinada a projeção em contínuo numa instalação da exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, em 2007, no Mosteiro de São Martinho de Tibães. Como complemento, recomendo o texto Vertigens do Presente: A Dança do Barroco na Era do Jazz, incluído no respetivo catálogo.

Emoções Confortáveis: O Barroco Na Publicidade. Por Albertino Gonçalves para a Exposição Vertigens do barroco em Jerónimo Baía e na actualidade, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007

Sinto, logo insisto. Duas epifanias

Da noite de Natal até ao fim do ano, estive com gripe A. Isolado, até a escrita ficou constipada. Uma privação séria porque alinhar letras é um dos meus prazeres prediletos. Faço-o mais pelo gozo que me proporciona do que pela antecipação da leitura alheia, que me escapa. Regresso, portanto, prazenteiro, às imagens, metáforas, ironias, trocadilhos, paradoxos, hipérboles, elipses, alusões e ilusões que encantam o meu deserto.

Na madrugada de 30 de dezembro, fui ao Hospital de Braga para “fazer análises”. Nada de novo! Inesperadamente, ocorreu uma espécie de epifania quando fui “picado”, com sublime doçura, por uma donzela que espeta agulhas como setas de cupido. Certamente, uma descendente de Florence Nithingale, a célebre “dama da lâmpada”.

Imagem: Caravaggio. Amor Vincit Omnia, ca. 1602

[Durante a Guerra da Crimeia] “Escolhi os plantões, porque sei que o escuro da noite amedronta os enfermos. Escolhi estar presente na dor porque já estive perto de muito sofrimento. Escolhi servir ao próximo porque sei que todos nós um dia precisamos de ajuda. Escolhi o branco porque quero transmitir paz…”
(Florence Nightingale).

Imagem: Painting of Nightingale by Augustus Egg, c. 1840s

Estranhamente mimado num hospital apinhado, desgastado e combalido, surpreendi-me a querer prolongar o “sacrifício”:

  • Talvez seja melhor esperar mais um pouco! Tomo aspirina por causa do coração…
  • Devia ter dito antes. Deve dizer sempre antes. Nessas circunstâncias, tomamos outros cuidados.

Mas o serviço não se compadecia com demoras fúteis. Despedi-me com um penso no braço do tamanho do carinho recebido.

Mal andam as coisas no reino de Alexandria quando as seringas e os biscoitos despoletam epifanias! Não escolhemos, porém, os gatilhos da ternura.

Regressei a casa mais animado. Mas aquela rara pitada de mimo sabia a pouco. Como se diz, o mal está em começar. Se desejava mais, só restava uma solução: mimar-me a mim mesmo.

Encomendei uma “tarte da avó”, framboesas, cerejas (do Chile), mexilhões e linguado. Nem mais, nem menos.

Peguei numa cereja lustrosa e carnuda. Dei uma dentada delicada, como num mamilo vegetal, com o suco púrpura a escorrer pelos lábios.

Uma segunda epifania.

E, como Marcel Proust, regredi à infância.

Morava numa “casa de brasileiro” apenas com o avô e uma tia, uma das minhas mães (ver O menino de suas mães). À noite, escutava o “nosso” programa na rádio: Quando o Telefone Toca. Os sucessos e os intérpretes repetiam-se, a pedido do público, de semana em semana, mês após mês: “Tombe la neige”, de Adamo, “Non son degno de te”, de Gianni Morandi, “Oração”, de António Calvário, “A Casa da Mariquinhas”, da Amália Rodrigues, “La vida sigue igual”, de Julio Iglesias, “Delilah”, de Tom Jones…

Um nada mais recente, Nicola Di Bari era um dos “cantores residentes”. Recordo “El corazón es un gitano” (original 1971); “Guitarra Suena Más Bajo” (original 1971); e “Como Violetas” (1972).

Enquanto houver memória, a infância acompanha-nos durante toda a vida.

Nicola Di Bari – El corazón es un gitano. Original italiano, 1971. Castilla y León Televisión. Vamos a Ver, 12/11/2019
Nicola Di Bari – Guitarra Suena Más Bajo. 1971
Nicola Di Bari – Como Violetas, 1972. “En vivo desde México en programa mexicano de tv”. Colocado em 17/05/2010

Feliz Natal

Sandro Botticelli. A Natividade Mística, 1500-1501
Polorum Regina, do Llibre Vermell de Monserrat (final do séc. XIV)

Uma formiga com uma dúzia de ovos numa ponte silenciosa

No dia 15 de dezembro, entre as 21 e as 23 horas, o Tendências do Imaginário “bateu um recorde”: o artigo Análise pela IA do texto “O enterro da cabeça na areia obteve 1 033 visualizações (correspondentes a mais de 500 visitantes) provenientes dos Estados Unidos, mormente nas cidades de Portland (931 visualizações) e Ashburn (45). Precise-se que, de um modo geral, dois terços (67,4%) das visualizações do blogue têm origem fora de Portugal. Algo como vibrações cosmopolitas pelas tímidas antenas de uma formiguinha eremita perdida na imensa selva digital.

Para assinalar o momento, um anúncio com “doze ovos”, realizado pelo criativo Michel Gondry para o iPhone 13 Pro, da Apple, e um vídeo musical com “o som do silêncio” e uma “ponte sobre água turbulenta” dos inesquecíveis Simon & Garfunkel (ao vivo, naturalmente).

iPhone 17 Pro – Apple. Título: A Dozen Eggs | Shot on iPhone 13 Pro by Michel Gondry | Apple. Partizan Studio. Novembro 2021