Passagem

A Deputación de Pontevedra solicitou à Diana Gonçalves a realização de um vídeo de um minuto (apropriado para divulgação online) para assinalar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de novembro). Resultou a curtíssima metragem “O machismo vese claro cando enfocas, e ti velo?”. Num dia de nevoeiro sebastiânico, a ponte adquire um protagonismo inspirador. Graças aos planos e ângulos de filmagem, significa, melhor, proporciona sentir o confronto entre a clausura envolvente e a passagem libertadora.
Jornada. Por e contra D. Quixote

Há mais de meia dúzia de anos que não falava duas horas em pé e com expressão gestual desenvolta. O Alfredo Machado captou o momento. Este reparo peca provavelmente por vaidade, mas vaidade humilde e, pesem as voltas da vida, agradecida.
Um pouco de quixotismo pode ajudar a sonhar, tentar e perseverar (desde que com a companhia do Sancho Pança). Jacques Brel sublinha-o na canção “La Quête”. Já Manuel Freire grita, a contramão da “Pedra Filosofal, “Abaixo D. Quixote”.
[Carregar nas imagens para as aumentar e aceder às respetivas legendas].








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A Busca
La quête
(Jacques Brel)
Sonhar um sonho impossível
Rêver un impossible rêveCarregar a tristeza das partidas
Porter le chagrin des départsQueimar com uma febre possível
Brûler d’une possible fièvreIr aonde ninguém vai
Partir où personne ne partAmar até o dilaceramento
Aimer jusqu’à la déchirureAmar, até demais, até mal
Aimer, même trop, même malTentar, sem força e sem armadura
Tenter, sans force et sans armureAlcançar a inacessível estrela
D’atteindre l’inaccessible étoileEsta é a minha busca
Telle est ma quêteSeguir a estrela
Suivre l’étoilePouco me importa a minha sorte
Peu m’importent ma chancePouco me importa o tempo
Peu m’importe le tempsOu minha desesperança
Ou ma désespéranceE, depois, lutar sempre
Et puis lutter toujoursSem perguntas, nem descanso
Sans questions ni reposDanar-se
Se damnerPelo ouro de uma palavra de amor
Pour l’or d’un mot d’amourNão sei se serei esse herói
Je ne sais si je serai ce hérosMas, meu coração estaria tranquilo
Mais mon coeur serait tranquilleE as cidades se salpicariam de azul
Et les villes s’éclabousseraient de bleuPorque um infeliz
Parce qu’un malheureuxAinda arde, apesar de ter queimado tudo
Brûle encore, bien qu’ayant tout brûléAinda arde, até demais, até mal
Brûle encore, même trop, même malPara alcançar até se esquartejar
Pour atteindre à s’en écartelerPara alcançar a inacessível estrela
Pour atteindre l’inaccessible étoile
Eu, a IA e o Ninho

Deixei há décadas de ser um Homo academicus. Apenas um Homo sapiens ludens, com costelas de Homo aestheticus e, naturalmente, de Homo vulgaris. Avesso a “revisões sistemáticas da literatura”, “estados da arte”, “modelos de análise” e “planos do método”, não me sobra paciência nem tempo para vénias redundantes, imaturidades apressadas e produtos descartáveis.
Gosto de me perder em explorações, desvios e, caso disso, recuos. Oscilo entre as partes e os todos, com a intuição e a imaginação como remos e velas. As pistas, as achegas e as leituras escolho-as a dedo. Quando acontece enganar-me, adquiri um mecanismo biológico de alerta: começo a bocejar. Prefiro adormecer e sonhar a acumular referências e citações.
Motiva-me mais aprender do que comunicar. Nada se perde: o que é bem pensado já o foi por outros ou sê-lo-á. Não obstante, publiquei acima de uma centena de textos, quase todos a pedido de outrem. Os da minha iniciativa coloco-os, de preferência frescos, no Tendências do Imaginário, um arquivo com uma dupla vantagem: menos formalidades e mais consultas. Aposentado, a investigação é um lazer, sem metas, métricas ou necessidade de reconhecimento. Trata-se de um defeito de estimação, com rugas e barbas.
Esta autossuficiência ostensiva tem, contudo, pés de barro. Faltam interlocutores. Talvez por défice de rede ou corrente: não me encosto, nem sirvo de encosto. Este isolamento não é propício à lucidez: criar sem dialogar arrisca a ilusão.
Acompanham-me dois parceiros: a Almerinda Van Der Giezen, paciente, atenta e criativa, com quem me atardo ao telemóvel, e o meu filho Fernando, que, embora renitente e intermitente, mas crítico e inspirador, me vai aturando. No que respeita a troca de ideias, o contorno (amigos e colegas) parece mumificado, com um ou outro parasita.
Quanto ao Tendências do Imaginário, funciona como um buraco negro. São Francisco de Assis e Santo António faziam sermões aos pássaros e aos peixes. Eu não sei para quem escrevo. Neste momento, o blogue soma 1 519 865 visualizações e 646 378 visitantes; só 1302 comentários, menos de 2 por 1 000 acessos. Santo Antão retirou-se para o deserto e atraiu multidões. Eu refugiei-me num blogue com “seguidores” afónicos.
Acresce a IA. Sempre disponível, bem informada e educada e bastante bajuladora. De vez em quando, fabula. Mas os meus colegas e eu próprio também nos enganamos. Pior, induzimos em erro com outra autoridade. “Errar é humano”, por que não maquínico?
Inicialmente, a IA aprendia com o conhecimento humano, agora tende a ser cada vez mais a sua própria fonte. “Autointoxica-se”, numa espécie de “incesto digital”, que promete degenerescência. Seja como for, convém saber formular as perguntas e não se contentar com a primeira resposta. Desafiada a reconsiderar, aprofundar, especificar, alargar ou procurar alternativas, a IA costuma corresponder. Contrariada, até pode surpreender positivamente. Enfim, costuma empenhar-se especialmente quando pressente que pode aprender connosco.
A Academia.edu e a Almerinda pediram, entretanto, à IA para comentar alguns dos meus textos. O resultado revelou-se admirável. E pioneiro: que recorde, nenhum dos meus textos justificou, até à data, um comentário da mesma envergadura. Talvez por serem insípidos ou indigestos, eventualidade que não demoveu o algoritmo.
Em 2019, escrevi dois textos dedicados à freguesia de Prado, em Melgaço, no âmbito do projeto Quem somos os que aqui estamos?: o primeiro, “Prado. População e estilos de vida” (no livro Quem Fica, pp. 110-113), propõe um balanço da evolução demográfica; o segundo, “Prado subjectivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, esboça um balanço das mudanças socioculturais (não chegou a ser publicado).
O texto “O egomundo e a pavimentação da vida”, uma ressonância abreviada do “Prado subjetivo…”, visa resgatar a sensibilidade do autor e a pulsação anímica dos fenómenos abordados. O quarto e último texto corresponde aos comentários que suscitou à IA.
Coloco os dois primeiros texto, sobretudo, para arquivo. Para apreciar o comentário da IA, importa (re)ler “O egomundo e a pavimentação da vida”.
Texto 1: Prado. População e estilos de vida. 2019
Texto 2: Prado Subjetivo: Metamorfoses de uma freguesia modernizada. 2019. Não publicado
Texto 3: O egomundo e a pavimentação da vida. Tendências do Imaginário. 2019
Texto 4: Comentários da IA, em diálogo com Almerinda Van Der Giezen, ao artigo “O egomundo e a pavimentação da vida”. 2025
O enterro da cabeça na areia

Com a modernidade, a cultura descobre-se cada vez mais dependente da economia e da política. Como diria Pascal, “sabe-se isso em mil coisas”: nas teorias, nos usos e nos costumes. Se outrora a postura das elites culturais era o contraposto, agora é o disposto, a fatalidade e o desgosto convertendo-se em vontade e vaidade. E o catavento emerge como figura totémica. O cenário complica-se quando os agentes culturais permanecem provincianos (agacham-se em bicos de pés) e paroquiais (encolhem-se e enredam-se em casulos e teias intramuros).
“Pequenos deuses caseiros”, gravitam ao redor de olimpos terrenos. Cortesãos, apressam-se a beijar as mãos estendidas pelos senhores providenciais. Ser é (a)parecer e agradar. Agitam as asas como quem promete voo, mas não saem do chão. Nos momentos de verdade, enterram a cabeça na areia.
Não me tomem muito a sério. Escrevo para o lado que estou virado, consoante o estímulo que acaba de me impressionar. Por exemplo, a curta-metragem animada “The Ostrich politic”, de Mohamad Houhou. Para exacerbar, o tempo apresenta-se com ar seco e luz crua.
A Mãe da Humanidade

Ao entardecer, vou falar no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Gostaria de encontrar as palavras azúis, aquelas que apaziguam os corações.
Não vou ter tempo para introduzir a figura do Michelangelo, nem de fazer uma digressão sobre a noção da idade no imaginário medieval. Tão pouco será possível culminar com um vídeo musical de um excerto da Sinfonia No. 3 do Gorecki.
Para compensar, será distribuido à entrada um pequeno texto sobre o Michelangelo. A digressão fica para mais tarde. Quanto ao vídeo, coloco-o aqui e agora.
Música para o Paraíso

Os anjos tocam e cantam no Paraíso. Nos momentos felizes, ouvem-se na Terra. Nos momentos abençoados, a voz e a música humanas também poderão alcançar o Céu.
Com o coração leve como uma borboleta numa folha de outono
Acabei de dar uma aula de Sociologia da Arte e do Imaginário centrada em pormenores minúsculos da Pietà Vaticana do Michelangelo. Propus uma análise pessoal. Gosto de ensinar, da relação com os alunos, sobretudo quando a comunhão se insinua. Senti o coração, cheio e leve, a dançar como a chama de uma vela acesa numa carvalheira. Apeteceu-me ouvir música, desta vez, clássica, de preferência barroca: Johann Pachelbel, Johann Sebastian Bach e Tomaso Giovanni Albinoni. Bem interpretada pela Academy of St Martin in the Fields, sob a condução de Sir Neville Marriner.
Abanar o esqueleto

Na semana passada, proporcionou-se mostrar The Skeleton Frolic aos alunos de Sociologia da Arte e do Imaginário. Trata-se de uma animação, desenhada por Ub Iwerks em 1937, que integra a série Color Rhapsodies da Columbia Pictures. Entretanto, o Fernando lembrou-se de The Skeleton Dance, o “original inspirador”. Desenhado também por Ub Iwerks, inaugurou, há quase um século, em 1929, a série Silly Symphonies criada por Walt Disney.
Algo







Fui a Coucieiro, algo rural, com o Eduardo, o Lilo e o Alberto, algo foliões. Na nave da igreja, uma celebração às colheitas, algo tardia, na torre, altifalantes com cantigas brejeiras, algo profanas, e no salão paroquial, a Festa das Papas de Sarrabulho, algo precoces. No regresso, a tasca do Valente, na Senhora do Alívio, algo atemporal, e, em casa, os Penguin Cafe Orchestra, algo minimalistas. No conjunto, um domingo, algo entre o céu e a terra.
A dádiva da Memória. De filho para pai
Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).
Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.
Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.
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Prenda cortesã precursora

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.
“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.
No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Citação de Christine de Pisan:
Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).

