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Loucura por conveniência

Retrato de Camille Claudel. Pormenor. Cerca de 1883.

“La familia la declaró loca y la metió en un manicomio.
Camille Claudel pasó allí, prisionera, los últimos treinta años de su vida.
Fue por su bien, dijeron.
En el manicomio, cárcel helada, se negó a dibujar y a esculpir.
La madre y la hermana jamás la visitaron.
Alguna que otra vez se dejó ver su hermano Paul, el virtuoso.
Cuando Camille, la pecadora, murió, nadie reclamó su cuerpo.
Años demoró el mundo en descubrir que Camille no sólo había sido la humillada amante de Auguste Rodin.
Casi medio siglo después de su muerte, sus obras renacieron y viajaron y asombraron: bronce que baila, mármol que llora, piedra que ama. En Tokio, los ciegos pidieron permiso para palpar las esculturas. Pudieron tocarlas. Dijeron que las esculturas respiraban.” (Eduardo Galeano. Resurrección de Camille. Espejos. 2008).

Galeria com esculturas de Camille Claudel.

A loucura de Camille Claudel.

“Claudel’s father approved of her career choice, and he tried to help and support her financially. But when he died on 2 March 1913, Claudel was not informed of his death. Instead, eight days later, on 10 March 1913, at the request of her younger brother Paul, she was admitted to the psychiatric hospital of Ville-Évrard in Neuilly-sur-Marne. (…)
Doctors tried to convince Paul and their mother that Claudel did not need to be in the institution, but they still kept her there. According to Cécile Bertran, a curator from the Musée Camille Claudel, the situation was not easy to judge, because modern experts who have looked at her records say she was indeed ill.(…)
For a while, the press accused her family of committing a sculptor of genius. Her mother forbade her to receive mail from anyone other than her brother. The hospital staff regularly proposed to her family that Claudel be released, but her mother adamantly refused each time.[50] On 1 June 1920, physician Dr. Brunet sent a letter advising her mother to try to reintegrate her daughter into the family environment. Nothing came of this.
Paul Claudel visited his confined older sister seven times in 30 years, in 1913, 1920, 1925, 1927, 1933, 1936, and 1943. He always referred to her in the past tense. Their sister Louise visited her just one time in 1929. Her mother, who died in June 1929, never visited Claudel” (Wikipedia. Camille Claudel: https://en.wikipedia.org/wiki/Camille_Claudel).

A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

Desconfinamento, libertação e sexo

Henri de Toulouse_lautrec. Marcelle Lender dancing the bolero in Chilperic. 1895.

Vários anúncios, centrados na sensação de libertação, podiam ilustrar o início do desconfinamento. O anúncio For when it’s time, da Extra Gum, incide, contudo, sobre o próprio movimento de desconfinamento: corpos, fluxos e, sobretudo, sexo. Um amor militante e multicolorido à moda dos anos sessenta. Depois da separação, o amor. Sea, Sex And Sun.

Marca: Extra Gum. Título: For When it’s Time. Agência: Energy BBDO. Direção: Nick Ball. Reino Unido, abril 2014.
Serge Gainsbourg. Sea, Sex And Sun. 1978.

Desligado. Hikikomori.

Dá-me alguém e dou-te o mundo

Homem preso dentro de garrafa. Fonte – Internet

Dá-me alguém e dou-te o mundo

A palavra japonesa Hikikomori refere-se tanto a uma situação de vida como àqueles que a vivem. No Japão, mais de meio milhão de pessoas vivem neste isolamento. Desligam, refugiam-se em casa, furtando-se à pressão social. Recorde-se, aliás, que o Japão se carateriza também por uma elevada taxa de suicídio. Este fenómeno existe noutras sociedades. Não confundir com o confinamento que é uma imposição e não uma iniciativa. O confinado recorre a todos os meios de comunicação disponíveis (por exemplo, o telemóvel ou o Skype), o Hikikomori evita-os. Enfim, a condição do Hikikomori difere de situações de isolamento extremo, como o de muitos idosos. Não se foge de quem não existe

Social Isolation in Japan, Hikikomori Are Now Opening Up: NBC Left Field | On the Fringe. 2017.

Desertas são as paisagens deste vídeo musical de Yann Tiersen.

Yann Tiersen. Pell. All. 2019.

O Tendências do Imaginário face ao confinamento

Rosso Fiorentino. Cherub Playing a Lute or Musical Cherub. 1521.

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.

Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.

Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.

O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.

A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).

Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.

Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).

Frédéric Chopin. Piano Concerto No. 1 in E Minor, Op. 11 – 2. Romance (Larghetto).
Manchester Orchestra – The Silence (Live at The Regency Ballroom San Francisco). Álbum: A Black Mile to the Surface. 2017.

Solidão e indiferença

Gloria Friedmann. Les Contemporains. 2007

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Gloria Friedmann. Le compteur du Temps. Dijon. 2020.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.

Anunciante: Ministère des Solidarités et de la Santé. Título: Parce qu’on rêve tous de se retrouver. Agência: MullenLowe Paris. Direção: Olivier Desmettre. França, Março 2021.
Gilbert Bécauid. L’INdifférence. 1977.

Como um gato atrás de uma tartaruga

Moody Blues. Tuesday. Days of future passed. 1968

Confinamento duplo: pandemia e quatro meses de baixa médica. Não saio. Pareço um gato atrás de uma tartaruga. Em estacionamento. No retrato de família, pareço um emplastro. A televisão e o computador cansam-me. Cansa-me, também, o que tenho para fazer e não faço. Entrei em estado lesma. Comando na mão, escuto música. Escuto música, como, bebo e durmo. Faço inveja a um suíno.

Moody Blues. Tuesday afternoon. Days of future passed. 1968
Moody Blues. Eyes of a child. To our children’s children’s children. 1969.
Moody Blues. Question. A question of balance. 1970.

Humor a sério

O anúncio britânico Audition, do NHS (National Health Service), revela inteligência, humor e, pressupõe-se, eficácia. Está em causa a mobilização para a vacina contra a Covid-19. O anúncio recorre a dois embaixadores, sir Elton John e sir Michael Caine, ambos com sentido de autocrítica.

Anunciante: NHS. Título: Audition. Reino Unido, fevereiro 2021.

Elton John participou no filme Tommy (1975), dos The Who, realizado por Ken Russell. Juntam-se duas extravagâncias: Elton John e Ken Russell. Segue um excerto do filme.

Elton John. Pinball Wizard. The Who. Tommy. Ken Russell. 1975.

Infradotado

Leonard Cohen.

Um perito, uma opinião. Dois peritos, uma contradição. Três peritos, uma confusão (Anónimo).

Nunca me deparei com tantos peritos e especialistas como durante a epidemia. Infradotado, confesso que pouco ou nada aprendi. Valha-me o Leonard Cohen.

Leonard Cohen. Hey, That’s No Way To Say Goodbye (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.
Leonard Cohen. Sisters of mercy (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.

A quem tem o monopólio de me aturar!

Aspirar a solidão

Edward Hopper. At the window. 1940.

O confinamento altera as rotinas. As pequenas e as grandes. Presta-se ao desempoeiramento dos objetos: filmes, discos, fotografias, entrevistas gravadas… Alguns aguardam uma infinidade por um gesto de atenção. Poderiam continuar esquecidos? A televisão é uma alternativa, mas irrita. O telemóvel? Nunca lhe apanhei o jeito. Despacho as pessoas, e elas ressentem-se. Entrego-me, portanto, às minhas coisas, como o Principezinho à rosa.

Sem o confinamento, os objetos são belas adormecidas à espera de animação.  Passo os dias só. A solidão não me larga. Também ganho pó. O Tendências do Imaginário é uma face deste isolamento. A solidão não é boa nem má. É um estado com que se convive bem ou mal. A música é uma companheira. Aspira o pó da solidão.

Joe Cocker. You are so beautiful. I Can Stand a Little Rain. 1974.
Joe Cocker. Up where we belong. An Officer and a Gentleman. 1982.