À porta do inferno

Bruno Aveillan produz uma curta-metragem, Divino Inferno, dedicada à Porta do Inferno, de Auguste Rodin. Uma confluência de dois artistas do sobre-humano. Uma esteticização do sofrimento extremo e da resistência visceral. O desespero, a travessia arrepiada.
Seguem três vídeos. 1) Divino Inferno; e 2) Humans, ambos de Bruno Aveillan; e, para complemento, 3) Auguste Rodin – The Gates of Hell, um documentário do Canal Educatif à la Demande (CED).
Esferas

Na esfera celeste, o planeta é redondo. Os seres humanos vivem em bolhas, contribuindo para o bem ou para o mal do mundo. Para o bem, na óptica da Ikea. Existem homologias entre curvaturas. Mike Oldfield retoma a noção de “música das esferas”: “a música das esferas, tal como a entendo, remonta à Antiguidade, quando se concebiam as relações matemáticas entre o movimento dos planetas e as harmonias da música”.
Segue o anúncio Our little word (2021), da Ikea, e o excerto Harbinger, do álbum Music of the spheres (2008), de Mike Oldfield.
Místico, demasiado místico

Bruno Aveillan é um sedutor. Mago da beleza, sabe para que servem as cores e os olhos. Uma imersão na estética e no sagrado. O Tendências do Imaginário contempla uma trintena de anúncios do Bruno Aveillan. Descobri, entretanto, obra mais recente. O presente anúncio é dedicado a AlUla, povoação da Arábia Saudita, património da UNESCO, construída há mais de 2 000 anos.
Commercials can be emotional, expressing themselves via light and shadow in our daily life.
Bruno Aveillan, a high-profile commercial director in France, has made commercials for luxury brands including Cartier, Louis Vuitton and Dior. His works won numerous international awards.
With a superb sense of beauty, Bruno Aveillan is excellent at using lights, endowing each frame or picture with unique appeal.
For Bruno, the most important thing, either for a commercial or for a documentary portraying a person, is to express emotions, because emotion is the cement of communication. He uses storytelling to connect with viewers and to inject life into the brand. With his approaches, a brand is a story and an emotion, more than just a product or an image.
Bruno is also a photographer and visual artist. He launched his own photography exhibitions, the experience of which laid foundation for his career as a director. He founded a publishing house and also created a silk brand with his wife.
Follow Fashion Insiders to explore the world created by Bruno Aveillan and to enjoy the poetic pictures and the emotions expressed through them (Bruno Aveillan:The Many Magic Lights: https://www.youtube.com/watch?v=jC0hcMv2cPU).
Gravidez e carreira profissional

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:
Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).
Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.
O Tendências do Imaginário face ao confinamento

O confinamento tem constrangimentos. Mormente, quando é duplo: pandémico e mórbido. Por doença, tenho a mobilidade limitada a um dos pisos da casa. Esta vida apertada tem consequências, inclusivamente, ao nível do Tendências do Imaginário.
Muitos artigos inspiram-se na observação da vida quotidiana. Descobertas de trazer no bolso. É um divertimento que cultivo, uma espécie de “sociologia espontânea”. Com o confinamento, resta-me a “observação de pássaros: os conflitos entre gatos, a etiqueta das bicadas dos pardais nas migalhas de pão ou os estratagemas dos melros para aceder à comida dos gatos.
Os “artigos de fundo” são uma marca do Tendências do Imaginário. Textos originais que exigem semanas de pesquisa e escrita. O confinamento comprimiu o tempo no presente. O aqui e o agora tornaram-se avassaladores, avessos a iniciativas de fôlego. Não há impulso. O futuro mora nos faróis dos palpiteiros.
O Tendências do Imaginário está diferente, com uma quebra de microssociologia e ensaio intelectual. Prosseguem a publicidade e a música. Estas circunstâncias contribuem para um novo papel da música.
A casa lembra uma discoteca. Gavetões, gavetas e prateleiras repletas de vinis, CDs e DVDs. Acervo de um melomaníaco. A maioria das músicas do Tendências do Imaginário provêm desta coleção. Com o confinamento, a relação com a música mudou. Outrora, a música acompanhava outras atividades, incluindo o trabalho. A música era ambiental. Agora, beneficia de uma dedicação exclusiva. Concentrado e repostado, ouço e seleciono as músicas. Esta nova interação com a música comporta um efeito relevante, que tende a privilegiar a tradição, os discos, em detrimento da inovação (a procura, sobretudo, na Internet).
Em resumo, com o duplo confinamento, pessoal e social, o Tendências do Imaginário arrisca-se a perder diversidade e atualidade. Não obstante, as visualizações mantêm-se.
Como ilustração, seguem duas músicas: o Concerto para Piano, nº1, de Frédéric Chopin, da coleção de discos e do polo da tradição; e The Silence, da Manchester Orchestra, uma banda indie norte-americana (polo de inovação, via Internet).
Solidão e indiferença

O modo como as galinhas colocam a cabeça quando prestam atenção não engana. Revelam uma capacidade de concentração superior à de muitos humanos. Dedico-lhes este artigo.

Multiplicam-se os anúncios relativos à vacinação. Alguns são esdrúxulos, outros singelos. O anúncio Parce qu’on rêve tous de se retrouver, do Ministère des Solidarités et de la Santé, de França, é bem concebido. Dispõe-se em três tempos: visita – reencontro – sonho. Cumpre à vacina tornar o sonho realidade. A canção Je reviens te chercher (1967), de Gilbert Bécaud, acompanha o anúncio. Uma bela canção. Mas prefiro, do mesmo cantor, L’Indifférence (1977). As vacinas podem combater a solidão, mas de pouco servem face à indiferença.
Motivem-se uns aos outros

Lunar é uma instituição/aplicação financeira que se propõe aumentar o rendimento dos clientes sem prescindir do antigo banco. Como motivação, o anúncio Your Other Bank recorre a uma sequência excitante de uma relação heterossexual, combustível que já conheceu melhores dias na publicidade. A geometria sexual complica-se com a alusão ao “bánkage à trois” no lema e na letra da canção do belga Plastic Bertrand: o cliente, o novo e o antigo banco. Importa ser criativo para seduzir o consumidor! A motivação ergue-se como palavra-chave da transição de milénio. É tão miraculosa que faz andar os cegos e ver os coxos. Uma alavanca do corpo e da alma. Sem motivação, nada, nem sequer um piscar-de-olho! Os casais carecem um do outro rumo à boda de prata, os idosos, para envelhecer, as crianças, para brincar, os operários, para trabalhar… No ensino à distância, os alunos precisam de motivação. Os pais, seguidores domésticos das aulas dos filhos, diagnosticam: “o professor não presta nenhuma atenção ao meu Filipe”; e “à minha filha Susana só pergunta o que ela não sabe”. Um vórtice de desmotivação.
Uma pausa para desconversar. A noção de motivação aqui utilizada é, naturalmente, parcial. Cinge-se a uma ação externa, de fora para dentro, como a conversão de São Paulo. A pessoa resume-se a uma espécie de “tábua rasa” onde caem pingos coloridos que esboçam retratos impressionistas. Para motivar os alunos na escola têm que se saber aquilo que os move. A noção vulgar de motivação tende a equacionar as pessoas como seres hétero-determinados, carentes de autonomia, responsabilidade, iniciativa, vontade e vocação.
No meio não está a virtude

“Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado” (Fernando Pessoa. Livro do Desassossego).
“No meio é que está a virtude”. Frase cunhada e gasta. Demasiado óbvia para não ser oca. No meio não está a virtude. Talvez de um lado, ou do outro. Quem está em ambos os lados é incerto, impuro, “traidor” (André Gorz, Le Traître, Paris: Seuil, 1958). Não é digno de confiança.
O meio pode aspirar a centro de confluências. As forças revêem-se e reforçam-se, aproximando-se e afastando-se. Creio ser esta a inspiração do anúncio The Middle, da Jeep: encontrar um centro conciliador dos Estados-Unidos. Mas o centro é uma miragem que muda, inconstante, de lugar. O mundo é “uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma” (Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento 72).


