A Alma das Flores Secas
Dans mon jardin secret
Dans mon imaginaire
La vie est plus légère
On fait ce qu’il nous plaît
Tudo me lembra alguma coisa. As memórias, como flores secas no livro da vida, aguardam uma gota, eventualmente um esboço de lágrima, que lhes proporcione seiva. Tudo me lembra alguma coisa, não porque tenha uma biografia recheada. Rodeado mais por imagens do que por demónios, aproximo-me de um eremita que pasma solenemente e se expõe cada vez menos, despojando-se de atavios e venturas que lega aos insaciáveis. Mas existiram, mesmo assim, picos, momentos marcantes.
Pianista, compositora e cantora, Nara Noïan nasceu na Arménia e fez carreira em França. À semelhança de outras celebridades, como o também “arménio” Charles Aznavour, o “argelino” Enrico Macias ou o “grego” Georges Moustaki, entrega-se à “canção francesa” (e.g. “Dans mon jardin secret”) sem esquecer as raízes (e.g. “Mon Arménie”).
Mas a música que pretendo relevar é, sobretudo por causa do título, “Doucha – Soul”.
Entre 1976 e 1982, estudei em Paris. Trabalhava, a tempo parcial, às sextas, sábados e durante as férias, num banco português. Amealhava o suficiente para escapadas mais ou menos longas. Só, bagagem ligeira, com roteiros e agendas flexíveis, explorava novas terras e gentes. O tempo dedicado a cada destino dependia do prazer da estadia.
Naquele tempo, se me perguntassem para que viera ao mundo, a resposta seria “para dar e receber amor”, mais prosaicamente, para namoriscar. Nem para estudar, nem para trabalhar, nem para viajar, nem sequer para defender a Pátria. Um impenitente colecionador de afrodites.
O que me atraía num lugar não eram tanto os monumentos, as paisagens e os lazeres, mas as pessoas, especialmente as mulheres.
Com 18 anos, parti em agosto rumo à Itália e à Jugoslávia e regressei no final de outubro. Atardei-me duas semanas em Veneza graças a uma jovem professora de biologia, uma semana na ilha de Hvar com uma turista francesa e mais de uma semana em Tuzla por artes de uma estudante de medicina.
Tuzla foi uma experiência única. À meia-noite, bati, sem aviso prévio, à porta de um colega do curso de Sociologia. No dia seguinte, parecia que toda a gente me conhecia. Nos cafés, ao pagar a conta, já estava paga por algum curioso que desejava satisfazer a curiosidade. Fui, inclusivamente, convidado para dar uma palestra sobre o 25 de Abril, em francês, numa universidade local.
A interação com Snježana (em bósnio: branca como a neve) era sui generis. A comunicação resultava difícil: falava sobretudo alemão, que eu não dominava [embora tenha frequentado um curso no edifício da Universidade de Filosofia, mas o que me movia não era a aprendizagem da língua; retive apenas algumas expressões de utilidade indiscutível tais como “Du bist sehr schön [ou hübsche]” (Tu és muito bonita). Em suma, a salvação era a linguagem gestual.
Garantira-lhe que permaneceria em Tuzla o tempo que me aprouvesse. Quando anunciei o regresso a Paris, não parava de dizer “laž” [láj], mentira. Retorquia, contristado, “nema laž” (nenhuma mentira). As aulas tinham iniciado havia três semanas e estava a ficar sem dinheiro…
Snježana costumava chamar-me “dusha”, palavra, essa sim, que me intrigava. O amigo hospedeiro acabou por me esclarecer: alma, coração, ente querido. Como o título da música de Nara Noïan! Tudo me lembra alguma coisa. Até uma simples palavra de outros mundos.
O colecionador de namoricos resume-se agora a um (re)contador de estórias. Resgatar folhas secas para colorir um jardim que nem sequer cuida de (p)reservar.

Danças Submersas. Bailado em Regime Noturno

“Being an artist is like a journey to build something and I feel like I’m not building things, I’m just been driven by whatever comes to me (…) When I dance, when I move under water, I really feel that I become one, one with the water (…) I love the smell of the forest, I love the sound of the forest, it’s really beautiful, I feel part of it, part of the system (…) But what hidden in the under world is something that is really personal, it’s opening to your imaginary.” (Dancing Through the Waters with Julie Gautier, 2023)
Segundo alguns estudiosos do imaginário, nomeadamente Carl G. Jung, Gaston Bachelard e Gilbert Durand, podem-se associar e contrapor símbolos elementares. Associar, por exemplo, o sol, a luz, o ar, o elevado, a ascensão, a árvore, o seco, o duro, o direito, o exterior, o convexo, o fálico, o masculino, a espada ou a separação, remetendo-os para o “regime diurno do imaginário” (Gilbert Durand); e contrapô-los à lua, à sombra, à água, ao baixo, ao mergulho, à floresta, ao húmido, ao mole, ao sinuoso, ao interior, ao côncavo, ao uterino, ao feminino, ao cálice ou à (con)fusão, que remetem para o “regime noturno do imaginário”.
Seguem cinco bailados subaquáticos protagonizados pela francesa Julie Gautier, natural da Ilha da Reunião. Cinco, nem mais nem menos. Até podiam ser seis, mas o mais visualizado, AMA (2018), já está colocado no Tendências do Imaginário (Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática). Todos nos convidam, portanto, a mergulhar profundamente no regime noturno do imaginário.
O Galgo e o Cultivador de Arroz

Eis uma belíssima curta-metragem de animação premiada que cativa desde o primeiro até ao décimo sétimo minuto. Uma história da amizade entre um jovem agricultor de arroz do Camboja e um galgo que resgatou. Forever and ever.
Face a Face. Entrevista a Michel Maffesoli
Infeliz aquele que não tem mestre.
Os mestres são aqueles que nos mostram o que é possível no domínio do impossível
(Paul Valery).
Michel Maffesoli foi meu professor em 1981, o primeiro ano que deu aulas na Sorbonne e o meu último como aluno.
O emigrante e a nota de Santo António
As “fotografias faladas” inserem-se no projeto “Quem somos os que aqui estamos?” do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Este projeto visa explorar o espaço geográfico e a sociedade local, dedicando-se em 2024 à freguesia de Alvaredo. Inclui atividades como o registo audiovisual de “fotografias faladas”, a recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares dos habitantes, uma exposição fotográfica na freguesia e a publicação de um trabalho sobre o projeto. A coordenação está a cargo de Álvaro Domingues e Daniel Maciel, com orientação científica de Albertino Gonçalves. (ChatGPT, consultado em 19-02-2025 às 12:40).
Existem objetos que cristalizam e expressam vidas. É o caso, nesta “fotografia falada”, de uma nota de 20 escudos com a figura de Santo António quardada preciosamente, senão religiosamente, por um emigrante desde o momento da partida para França em 1973 até à atualidade.
Fotografia Falada é um projeto de salvaguarda da memória e do património imaterial. Consiste no registo vídeo de um depoimento e tem como ponto de partida uma fotografia comentada pela pessoa nela retratada. Pede-se que comente a fotografia e fale da época e do contexto familiar e socioeconómico em que foi tirada (LUGAR DO REAL. Fotografia Falada).
Para aceder ao vídeo, carregar na imagem seguinte.

O valor do papel
O enredo [de INSIGHT] consiste na história do encontro entre uma mendiga idosa e solitária, com uma história de vida trágica, e uma menina alegre. O encontro revela vários aspetos do mundo interior da mendiga, insights sobre a sua vida e sobre o poder da esperança e do otimismo.
O filme convida os espectadores a um processo íntimo de compreensão da sociedade em que vivemos. Mostra como é importante estender a mão generosa às pessoas “transparentes”, que nos tocam, especialmente hoje, quando a tecnologia nos torna mais autocentrados e menos conscientes do que nos rodeia. Cumpre-nos lembrar que a conexão interpessoal entre os seres humanos é insubstituível – ela pode iluminar os recantos mais sombrios do coração de uma pessoa e, assim, melhorar significativamente a sua vida.
Como ilustra a curta-metragem de animação INSIGHT, uma simples folha de papel pode oferecer-se como uma mediação fulcral nas relações humanas. Dobrada ou escrita, dádiva ou contra dádiva.

Sempre cultivei alguma devoção pelo papel. É certo que o digital o está a ultrapassar, numa espécie de viragem civilizacional, viragem que me suscita cada vez mais reservas, menos pelas potencialidades de universalidade, democracia e liberdade e mais pelas realidades de concentração, oligarquia e controlo.
Imagem: Jacques-Louis David. La Mort de Marat,1793
Catavento

Para que lado sopram os ventos além Atlântico? Será que se reorientam para o grotesco, eventualmente brutesco? Com ou sem burrasca (italiano)?
Imagem: Claude Monet. Tempête sur les Côtes de Belle-Île. 1886
Celestial
I find the colors and the diagonal streaks mesmerizing. The slow transition from blue to orange works very well also. To my interpretation of minimal, sharp edges of complimentary colors are not a requirement. When solid objects are the subject versus an overall ethereal scene (like here), of course, having the the solid objects closer together adds more tension and is more graphic art like. (Mike Thompson / Administrador: Photographic Minimalism,10.02.25)

Em qualquer estação, perante o céu sublime, contrastada mas suavemente multicor, da fotografia da Almerinda Van Der Giezen, nada como imaginar um pastor a tocar trechos (largos) de dois concertos de Vivaldi para flautim (em dó maior p.78-2 e p.79-2), enquanto acompanha os galanteios das cotovias. Já agora, mudando de instrumento, o pastor pode tocar, também, o largo do concerto para flauta em lá menor P.77-2.
“Faz da tua vida um sonho, e do teu sonho uma realidade” (Pierre Curie).
A bênção dos momentos inéditos

Existem álbuns que sabem esperar décadas por uma atenção acabrunhada. É o caso de No One Built This Moment (2009), dos Bliss, grupo inglês fundado em 1986. Seguem as três primeiras faixas: Peoples Among Us; Calling; e Trust In Your Love. Acrescento um vídeo notável com Wish You Were Here, do álbum Afterlife (2001).
As músicas dos Bliss ora me lembram os alemães Tangerine Dream, ora o norueguês Nils Petter Molvaer, ora os franceses Air.
Até breve!

Regressado do outro lado do mar, despede-se um amigo, cunhado e último companheiro de matraquilhos. Até breve!
Imagem: Guido Reni (cópia a partir de). O Menino Jesus Observando a Cruz. Séc. XVII. Museu do Louvre. Guido Reni (1575-1642.
