Archive | Abril 2026

Invasões, revoluções e involuções

Invasões. Disse invasões? Bizarro, como é bizarro! Revoluções ou involuções. Disse revoluções ou involuções? Confuso, muito confuso, senão trágico! Coisas próprias de novos Tyrannosaurus Rex.

Fiat 500 L – Italian Invasion. USA, 2013

Trágico foi o fim de Marc Bolan. Fundador da banda T. Rex e pioneiro do glam rock, morreu em setembro de 1977 num acidente de automóvel um dia antes de fazer 30 anos. Mais um caso da extensa lista de artistas precocemente falecidos nos anos setenta. Compôs a canção “Children of Revolution” adotada no anúncio “Italian Invasion” da Fiat.  Será que a escutamos hoje como filhos “deslizantes” da involução?

Em memória de Marc Bolan, acrescem três música ainda não colocadas no Tendências do Imaginário: “Hot Love”; “The Slider” e “Buick Mackane”.

T. Rex – Children of the Revolution. Single, 1972. Performance no programa Top of the Pops de 28.09.1972
T. Rex – Hot Love. Single, 1971
T. Rex – The Slider. The Slider, 1972
T. Rex – Buick Mackane. The Slider, 1972

Lunáticos

Com um pouco de anacronismo e boa vontade, pode vislumbrar-se no anúncio “Beam”, da empresa japonesa de beleza e cuidados pessoais Esthe Wam, uma sugestão a propósito da inspiração da capa emblemática do álbum The Dark Side of the Moon, de 1973, dos Pink Floyd. Provavelmente, as recentes observações da Artémis II não desmentirão.

Esthe Wam – Beam. Agência Ogilvy & Mather Japan. Direção Takuya Matsuo. Japão, 2010
Pink Floyd – Brain Damage / Eclipse. The Dark Side of the Moon. At Earls Court, London, 20.10.1994

Entre Babel e Toronto

Calcedónia

Desde que não se castre a curiosidade, uma diferença costuma entreabrir outra. Os franceses Orange Blossom conduzem aos Light in Babylon de origem turca. Nesta perdição, reencontramo-nos, algures, sem surpresas absolutas nem estranhamentos excessivos. Raízes, vísceras ou outra coisa qualquer… Um namoro do mesmo com o outro numa folia sem princípio nem fim. A Terra é redonda, mas imensa. Com ou sem nomes em inglês, não existe mainstream que a resuma.

À semelhança dos Orange Blossom, os membros dos Light in Babylon, fundados em Istambul em 2010, têm nacionalidades diversas: Michal Elia Kamal (voz e djembe) é israelita de pais iranianos; Julien Demarque (guitarra), francês; Metehan Çiftçi (santur), turco; Jack Butler (baixo), britânico; e Stuart Dikson (percussão), escocês. “Além do árabe, turco e farsi (persa), Michal canta também em hebraico antigo (…) As composições são originais e misturam estilos balcânicos e flamencos. A sua música étnica está catalogada como World Fusion, entrelaçando as culturas do Médio Oriente com a música europeia” (Wikipedia, 18.04.2026).

Light in Babylon – Kipur. On Our Way, 2022. Light in Babylon at Dance in Concert 2019. Em hebraico
Light in Babylon – Sal Sal. On Our Way, 2022. Colocado em 20.03.2024. Em Farsi
Light in Babylon – Canim Benim. Yeni Dunya, 2016. Colocado em 02.04.2019. Em hebraico e turco
Light in Babylon – Gypsy Love. Life sometimes doesn’t give you space, 2011. Colocado em 11.05.2014. Em hebraico.

Ouvidos vadios

Continuemos a (a)variar. A banda francesa Orange Blossom presta-se. Fundada em Nantes em 1993, combina trip hop e rock, progressivo e eletrónico, com música oriental. Os membros principais são o francês PJ Chabot, violino, o mexicano Carlos Robles Arenas, percussão, e a egípcia Hend Ahmed, voz. Os demais têm origem argelina, marfinense e turca. “Multiculturais”, cantam em árabe, francês, inglês, turco, espanhol e português (Meu amor se foi).

Anónimo, ca. 1500. Univ. de Liège

Orange Blossom – Ya Sidi. Under the Shade of Violets, 2014. Clip oficial da série “Marseille” iniciada em 2016
Orange Blossom – Mexico. Under the Shade of Violets, 2014. Live Sessions, 2022
Orange Blossom – Habib. Everything Must Be Change, 2005. Ao vivo na FIP (France Inter Paris), em 16 de outubro de 2014.
Orange Blossom – Maria. Under the Shade of Violets, 2014. Ao vivo na FIP (France Inter Paris), em 16 de outubro de 2014.
Orange Blosson – Souffrance. Everything Must Change, 2005
Orange Blosson – Ode. Spells From The Drunken Sirens, 2024

A Diversidade Humana

Angels with instruments, detail from the Coronation of the Virgin, 13th-14th century, by the Master of the Corleone Altarpiece. Palermo, Galleria Regionale Della Sicilia

A Imaginação Sociológica  (1959), do Charles Wright Mills, é um dos poucos livros da minha cabeceira. O capítulo 7 intitula-se “A Variedade Humana”. A diversidade é um dos meus principais valores: intelectuais e práticos. Importa respeitá-la, abraçá-la e promovê-la, em todos os domínios, incluindo a música. Neste momento, a bússola desnorteada aponta para a Idade Média.

Artefactum – Ductia (Anónimo do séc. XIII). De la taberna a la corte. 2015
Artefactum – Saltarello (séc. XIV). Tempus est locundum. 2002
Arany Zoltán – Palästinalied (de inícios do séc. XIII). Medieval Music. 2016

Ratoeira

reMarkable – Get Your Brain Back. 2018

Somos ratos? Deixaremos de o ser?

reMarkable – Get Your Brain Back. Agência: & Co. / NoA. Direção: Simon Ladefoged. Dinamarca, novembro 2018

Embalar a tristeza

Se pretende embalar a tristeza, o Adagio para Cordas Op. 11, do Samuel Barber, é particularmente apropriada e célebre, mas o Adagio Molto da Sinfonia Al Santo Sepolcro, do Antonio Vivaldi, não lhe fica atrás.

Imagem: Jean-Édouard Vuillard, Félix Vallotton, 1908. Musée d’Orsay

Samuel Barber – Adagio for Strings Op. 11 (1936). ViennaPhilharmonic. Summer Nigh Concert. 02.08.2019
Vivaldi – Sinfonia Al Santo Sepolcro | RV 169 in B minor (ca. 1716). Academia Montis Regalis. Concerto particular, abril 2021

Refeições frescas e canções processadas

Existem comidas de que gostamos a dobrar: associámo-las a entes queridos. Costumam centrar-se em alimentos “naturais”. Assim sucede no anúncio “C’est Magnifique”, do Intermarché. No meu caso, nesta época, destaca-se menos a lampreia à bordalesa e mais o guisado de vitela com ervilhas de quebrar, ambos produtos da estação.

Intermarché – C’Est magnifique. Agência: Romance. Direção: Katia Lewkowica. França, 2019

Por seu turno, a música do anúncio do Intermarché lembra-me a “canção francesa”. Seguem três exemplos, mas interpretados por uma voz processada, gerada artificialmente [um autêntico desafio para os intérpretes reais]: “Éva Lenoir é uma cantora virtual gerada por inteligência artificial, recriando a emoção e a profundidade das grandes vozes do jazz francês” (https://www.youtube.com/playlist?list=PLo11Vql_XCKzb152duWRMEia7Tu_1nkNs).

Éva Lenoir – L’Amour qui s’éteint. Album 01. Colocado em 16.10.2025
Éva Lenoir – Valse pour une Ombre. Album 01. Colocado em 13.10.2025
Éva Lenoir – Les accords de ton absence. Album 01. Colocado em 11.10.2025

Impossíveis conseguidos ou oportunidades desperdiçadas?

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Para Ernst Bloch, a utopia remete para um futuro exequível com raízes no presente que justifica uma esperança mobilizadora. Algures, creio que no livro dedicado a Thomas Münzer, sustenta a seguinte convicção: se a história está repleta de impossíveis realizados, também o está de possíveis não concretizados. Volvidas algumas décadas, os 17 objetivos adotados em 2015 pelos Estados-Membros das Nações Unidas farão parte dos impossíveis conseguidos ou dos possíveis desperdiçados?

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados-Membros das Nações Unidas em 2015, define as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030 e procura mobilizar esforços globais à volta de um conjunto de objetivos e metas comuns.

The Global Goals – The World’s To Do List. Agência: Accenture Song. Direção: Nuno Fealy. UK, 2022
The Global Goals – We The People. 2015

Dezembro em Abril

December é o último álbum de estúdio dos Moody Blues, lançado em 2003, quase 40 anos após a formação da banda (1964). Ouvi-lo no rescaldo da Páscoa, é reverberar o alfa, a Natividade, no ómega, a Paixão, juntar o princípio e o fim da Encarnação de Cristo. Numa entrevista à revista Goldmine, datada de 31 de maio de 2021, John Lodge, falecido em 10 de outubro de 2025, com 82 anos de idade, menciona como surgiu a canção “The Spirit Of Christmas”:

Estava no meu escritório com a televisão ligada e vi todas as notícias sobre os combates no Médio Oriente. Pensei: que mundo estranho em que vivemos. Desliguei a televisão e peguei na guitarra. O Natal estava à porta e as primeiras palavras que saíram da minha boca foram: “Para onde foi o espírito do Natal?”. Em quinze minutos, emergiu a totalidade da música. (Fabulous Flip Sides – The Moody Blues’ John Lodge. Goldmine The Music Collector Magazine, May 31, 2021).

The Moody Blues / John Lodge – The Spirit of Christmas (Lodge). December, 2003
The Moody Blues – Don’t Need A Reindeer (Hayward). December, 2003
The Moody Blues – When A Child Is Born (original de Zacar, 1974). December, 2003