Archive | Maio 2025

Campanhas de m*rda

Ça sent la mer d’ici (trocadilho francês)

Acontece as novidades chegarem aos molhos. Com os anúncios “La campagne de merde”, “Conquer the First School Poo” e “Le Studio”, temos elementos para iniciar um tratado de coprologia. Abordam temas fecais, desde a prevenção até à libertação, passando pela depuração.

Imagem: Ilustração do livro Gargantua

O texto mais estapafúrdio que conheço nesta matéria é da autoria do François Rabelais: o capítulo XIII da obra Gargântua (1534), intitulado “Como Grandgousier reconheceu a maravilhosa inteligência de Gargântua graças à invenção de um limpa cu”. Cinco páginas de delírio grotesco, cuja leitura pode ser escutada nos dois vídeos que seguem aos anúncios.

Imagem: O pequeno Gargântua segurando com as mãos um limpa cu. Gravura de Gustave Doré

Anunciante: Croque la vie. Título: La campagne de m*rde. Agência: Productman. França, maio 2025
Anunciante: Les Petits Culottés. Título: Le Studio. Agência: Customer Service. França, maio 2025
Anunciante: Andrex. Título: Conquer the First School Poo. Agência: FCB Inferno/London. Direção: Andreas Nilsson. Reino Unido, maio 2025

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1 PARTE do Limpa Cu em “Gârgantua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado: 15/11/2021
2 PARTE do Limpa cu em “Gargântua e Pantagruel” de François Rabelais. Pelo Prof. Renato Brito. GELPEA. Colocado em 15/11/2021

Português no 45º World Amateur Go Championship no Canadá

O Fernando parte hoje para Vancouver (Canadá). Vai representar Portugal no 45º World Amateur Go Championship que se realiza de 16 a 23 de maio de 2025. Já o tinha feito no campeonato de 2016 na Coreia do Sul. Que tenha uma boa experiência!
No artigo ” Este português vai representar Portugal num Campeonato Mundial… e quase ninguém sabe“, da GEEKINOUT, Jorge Loureiro entrevista Fernando Gonçalves. Carregar na imagem ao lado para aceder ao artigo.

Lobo

Enquanto a curiosidade não paga, creio, taxa de entrada nos Estados Unidos, aproveite-se para visitar tão contrastado mosaico, alternando arqueologia e prospeção, relíquias escavadas na memória e revelações mais ou menos recentes.

Lobo (Roland Kent LaVoie), nascido na Flórida em 1943, compositor e cantor, alcançou enorme sucesso nos anos setenta, com várias canções no topo de vendas nos Estados Unidos e na Europa. Nos anos noventa, o centro de gravidade da sua atividade deslocou-se para o continente asiático. Em 2022, com cerca de 80 anos, continuava ativo.

Alguns jovens da minha idade lembrar-se-ão, talvez, de canções tais como “I’d Love You To Want Me”, “Don’t Expect Me To Be Your Friend” ou “How Can I Tell Her”, do álbum Of a Simple Man, estreado em 1972. Por essa altura, não parava de riscar o 45 rotações com “I’d Love You To Want Me”. A estas canções, acrescento “Faithful” de uma fase “asiática” mais tardia (anos noventa).

Uma vez que o Lobo sofreu um apagão no Ocidente, pedia um feedback, um esboço de sinal [um (des)gosto ou emoji] a quem dele se recorde.

Lobo – I’d Love You To Want Me. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Don’t Expect Me To Be Your Friend. Of a Simple Man, 1972
Lobo – How Can I Tell Her. Of a Simple Man, 1972
Lobo – Faithful. Asian Moon, 1994. 2004 Remaster

Morte Social e Sorte Grande

A crença universalmente difundida segundo a qual o medo da morte física é o maior dos medos do homem é altamente contestável. Incomparavelmente mais mortal é o seu medo da morte social, isto é o medo de ser desacreditado, ignorado ou escarnecido” (Günther Anders. Sténogrammes philosophiques. Ed. orig. 1965).

A memória de Jeff Buckley conduziu-nos aos Estados Unidos onde, em termos musicais, nos vamos demorar. Entretanto, uma pausa para publicidade. Insatisfeito com os anúncios mais recentes, demandei os premiados na última década no Festival de Cannes.

“Justino”, estreado em 2015, proporcionou um reencontro encantador. Partilhado no Tendências do Imaginário em dezembro de 2018 (ver Justino e os manequins), não resisto a recolocá-lo. Continua a sensibilizar-me, embora de um modo distinto. Em 2018, ainda não detinha a mínima experiência de “morte social”.

Imagem: Jean-Joseph Perraud – Desespero. Musée d’Orsay

No anúncio, tudo parece suceder como se Justino, anestesiado em rotinas e sem convívio, não existisse para os outros. Mas não se senta ao lado de outros transeuntes nas deslocações para o trabalho? Não vive em função dos outros? Morte social significa a nossa ausência na sociedade, não a ausência da sociedade em nós. A presença da sociedade em nós pode até ser obsessiva. Esse é um dos dramas da morte social. Justino sobrevive num armazém humanizando manequins. Poderia ser numa paisagem hertziana animada por pixéis ou num retiro qualquer onde são esquecidas as figuras outrora célebres. Apagar pessoas pode ser desumano, nem por isso deixa de ser corriqueiro.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

Na realidade, resulta complicado sair de um estado de morte social. Inclino-me a acreditar mais na ressurreição mística do que na social. Uma vez acabado, nem sequer “cevada ao rabo”!  Uma derradeira valsa sem parceiro. A não ser que sobrevenha algum “milagre” improvável: um bilhete de lotaria, uma fagulha de poder, um estranho reinteresse quase póstumo… Algo que desperte a atenção e a vontade alheias, que contrarie a sua inércia. Ámen!

Johannes Brahms – Waltz No. 15 in A-Flat Major, Op. 39 (Remastered). Piano: Philippe Entremont. Entremont Plays Best-Loved Piano Pieces, 2019

Sem fim

Não queria despedir-me [até à próxima] de Jeff Buckley sem partilhar duas canções que estimo menos conhecidas: “All Flowers in Time Bend Towards the Sun”, um dueto com Elizabeth Fraser, que junta duas vozes fabulosas; e “Je N’en Connais Pas La Fin”, um namoro ousado, mas bem conseguido, com a “canção francesa”.

Jeff Buckley & Elizabeth Fraser – All Flowers In Time Bend Towards The Sun. Unreleased, unfinished acoustic track by Jeff Buckley and his then partner Elizabeth Fraser. Recorded sometime around 1995-1996. Taken from the album “Rarities From NYC” and remastered by TheRightEarOfNash (2018).
Jeff Buckley – Je N’en Connais Pas La Fin. Live At Sin-é (Legacy Edition). Released on: 2001-07-03. Live at Sin-é, New York, NY – July/August 1993

Mágua

I’ve always felt that the quality of the voice is where the real content of a song lies. Words only suggest an experience, but the voice is that experience (Jeff Buckley)

Cantor, compositor e guitarrista norte-americano, Jeff Buckley foi uma das maiores revelações dos anos noventa. Não sei se me é permitido, mas arrisco afirmar que “bastante louvou Quem cedo o levou”. Faleceu afogado, em 1997, com 30 anos de idade, quando nadava, entoando uma música dos Led Zeppelin, num afluente do rio Mississipi. Seguem quatro canções com inspiração religiosa: Grace; Corpus Christi Carol; Satisfied Mind; e, incontornável, a versão de Hallelujah, do Leonard Cohen.

Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995
Jeff Buckley – Corpus Christi Carol. Grace. 1994
Jeff Buckley – Satisfied Mind. Sketches for My Sweetheart the Drunk. 1998
Jeff Buckley – Hallelujah. Grace. 1994. Ao vivo no Cabaret Metro, Chicago, 13 de maio de 1995

Heróis anónimos do rock progressivo

O concerto dos Camel, “heróis [quase] anónimos do rock progressivo”, um dos meus grupos prediletos dos anos setenta, no Royal Albert Hall, no dia 17 de setembro de 2018, impressiona a vários títulos. Não tanto pela idade de alguns membros: Andrew Latimer, a figura principal, ronda os 70 anos de idade. Habituámo-nos a ver cantores e membros de bandas clássicos dos anos sessenta e setenta a continuar ativos com rugas e cabelos brancos (ver Entrar na idade). Não consigo esquecer o Leonard Cohen (ver Coro Salgado).

O concerto dos Camel no Royal Albert Hall é notável pela prestação e pelo ambiente. Por um lado, a fidelidade em relação à gravação em estúdio e a concentração dos intérpretes. Nenhum improviso, nenhuma agitação corporal. A exemplo de grupos como os Moody Blues ou os Pink Floyd e não os Rolling Stones. Por outro, o público permanece sentado, silencioso, sem grandes efusões e gesticulações rituais. Não fosse o tipo de música e lembraria o mais clássico dos concertos clássicos.

Segue uma sequência de três canções: da quarta à sexta do DVD com o concerto: “Spirit of the Water”, “Another Night” e “Air Born”, por sinal, ainda não colocadas no Tendências do Imaginário.

Camel – 4 Spirit Of The Water. Royal Albert Hall 2018. DVD, 2019
Camel – 5 Another Night. Royal Albert Hall 2018. DVD, 2019
Camel – 6 Air Born. Royal Albert Hall 2018. DVD, 2019

O radar com brinco de ouro

Existem músicas com mais de cinquenta anos que o nosso corpo ainda se recorda. É o caso de “Radar Love” (1973), dos neerlandeses Golden Earring, ativos entre 1961 e 2021.

Golden Earring – Radar Love. Moontan. 1973

Futurando

Projeto Kawasaki Corleo

Nem mota nem automóvel: a nova invenção da Kawasaki assume-se como um cavalo-robô capaz de levar os aventureiros aos pontos mais inacessíveis do planeta. / O Corleo Concept, que mais parece saído dum filme de ficção científica, foi concebido para realçar as qualidades fun to ride definidas pela insígnia nipónica para as suas motocicletas. / Os movimentos do piloto estão sob contínua monitorização numa união perfeita entre homem e máquina; basta-lhe controlar as transferências de peso para manter a melhor postura em andamento. / A alimentar o “bicho” está um motor de 150 cm3 a hidrogénio, com a electricidade gerada a alimentar as unidades de propulsão montadas em cada uma das quatro pernas. / Soma-se um painel de instrumentos com o nível de combustível, a posição do centro de gravidade e a rota de percurso preferencial; e à noite o sistema projecta marcadores no trilho para indicar o caminho a seguir. / Apresentada na Expo 2025 que está a realizar-se na cidade japonesa de Osaca, não será para já que a Corleo Concept subirá à linha de montagem para a produção em série. (Aquela Máquina. Drive-in. Kawasaki Corleo Concept leva-o a cavalo onde mais ninguém consegue. 15-04-2025).

De lamentar que o lançamento esteja previsto, como muitas outras metas, para 2050. Seria um consolo e uma expiação fazer a última viagem sobre quatro pernas robóticas. Quem sabe! O tempo anda acelerado. Ainda é capaz de se ultrapassar.

Produto: Kawasaki CORLEO. Japão, abril 2025
Kawasaki CORLEO Concept: E se esta fosse a grande moto de trilha de 2050?

Noturnos com lua cheia

Pelos cinco continentes: depois da Oceânia, da Europa, da América Latina, da Ásia e da África, chega a vez da América do Norte. Admito que nestas travessias o meu radar não privilegia os Estados Unidos. Na minha opinião, exorbitam em recursos de divulgação e agentes de promoção. O que não obsta à profusão de autores e obras com qualidade, diversidade e originalidade notáveis. Como diz uma amiga, transbordam de surpresas e idiossincrasias.

Resulta estranho, mas o Tendências não contempla uma única canção dos The National, banda de indie rock fundada em 1999 no Ohio. Para compensar, segue meia dúzia de canções por data de estreia, excetuando a mais antiga que surge em último lugar. Por vício, relega-se para o fim aquilo que se pretende relevar.

The National – I Need My Girl. Trouble Will Find Me. 2013
The National – Peggy O. Day of the Dead. 2016. Cherry Tree Live Tour vol. 2. 2020
The National – Guilty Party. Sleep Well Beast. 2017. Live in the KEXP studio. Recorded November 29, 2017
The National – Space Invader. Laugh Track. 2023. With Jools Holland on BBC iPlayer, 2023
The National – Eucalyptus. First Two Pages of Frankenstein. 2023. Official Video
The National – About Today. Cherry Tree. 2004. Live. Germany 2008