Archive | Abril 2025

Como peixes na cruz

Catacumba de S. Domitilla. Roma

Sexta-feira da Paixão, dia fúnebre e sacrificial.

Sou seguidor do blogue Peixinho de Prata, que se propôs partilhar as músicas que mais marcaram os últimos 50 anos Hoje, foi a vez da canção “Hunger of the Pine”, da banda britânica Alt-J. Condiz.

Alt-j são uma banda britânica, formada em 2007 em Leeds, mas cujo primeiro álbum, An Awesome Wave, foi lançado em 2012. O nome verdadeiro da banda é a letra grega delta (Δ), que em Mac se escreve usando os controlos alt-j. Não faço a menor ideia como é que comecei a ouvir isto, se alguém me recomendou, se veio na sequência de gostar de Interpol e Arcade Fire. Todas as hipóteses são válidas, e alguma será verdadeira (…)
Nunca os vi ao vivo, com grande pena minha que adoro concertos, nem nunca foram banda sonora das minhas noites de dança, mas são certamente parte essencial da banda sonora da minha vida adulta. Algumas canções são absolutamente arrebatadoras, e os vídeos são também de excelência. Trago aqui um dos meus favoritos, cheio de significado, mas havia muitos por onde escolher. (50 Anos, 50 Músicas – #14 Hunger of The Pine, Alt-J).

Cada um dos seguintes vídeos lembra-me alguns episódios da história da arte. Por exemplo, os “São Sebastião”, do Guido Reni, “A Escola de Atenas”, do Rafael, os touros, do Pablo Picasso e os autorretratos, da Frida Kahlo.

Alt-J – Hunger Of The Pine. This Is All Yours, 2014
Alt-J – Tessellate. An Awesome Wave, 2012
Alt-J – Something Good. An Awesome Wave, 2012
Alt-J – 3WW. Relaxer, 2017

Aqui há gata!

À Sushi

Em França existem mais lares com gatos do que com cães desde há cerca de uma década. A urbanização tende a favorecer os felinos. Na Península Ibérica ainda predominam os caninos, o que não impede o anúncio espanhol “Get Apprrrrroved!” de apostar nos felinos, em conformidade, aliás, com o nome da marca: Lynx.

Marca: Lynx. Título:  Agência: Catnip. LOLA MullenLowe. Direção: Andreas Nilsson. Espanha, março 2025

Dar a volta por baixo

Se ao meio-dia o rei te diz que é noite, deves procurar as estrelas?

A beleza costuma ser diurna, solar. Brilha ao ponto de se tornar ofuscante! Mas pode dar-se-lhe a volta e torná-la noturna, ou seja, perigosa e mortal, fazê-la, por exemplo, descer do pódio para o túmulo (anúncio “Dress for the moment”). Parece, aliás, que nos anúncios da New Yorker a noite tem tendência a instalar-se. Em “Closet”, a inversão prossegue; agora, do masculino para o feminino. Perturbador!

Marca: New Yorker. Título: Dress for the moment. Produção: TwinFilm. Alemanha, 2009
Marca: New Yorker. Título: Closet. Produção: TwinFilm. Direção: Eric Hillenbrand, Alemanha, 2008

Lua e sol. O canto dos tordos

Tu me dis que je suis l’une ou l’autre. Mais je suis Lune et Soleil libre d’être l’une comme l’autre. Car je suis Lune et Soleil (Zaz).
Por muito inovador que seja, um artista francês dificilmente resiste ao encanto da “vieille chanson”, à sua melodia, poesia, sageza e sentimento. Zaz não é exceção. Seguem três exemplos do mesmo álbum, Isa, publicado em 2021.

Zaz – Le chant des grives. Isa, 2021. Legendas em espanhol
Zaz – Et le reste. Isa, 2021. Legendas em espanhol
Zaz – L’une ou l’autre. Isa, 2021. Legendas em espanhol

Higiene digital

“The real danger is not that computers will begin to think like men, but that men will begin to think like computers” / O verdadeiro perigo não é que os computadores venham a pensar como os homens, mas que os homens comecem a pensar como computadores” (pensamento atribuído ao jornalista Sydney Harris).

A revolução informática tem limites? Talvez…

Imagem: Computer man, by GigachadUndertaleFan. DeviantArt

Marca: Emma. Título: Le Trèfle. Agência: Leo Burnett Paris. Direção: Bart Timmer. França, 2013

Dançar à chuva

A vida não é esperar que a tempestade passe, mas aprender a dançar à chuva (Séneca)

Estou a preparar uma conversa. Custa! Afortunadamente, resulta tarefa rara. Depois de abraçar a ignorância, foco-me, agora, na organização da comunicação propriamente dita. Tento, sobretudo, abreviá-la e simplificá-la. Esta transição alivia-me. Abre-me, por exemplo, a porta à alegria e energia da cantora francesa Zaz. Seguem três canções que dão vontade de dançar com as fadas à chuva.

Zaz – Je veux. Single, 2008. Álbum: Zaz, 2010
Zaz – La fée. Zaz, 2010. live session at the Songkick Paris offices, 2019
Zaz – Imagine. Isa, 2021

Uma Pitada de Mitsune

Mitsune

Não é por ser generoso que um pensamento é mais interessante, nem por ser desagradável, menos válido (AG)

De castigo em Braga (só para aprender), desforro-me a procurar e escutar excentricidades. Segue, para os nipófilos mais rebuscados, o formidável concerto dos Mitsune, em Rennes, em dezembro de 2024.

Mitsune é uma banda japonesa de folk fusion sediada em Berlim, com membros provenientes do Japão, Austrália, Alemanha e Grécia. O seu som mistura folk tradicional japonês com música psicadélica, cinematográfica e ritualística, acrescentando ao folclore moderno uma mentalidade punk (…) Os seus espetáculos ao vivo estão carregados de energia bruta, com visuais decadentes e uma pitada de humor (https://www.mitsune.de/).

Mitsune performing live at the l’Antipode in Rennes, France, during Trans Musicales 2024. Recorded December 08, 2024. Songs: 00:04 – Kokiriko Bushi; 04:51 – Soran Bushi: 07:37 – Roku-Go; 11:06 – Aizu Bandaisan

Música refrescante

Em Melgaço, estava um calor insuportável. No regresso a Braga, ainda foi pior: vinte minutos a torrar para percorrer 1 km. Em casa, apeteceu arejar. As janelas não bastavam. Recostei-me, imaginei-me na Irlanda enquanto ouvia as bandas sonoras de três filmes dos anos oitenta, todas compostas por Mark Knopfler. Segue uma amostra.

Mark Knopfler – Going Home. The Local Hero, 1983. Ao vivo na BBC, em abril de 1996
Mark Knopfler – The Long Road. Cal, 1985
Mark Knopfler – Once Upon A Time / Storybook Love. The Princess Bride, 1987

Abrenúncio

Estas leituras estão-me a dar nó em cima de nó. Sem entrançar! Demasiada luz alheia e escuridão própria. E não há lua que me alivie. Nestes casos, importa digerir lentamente, mas, mística e labiríntica, esta absorção não é pera doce. Sinto-me ignorante e sem discernimento. Se não considerasse necessária a penitência, diria que estou a ficar masoquista. Assim, temo as consequências. Abrenúncio! Talvez seja a falta de coca-cola…

Este estado de desgraça conduziu-me a experimentar a visualização de uma amostra de progressivo. O Tendências do Imaginário contempla apenas três canções dos Genesis: a primeira, “I know What I Like”, num artigo de 2014 (https://tendimag.com/2014/08/27/genesis/).; as seguintes, “Dancing with the Moonlit Knigh” e “The Carpet Crawlers”, noutro, de 2016 (https://tendimag.com/2016/07/05/genesis-2/). O link das duas primeiras foi, entretanto, desativado. Recoloco duas, por sinal, excelentes interpretações ao vivo.

Genesis – Dancing with the Moonlit Knigh. Selling England by the Pound. 1973. Live at Shepperton Studios 1973
Genesis – I know What I Like. Selling England By The Pound. 1973. Live at Shepperton Studios 1973

Às voltas. O Ouroboros

Desenho de Ouroboros de um manuscrito alquímico grego bizantino do final da Idade Média . Cópia de 1478. Original atribuído a Estéfano de Alexandria, data do século VII

A propósito da folia, música e dança de origem portuguesa (ver A folia portuguesa), comentou-se que continuava a inspirar novas versões, aludindo a Rita Ribeiro a um grupo célebre, sem, contudo, se lembrar do nome. Tão pouco consigo adivinhar.

Posteriormente, acudiu-me que a Rita talvez estivesse a pensar nos britânicos Penguin Cafe Orchestra. Por acaso, dias antes, ao escutar o álbum Ummagumma (1969), dos Pink Floyd ,tinha-me ocorrido que a música “The Narrow Way, Part I” prenunciava um pouco o estilo dos Penguin, cujo primeiro álbum, Music from the Penguin Cafe, foi lançado em 1976.

Pink Floyd – The Narrow Way (Part 1). Ummagumma, 1969

Às voltas com a noção de circularidade na teoria do imaginário do Gilbert Durand, a música Perpetuum Mobile, dos Penguin, acabou, também, por ressoar nos meus ouvidos.

Enfim, penso ilustrar, numa próxima comunicação, a referida noção de circularidade com a gravura do M. C. Escher “Um Encontro” (1944), que, por sinal, é capa do livro da Rita As lições dos aprendizes (2001)…

M.C. Escher – Um Encontro, 1944

Tantas voltas que a serpente, o Ouroboros, dá! Até acaba por morder a própria cauda, renovando o ciclo.

Penguin Cafe Orchestra – Perpetuum Mobile. Signs of Life, 1987. Ao vivo TivoliVredenburg. Colocado em 2020
Penguin Cafe Orchestra – Prelude and Yodel. Broadcasting from Home, 1984.
Penguin Cafe Orchestra – Air à Danser. Music from the Penguin Cafe, 1981. On Tue 25 February 2014 at The Queen’s Hall, Edinburgh