Archive | Janeiro 2021

Oremos

Salvador Dali. Angelus. 1932.

“O PÚBLICO sabe que a excepção de manter as escolas abertas, caso o Governo avance para um novo confinamento geral, se deve a dois factores: a importância do ensino presencial no processo de aprendizagem; e a conclusão de que os alunos obedecem melhor às regras sanitárias e estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas – uma certeza que é fundamentada com a baixa incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” (https://www.publico.pt/2021/01/08/politica/noticia/regresso-confinamento-geral-mantera-escolas-abertas-1945463).

Alguém pode dizer a este ignorante qual é a “incidência de casos de covid-19 nos estabelecimentos de ensino” em Portugal? Tantos por 100 000… Presumo que existe quem saiba. Dispenso os pormenores da polémica da escolha do procurador europeu nacional na Procuradoria da União Europeia. Receio nunca me encontrar com esse senhor. O mesmo não garanto em relação à Covid-19. Informem-me, por favor, sobre importâncias importantes. Dispenso os intermináveis tangos palacianos. Sejam políticos, que ser político é missão nobre!

Apraz-me saber que os “alunos (…) estão mais protegidos de contaminações dentro das escolas”. Mais protegidos do que na Irlanda, na Alemanha ou na Holanda, que fecham as escolas, embora alcancem incidências de infetados próximas de Portugal: respetivamente, 455,6; 319; 757,9; e 517 por 100 000 habitantes (https://www.ecdc.europa.eu/en/covid-19/country-overviews). Serão as escolas portuguesas especialmente protetoras? Será a sociedade portuguesa mais mórbida, mais ameaçadora? Talvez seja um milagre. Oremos.

Pieter Bruegel The Elder. The parable of the blind. 1568.

Falar com as imagens

Busto da República

Há católicos que falam com as imagens dos santos. Mais, afigura-se-lhes que estes lhes respondem. Em casa, tenho um busto da República original. Herança de meu avô. Acontece-me falar com ela. Às vezes, tento dialogar. Perdeu o cocuruto. Não tem vida fácil. Gostava muito de lhe dedicar uma canção. Mas não sei cantar. Peço a outros. Por exemplo aos The Who.

The Who. I’am Free. Tommy. 1969. Ao vivo em Kilburn, em 1977.

As imagens interpelam-nos, o busto da República interpela-nos. Num século, perdeu o cocuruto. É vulnerável. A república é vulnerável.

Washington. 06.01.2021.

Netos da revolução, filhos do esquecimento

Elton John, Marc Bolan & Ringo Starr. Londres. 1973.

Gosto de escavar como um arqueólogo indisciplinado. Por exemplo, na história do rock. Numa sociedade acelerada, cinquenta anos representa muito tempo. Quem ouviu os T. Rex? Uma banda de rock inglesa, com um som próprio, ativa entre 1967 e 1977. The Slider foi o álbum mais vendido em 1972 no Reino Unido. A banda dissolveu-se em 1977 na sequência da morte num acidente de automóvel do vocalista Marc Bolan.  Em dez anos, produziram treze álbuns.

T. Rex. Cosmic Dancer. Electric Warrior. 1971.
T. Rex (com Elton John). Get it on. Electric Warrior. 1971
T. Rex. Children of revolution. Single. 1972.

Nove meses

Gustavo Rosa. Ela grávida laranja amarelo. 1971.

O José Neves enviou-me o anúncio 9 meses, da Volkswagen. Interpretar é jogar o jogo. Um coro trágico recita notícias pandémicas. Um automóvel segue o seu destino. O coro silencia-se e o automóvel estaciona junto a um hospital. Sai um casal. O homem ajuda a mulher grávida. O ambiente ambarino, “o âmbar de um tempo humano e divino” (https://tendimag.com/2017/06/28/despasmar-o-prazer/), é complementado pela tranquilidade do azul celeste. Apesar das ameaças, o Volkswagen transporta, seguro e sereno, a vida. O anúncio é marcado pelo sentido de oportunidade: nove meses de gravidez, nove meses de pandemia. Recorre a dualidades clássicas: a morte e a vida: a ameaça e a proteção. Não obstante o momento trágico, o anúncio emana esperança: “apesar de todo, la luz siempre encontra el caminho”.

Marca: Volkswagen España. Título: 9 meses. Espanha, dezembro 2020.

Violino

Pablo Picasso – Violin and Grapes, 1912.

Às vezes, chove música.

The last violin performance of Ladies in Lavender (O amor não escolhe idades). Violino: Joshua Bell. 2004.

Perda

Procol Harum. Home. 1970.

“Que é pior do que fazer o mal quando se pretende fazer o bem?” (Jean-Michel Guenassia, Le club des incorrigibles optimistes, 2009).

Há várias maneiras de almejar simbolicamente o futuro. Chamar o bem, com fogo de artifício; esconjurar o mal, com uma canção fúnebre. Se 2021 seguir 2020, seremos constrangidos a aproximar o bem e a afastar o mal. Para além das bem-aventuranças e dos exorcismos, pode-se optar pela homeopatia do mal. Algo como reciclar o mal.

Procol Harum. Nothing that i didn’t know. Home. 1970.

The Silent Box

The Silent Box.

Algo mudou na música pop no que respeita aos protagonistas? Terão as bandas perdido algum protagonismo em relação aos intérpretes individuais? No Billboard de 1968, nos 25 primeiros, constavam 14 bandas e 11 intérpretes individuais (inclui os duo). Cinquenta anos depois, em 2018, nos 25 primeiros, constam 6 bandas e 19 intérpretes individuais. Subsistem, porém, muitas bandas. Os The Silent Box é uma banda de Braga, com repertório original, consistente e promissora. O vocalista é um caso sério. Retenho três músicas. Acabam de publicar Hold On  (2021). Acrescento Aftermath, do EP “I.N.T.R.O” (2019) e a atuação ao vivo no Braga Sounds Better 2018.

Hey ! We are a band from Portugal. The project goal is to create music with a wide spectrum of styles, with the majority of the influences being on the Indie, Alternative and Blues areas of Rock music (The Silent Box).

The Silent Box. Hold On. Vídeo musical. 2021.
The Silent Box. Aftermath. “I.N.T.R.O.”. 2019.
The Silent Box. Ao vivo: Braga Sounds Better. 2018.