Apodrecimento
O anúncio da 84 Lumber, em que mãe e filha mexicanas tentam entrar nos Estados Unidos, foi censurado pelo canal Fox durante o Super Bowl. Apenas uma parte foi transmitida. O poder é como a fruta. Quando uma peça começa a apodrecer, apodrece toda a fruta em redor.
Marca: 84 Lumber. Título: The Journey. Agência: Brunner. Direcção: Cole Webley. Estados Unidos, Fevereiro 2017.
Com um burro às costas. Música com humor.
Estive sete dias sem Internet. O apoio técnico por parte da operadora, a única entidade que o pode prestar, só chegou hoje. Uma simples troca de modem. Podia ter recorrido a outros acessos à Internet, mas estas conversas são pessoais e têm um nicho, a minha casa. Sou fetichista.
Há quem acredite que a técnica nos conduzirá à eternidade. Quanto a mim, a técnica, parente da obsolescência, é aceleradora da morte. Atropelam-se os funerais de técnicas de ponta, computadores incluídos. Deus não fez, neste mundo, obra perfeita. O que fez desfaz-se. Não faltam porém divindades de barro em busca da perfeição. São os piores inimigos da humanidade.
Neste País de mil leis, uma operadora não tem prazo para acudir a uma participação de avaria! E nem sequer é possível denunciar o contrato. Por causa da fidelização. Quando o poder político e o poder económico se sentam no mesmo banco, o melhor é o consumidor não se pôr a jeito. Para a próxima, pense duas vezes antes de avariar, não vá carregar dois burros às costas.
Esta abstinência digital lembrou-me quatro músicas dedicadas a animais. Na primeira, os burros zurram; na segunda, as galinhas esgaravatam; na terceira, os cucos parasitam; e na quarta, os zangões zumbem.
La Fête de l’Ane. Excerto. Música medieval. Clemencic Consort.
Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728. Sir Neville Merrimer.
Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735. Trevor Pinnok.
Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900. David Garrett.
Antes que seja tarde
Hoje é o dia do Senhor. E não fui à missa. Mas não sou má pessoa. Não sei como reparar? Talvez um artigo integralmente lusófono, com um anúncio da Unicef Brasil, uma canção dos Titãs e um poema de Miguel Torga. Hoje não é o dia do Senhor; hoje é o dia do Menino.
Anunciante: Unicef Brasil. Título: Antes que seja tarde. Agência: Isobar. Brasil, Janeiro 2017.
Titãs. Epitáfio. Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana. 2001.
AVISO
Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.
Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos…
Miguel Torga, Diário VI, 1952.
Azul, rosa e âmbar. Paleta simbólica.
O mundo veste azul e rosa. Às vezes, azul sobre rosa, como a menina com o smartphone. Uma pincelada dissonante na geometria das cores. A Cinderela do smartphone é uma mulher vestida de azul. Personalidade? Segunda pincelada dissonante. Azul costuma ser associado por psicólogos e decoradores à serenidade, à harmonia e à maturidade: e, pelo comum dos mortais, ao sexo masculino. O rosa respira desejo, ternura e ingenuidade. Corresponde ao sexo feminino. Azul mais rosa dá roxo, todo espiritualidade, magia e mistério. A mistura das três cores não basta para produzir o branco, cor da paz, da harmonia e da pureza. Quando uma pessoa não tem que dizer, escreve com o cérebro em velocidade de cruzeiro. Devia limitar-se a ver o anúncio brasileiro Azul, da Samsung (vídeo 1). Mas caso insista na incontinência colorida, o melhor é mudar de tom, para um azul aveludado, e, sobretudo, de cor, de rosa para âmbar (vídeo 2).
Marca: Samsung S7 Edge. Título: Azul. Agência: Leo Burnett Tailor Made. Direcção: Carol Markowicz. Brasil, Janeiro 2007.
Mysteries of Love. Música por Angelo Badalamenti. Com Kid Moxie. Blue Velvet (1986), por David Lynch.
Nem a morte nos separa
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“Nem a morte nos separa” é um dos meus artigos favoritos do Tendências do Imaginário. Vale a pena relembrar.
Pintarolas carnais
A crer na publicidade, os Skittles, para além de minúsculos e coloridos, são irresistíveis e sexuados. No anúncio “Romance”, um novo Romeu (ou Cyrano de Bergerac) em vez de versos atira skittles para a janela da donzela, sofregamente engolidos, um a um, por um carrocel grotesco de glutões. O anúncio “Smile” surpreende com um beijo guloso capaz de superar o Beijo de Auguste Rodin ou o Beijo de l’Hôtel de Ville de Robert Doisneau.
Marca: Skittles. Título: Romance. Agência: Adam&eveDDB. Direcção: Harold Einstein. Reino Unido, Janeiro 2017.
Marca: Skittles. Título: Smile. Agência: DDB (Chicago). Estados Unidos, 2013.
Iluminar o som
Depois da fumaça, a bonança. O sol brilha por baixo das nuvens. Neste anúncio, todo amor e ternura, o pai, atormentado com o sofrimento da filha, surda, descobre uma solução: iluminar o som.
Marca: Promart Homecenter. Título: The Perfect Daughter. Agência: Fahrenheit DDB, Lima. Direção: Ricardo Chadwick. Perú. Janeiro 2014.
Fumaça ou a difícil arte de ser humano
Não me lembro de campanha com a amplitude da luta anti-tabaco. Uma campanha orquestral, intrusiva e beata. Nunca tanta voz e tanto aparelho se juntaram em torno de uma causa. Por todos os ambientes e canais, desde os media até aos cidadãos. Esta polifonia pende para a cacofonia. Não existe privacidade ou intimidade que a demovam. Abrange tudo e todos, não há abrigo que lhe escape. É totalitária. Um expoente da fé no delírio da razão. Trata-se de propaganda, uma apropriação pela ciência e pela técnica das demais esferas da vida, designadamente moral e pessoal. Com tanta certeza e tantos recursos, a propaganda anti-tabaco patina ao nível dos resultados. Passa a caravana e a paisagem continua. Retocando Shakespeare. “muito barulho para nada”.
Não sou a favor do tabaco. Fumar é uma estupidez: uma iniciativa que só prejudica o autor. Visto assim, sou estúpido. Sou contra o tabaco, mas não sou contra os fumadores. Esmago um cigarro, não agrido um fumador. Aliás, a maioria dos fumadores entrou no inferno ainda o vício não era pecado. Foi o céu que, entretanto, mudou.
Tenho observado muitos anúncios anti-tabaco. Uns tendem a incluir, outros a excluir, o fumador. Estes três anúncios foram promovidos pela britânica NHS (National Health Service). O primeiro promete ajuda, o segundo anuncia a morte e o terceiro castiga até à morte. Recordando Hannah Arendt, é complicado entender o que motiva o ser humano, cordeiro ou carrasco.
Volta e meia regresso a esta birra desconversada. Que os infalíveis me perdoem! Nem com os olhos fechados, consigo ler outro roteiro. O roteiro das misérias históricas e do “admirável mundo novo”.
Anunciante: NHS. Título: Getting off cigarettes. Agência: Mcbd London. Direcção: Michael Geoghegan. Reino Unido, 2007.
“This is a viral created as (…) final Masters project for the MA 3D Digital Animation program at the University of Hertfordshire. It is also being used by the NHS to promote their campaign on Anti Smoking”. Reino Unido, 2010.
Anunciante: NHS. Título: Fight Back. Agência: Doctor Foster United Kingdom. Direcção: Rankin and Chris Cottam. Reino Unido, 2010.










