O capital apostólico
No que respeita à publicidade, a Coca-Cola costuma esmerar-se. A campanha da Coca-Cola Middle East não desmerece. Somos filhos de Maio e herdeiros dos profetas. Abraçamos causas. Para a Coca-Cola, é ponto assente. Os anúncios de consciência e salvação estão em voga. Tecnicamente apurados e subtilmente pedagógicos, ensinam-nos, por exemplo, que a visão é o sentido decisivo na discriminação. Apagam-se as luzes e logo se apagam o racismo, a xenofobia e o preconceito. Há quem discorde. Georg Simmel advoga que é o cheiro, e não a visão, “o sentido desagregador ou anti-social por excelência” (Georg Simmel, Sociologie des sens, 1912). Este anúncio da Coca-Cola é um filme. Um simulacro de uma performance, de uma experiência ou de um “apanhado”. “Labels and designs are only for cans not for people”. Dado o mote, estamos confrontados com um novo tipo de capital: o capital apostólico. Este tipo de anúncio é mais fácil de comentar do que de criticar. A empresa faz o que lhe interessa com os recursos de que dispõe. O anúncio surpreende, envolve e agrada. Não é sobranceiro, categórico, acusador, descompensador, nem previsível, como é o caso de parte da publicidade de sensibilização paga pelos contribuintes.
Marca: Coca-Cola Middle East. Título: Remove Labels this Ramadan. Agência: Memac Ogilvy Dubai. Middle East, Julho 2016.
Aproveito para adicionar um anúncio que a Amnistia Internacional lançou há dias. Denuncia a violência policial no Brasil por altura dos Jogos Olímpicos.
Marca: Amnesty International. Título: The police are breaking records in Rio. Agência: Ogilvy & Matter (Amsterdam). Internacional, Julho de 2016.

Na mouche!