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Autodestruição

Roland Topor. Liberté d'expression. Amnestia Internacional. 1977

01. Roland Topor. Liberté d’expression. Amnestia Internacional. 1977.

Hoje apetece-me conversar. Uma pausa na escrita solitária. Não sei se reparaste na gravura do Roland Topor no artigo anterior (Com uma pequena ajuda da morte)… Nem sequer viste o artigo. É natural. Não queres dar uma espreitadela? Eu fico aqui à espera. Não te apetece? Também não se perde nada.

Viste o filme O Tambor? É daqueles filmes de culto em que saímos da sala de cinema indispostos. Curiosamente, Roland Topor desenhou um dos cartazes do filme.

THE TIN DRUM French Movie Poster

02. Roland Topor. O Tambor. Cartaz francês do filme. 1979

Roland Topor pertence ao rol de artistas cuja obra é mais famosa do que o autor. Em 1977, desenhou um cartaz, contra a censura, para a Amnistia Internacional. O desenho de Roland Topor é um ícone do imaginário do último meio século. Cerca de dez anos mais tarde, o desenho preenche a parede de um prédio em Maastricht.

Mural by Ronald Topor, 1988, located at Tongersestraat, Maastricht, The Netherlands.

03.Mural por Ronald Topor. Maastricht. 1988.

Parte da obra surrealista de Roland Topor é considerada “autodestrutiva”. Poucos traços e muita corrosão, à semelhança dos desenhos seguintes.

Para ter uma noção do que pode ser uma obra autodestrutiva, sintoniza o teu cérebro com o meu. Recorda a gravura Mãos desenhando (1948), de M.C. Escher. Agora, imagina comigo! As mãos de Escher, em vez de se desenharem mutuamente, estão a apagar-se uma à outra! Isto é autodestruição.

M.C. Escher. Mãos. 1948.

07. M.C. Escher. Mãos. 1948.

Soube-me bem imaginar contigo. Imaginação criadora sobre a autodestruição.

O Coração da Terra. Os Direitos do Homem

Victor Jara

Victor Jara

A Declaração Universal dos Direitos do Homem fez esta semana 70 anos. A Amnistia Internacional celebrou a efeméride com um belo anúncio. Os defensores dos direitos humanos marcam presença em todas as paisagens. Bem haja! Os abusadores, também, em todas as paisagens. Abusos inumanos.

Num encontro recente, do Mestrado de Comunicação, Arte e Cultura, ouviram-se canções de Chico Buarque e do José Afonso contra a repressão política. Acudiu-me o chileno Victor Jara, designadamente as canções Te Recuerdo Amanda (1969) e El Derecho de Vivir en Paz (1971). Como Victor Jara lembra Victor Jara, acrescento a canção Manifesto (1974). Após o golpe militar dirigido por Augusto Pinochet, Victor Jara foi preso, esmagaram-lhe as mãos com coronhadas e, no dia 16 de Setembro de 1973, foi executado no estádio de Chile, em Santiago. O seu corpo, com 44 marcas de bala, foi abandonado num matagal.

Conheci a obra de Victor Jara há mais de quarenta anos. Directamente ou através da voz de Violeta Parra e Joan Baez. Continua a sensibilizar-me. Ainda conservo dois vinis do Victor Jara. Nesse tempo, acontecia-me pensar com o coração.

Anunciante: International Amnisty. Título: Universal Declaration of Human Rights. Agência: Eallin. Direcção: Mustashrik. Reino Unido, Dezembro 2017.

Victor Jara. Te Recuerdo Amanda. Pongo en Tus Manos Abiertas. 1969.

Victor Jara. El Derecho de Vivir en Paz. El Derecho de Vivir en Paz. 1971.

Victor Jara. Manifiesto. Manifiesto. 1974.

Não lutem pela escravidão

O anúncio Restart Your Speech, da Amnistia Internacional Portugal, estreou há dias. A paródia, o pastiche e a bricolagem são bons recursos de humor. Neste caso, não nos deixam indiferentes, mas também não nos dão vontade de rir.

Man Ray (1890-1976) - 1936 Dora Maar

Man Ray (1890-1976). Dora Maar. 1936.

“Numa altura em que os discursos de ódio, de medo e de divisão ganham dimensão um pouco por todo o mundo, a Amnistia Internacional Portugal propõe aos líderes mundiais e aos cidadãos comuns que se unam a uma só voz, hoje, amanhã e todos os dias por mais amor e por menos ódio. / “Não lutem pela escravidão. Lutem pela liberdade. Vocês, as pessoas, têm o poder. O poder de criar felicidade. Vocês, as pessoas, têm o poder de fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Vamos usar esse poder. Vamos todos unirmo-nos” / São estas as icónicas palavras de Charlie Chaplin no filme “O Grande Ditador”, de 1940” (Amnistia Internacional Portugal).

Anunciante: Amnistia Internacional Portugal. Título: Restart Your Speech. Agência: Havas Lisboa. Produção: Krypton. Portugal, Abril 2017.

Lembrar faz bem à memória

Na adolescência, quando estava a ler um livro e encontrava coisas que já sabia, ficava contente. Era sinal que já sabia. Hoje, quando leio um livro e encontro coisas que já sei, fico descontente. É sinal que não estou a aprender (Albertino Gonçalves).

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George Grosz. I was always present. 1942.

A vaga terrorista actual parece sem precedentes. Mas tem precedentes. O artigo O ataque terrorista mais mortífero em Paris desde 1944, da RTP, de 07 de Janeiro de 2015, tem o condão de refrescar a memória no que respeita à França: Desde a Segunda Guerra Mundial, Paris nunca deixou de ser alvo de atentados mortíferos por parte de grupos terroristas nacionais e internacionais. Residi em Paris nos anos setenta. Uma cidade sob ameaça terrorista. Os alertas e as evacuações eram constantes.

Otto Dix. Feridos de Guerra. 1922

Otto Dix. Ferido de Guerra. 1922.

Nos anos setenta, vários países debateram-se com a actividade de grupos terroristas internos: o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, país palco do massacre de Munique de 1972; a ETA na Espanha (mais de mil pessoas mortas); as Brigate Rosse na Itália (recorde-se o assassinato de Aldo Moro) e o IRA no Reino Unido (acima de 3 500 mortes). Em Portugal, houve vítimas, não sei se houve autores. É verdade que, hoje, temos estados terroristas, mas nos anos setenta existiam estados que apoiavam declaradamente o terrorismo, por exemplo, a Líbia. Recorrendo a um pleonasmo, o terrorismo é aterrador e alcançou uma dimensão inédita. Mas não nasceu ontem. Com a História, nunca estamos sós. Nestes tempos orgulhosamente únicos, um pouco de História é um consolo.

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Max Beckmann. The Night. 1918-19.

Alguns autores marxistas, tais como Lukacs, Goldmann, Gabel ou Kosik, criticam a atrofia da consciência histórica. A falta de horizontes históricos conduz, segundo eles, a uma espacialização do pensamento, a uma reificação. Em termos mais simples, a um empobrecimento do espírito e da realidade.

Modern Monsters, da Amnesty International, é um excelente anúncio português, premiado no estrangeiro. Normalmente, o texto vem a propósito do vídeo. Neste artigo, o vídeo e as imagens colam-se, tenebrosas, ao texto. Nada condiz com nada. É uma extravagância.

Anunciante: Amnesty International. Título: Modern Monsters. Agência: W Portugal. Portugal, 2007.

O capital apostólico

Coke unlabeled cans comboNo que respeita à publicidade, a Coca-Cola costuma esmerar-se. A campanha da Coca-Cola Middle East não desmerece. Somos filhos de Maio e herdeiros dos profetas. Abraçamos causas. Para a Coca-Cola, é ponto assente. Os anúncios de consciência e salvação estão em voga. Tecnicamente apurados e subtilmente pedagógicos, ensinam-nos, por exemplo, que a visão é o sentido decisivo na discriminação. Apagam-se as luzes e logo se apagam o racismo, a xenofobia e o preconceito. Há quem discorde. Georg Simmel advoga que é o cheiro, e não a visão, “o sentido desagregador ou anti-social por excelência” (Georg Simmel, Sociologie des sens, 1912). Este anúncio da Coca-Cola é um filme. Um simulacro de uma performance, de uma experiência ou de um “apanhado”. “Labels and designs are only for cans not for people”. Dado o mote, estamos confrontados com um novo tipo de capital: o capital apostólico. Este tipo de anúncio é mais fácil de comentar do que de criticar. A empresa faz o que lhe interessa com os recursos de que dispõe. O anúncio surpreende, envolve e agrada. Não é sobranceiro, categórico, acusador, descompensador, nem previsível, como é o caso de parte da publicidade de sensibilização paga pelos contribuintes.

Marca: Coca-Cola Middle East. Título: Remove Labels this Ramadan.  Agência: Memac Ogilvy Dubai. Middle East, Julho 2016.

Aproveito para adicionar um anúncio que a Amnistia Internacional lançou há dias. Denuncia a violência policial no Brasil por altura dos Jogos Olímpicos.

Marca: Amnesty International. Título: The police are breaking records in Rio. Agência: Ogilvy & Matter (Amsterdam). Internacional, Julho de 2016.

Cravos

Change-this-world!-50-years-of-poster-for-Amnesty-International-1961-2011São cravos, Senhor, são cravos! Vermelhos. São cravos, Senhor, não são rosas. São cravos com espinhos. Recordo este anúncio dos 50 anos da Amnistia Internacional (2011) na véspera da comemoração dos 40 anos da revolução de Abril.

Anunciante: Amnesty International. Título: 50 years. Direcção: Carlos Lascano. Produção: Ealin Motion Art e Dreamlife Studio. 2011.

Yes We Can!

The Calling of Saint Matthew (1599–1600). San Luigi dei Francesi, Rome.

Caravaggio. A Vocação de São Mateus (1599–1600). São Luís dos Franceses, Roma.

O ser humano sonha a diferença, aspira imprimir a sua marca. Houve tempos em que a religião e a tragédia lhe proporcionavam uma vocação e um destino.

“Saindo, viu Jesus um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu” (Mateus 9:9).

Hoje, a religião e a tragédia desafiam-no a visar, para além da vocação e do destino, o improvável, senão o impossível. Obama, aos microfones, repete: “Yes We Can!” A Amnistia Internacional reforça: “You are powerfull”. Eis um apelo para os ouvidos do coração, porque “o coração tem suas razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).

Anunciante: Amnesty International. Título: You are powerful. Agência: Mother (London). Direcção: Kim Gerhig. UK, 2009.

Discriminação

Amnistia_Internacional PortugalUma amiga enviou-me este anúncio, de 2007, contra a discriminação. Como é tradição na Amnistia Internacional Portugal a mensagem é clara, mas com um trago dúbio. Amor com amor se paga? Olho por olho, dente por dente? Ganhamos em ser simétricos em matéria de intolerância? Não se vislumbra, neste anúncio, uma réstia de abertura ao outro. Até a última porta se fecha! O simbólico nem sempre consegue suspender o lógico. E o lógico resume-se a quem com ferro mata com ferro morre. Falta um grão de inquietação, a inquietação desequilibrada da assimetria. A simetria é um estabilizador da ordem, da mais justa à mais injusta. Concluindo, não percebi bem!

Anunciante: Amnistia Internacional Portugal. Título: Contra a discriminação na Europa. Agência: McCann-Erickson. Direção: Pedro Amorim. Portugal, 2007.

 

O Dicionário da Liberdade

A Mafalda (publicada desde 1964) e o Gastão da Bronca (desde 1957) são duas figuras rebeldes e inconformadas da BD dos anos sessenta. Nos anos sessenta, nasceu também a Amnistia Internacional (1961). O Freedom Dictionary é uma iniciativa que a Amnistia Internacional Portugal acaba de lançar.

Mágoas mil

Em Portugal, têm-se produzido excelentes anúncios para a Amnistia Internacional. Este, Berçário, é um bom exemplo. Curto e acerta no alvo.

Anunciante: Amnesty International. Título: Berçário / Babies. Agência: Euro Rscg Lisbon. Copywriter: Rita Nunes. Direção criativa: Pedro Bexiga & Marcelo Lourenço. Portugal, Dezembro 2004.