Archive | Abril 2016

Toque humano

Nike. The ConductorEste anúncio principia com uma jogada de basquetebol. Pensei para com os meus botões: mais um anúncio à americana. É, contudo, um anúncio da Nike pela Wieden + Kennedy, uma das melhores agências do mundo. Continuei. Afinal, era um “anúncio à americana” com muita qualidade. Câmaras preguiçosas, luzes sensíveis e um coro de amor e ódio, na despedida de Kobe Bryant. Deve ser isto o human touch entre a marca e o público. O anúncio termina com o mote always love the hate. Mais uma provocação da Nike? Pelo sim, pelo não, vale a pena ler o Novo Testamento.

Marca: Nike. Título: The Conductor. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direcção: Mark Romanek. USA, Abril 2016.

Realidade virtual

8bar eagle woman

No anúncio australiano Eagle Woman, da 8 Bar, uma mulher voa como uma águia e levita como um santo. Sem levitação, o voo seria pesado. Por sinal, já conseguimos imitar o voo dos pássaros, por exemplo, com modalidades desportivas como a asa-delta ou o wingsuit.

Jean Duvignaud, Françoise Duvignaud e Jean-Pierre Corbeau recolheram milhares de relatos de sonhos. Muitos franceses sonham com voar, em particular os membros das novas classes médias (Duvignaud, Jean et alii, La banque des rêves, Paris, Payot, 1979).

Figura órgão de Tibães

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Não sou dado a profecias, mas, quando a poesia se alucina, não resisto. A realidade virtual apossar-se-à nos próximos tempos da rampa tecnológica. Com que impacto? Creio que antes do Juízo Final, mais do que a imersão num simulacro pré-fabricado, vamos aceder ao espectáculo da própria “alma”, desde a cave até ao sótão (Bachelard, Gaston, La Poétique de l’Espace, Paris, PUF, 1957) e do recalcado ao sublimado. Em suma, o inconsciente e o não-consciente. Todo o icebergue! Uma experiência “terrível”.

Figura órgão de Tibães 2

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Na sanefa das escadas de acesso ao coro alto do Mosteiro de Tibães, aguarda-nos a seguinte inscrição: “Terribilis este locus iste, vere, hic domus dei est, et porta coeli” (“Este lugar é terrível. Esta é a casa de Deus e a porta do céu”: Oliveira, Paulo, “O coro alto da igreja do mosteiro de Tibães”, Minia, nº13, IIIª série, 2014). Nem terríveis, nem extraordinários, eu e o Paulo Oliveira vamos dar uma aula aberta, com visita, no Mosteiro de Tibães,  subordinada ao tema O espaço fala – O Coro Alto e o Escadório das Virtudes do Mosteiro de Tibães. No âmbito do Programa Doutoral de Estudos Culturais, terá lugar no dia 26 de Abril, às 14:30. Apareça, será bem-vindo.

Marca: 8Bar. Título: Eagle Woman. Agência: DDN Melbourne. Direcção: Tim Bullock. Austrália, Março 2016.

Fumar é feio

Ricardo Marenco. 2009.

Ricardo Marenco. 2009.

As três parcas da higiene pública são o nojo, a culpa e a morte. Moram no jardim da publicidade degradante. Estes três anúncios, dois da Fundação Portuguesa de Cardiologia e o terceiro da Asociación Española Contra el Cancer, convocam o nojo, à boa  maneira dos anúncios anti tabaco do início dos anos 2000. Estes vídeos são difíceis de encontrar. Desconhece-se o motivo.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Modelos. Campanha”Fumar é feio, tu não comeces”, Central Models / Brandia Novodesign. Portugal, Setembro 2005.
Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Gémeos no campo. Campanha”Fumar é feio, tu não comeces”, Central Models / Brandia Novodesign. Portugal, Setembro 2005.
Anunciante: AECC. Título: Sneeze. Agência: Torrelazur McCann, Barcelona. Espanha, Julho. 2002.

Sociologia sem palavras 22. A técnica como ideologia

António Silva

António Silva

A Eduarda enviou-me, da terra do Spirou, um anúncio português, de 1939, à Água Castello, com António Silva. Muito falado, em tempos da rádio, e ao estilo dos documentários para as salas de cinema. Uma figura pública, António Silva a antecipar, como embaixador da marca, George Clooney. A higiene da técnica e a técnica da qualidade. A ciência no seu apogeu ideológico. O anúncio abre e fecha como manda a arte. A Água Castello é única e inconfundível. É, também, pura, uma fonte de prazer, uma “delícia”. Em suma, um anúncio excelente.

Anúncio da Água Castello, de 1939, com António Silva. Portugal.

Caretas. O feio sedutor

Fula GrimacesTive vários blogues antes do Tendências do Imaginário. Alguns artigos merecem uma segunda oportunidade.

A “estética do feio” (Rosenkranz, Karl, 1853, Aesthetik des Hässlichen, Koenigsberg,  Gebrüder Bornträger) sempre tentou o Homem. O feio conquistou o seu lugar dentro e fora das igrejas e dos palácios (Eco, Umberto, 2007, História do Feio, Lisboa, Difel). O disforme, o aberrante e o grosseiro oferecem-se cada vez mais como um recurso da publicidade atual, como esteios de sedução que ajudam a vender bens e a congregar vontades. O anúncio do óleo Fula constitui um bom exemplo.

 

Anunciante: Fula. Título: Grimaces.  Agência: Mccann-Erickson, Lisboa. Director: Marco Espírito Santo. Portugal, Agosto 2010.

A ameaça intestinal

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia.  Trombetas

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia. Trombetas. httpapocalipsedepatmos.blogspot.pt201206o-setimo-selo-malinconia.html

Sabe que vai morrer? A publicidade votada ao bem público aplica-se a lembrar-lho. Morre-se de acidente cardiovascular ou rodoviário, de insuficiência renal ou hepática, de doença pulmonar crónica, de cancro na próstata, na mama, na pele, nos ovários, no pâncreas… e nos intestinos. O cancro do cólon sobressai entre os mais mortíferos. O nosso corpo é tão perfeito que podemos morrer por qualquer órgão. Pela Páscoa, sentimo-nos pecadores. Com a publicidade de consciencialização, sabemos que somos mortais. Só o medo é que não morre.

Le quatrième Ange sonne de la trompette (Apocalypse VIII), enluminure du Beatus de l'Escorial, vers 950-955.

O quarto anjo toca a trombetqa (Apocalipse 8), iluminura do Beatus de l’Escorial, ca. 950-955.

Neste anúncio da Felix Burda Foundation, um coro de crianças revela-se, de um modo tétrico, profeta da desgraça. Deve ser uma variante de angelismo apocalíptico. Soa estranho a palavra morte na boca de uma criança. Também soa estranha a devastação do mundo pelos sete anjos trombeteiros (Apocalipse 8). E se, em vez de sete anjos, tivermos um coro infantil com dezoito crianças num cenário de cemitério, com abutres a rondar o relógio e ninguém na plateia? Convenha-se que não é fácil conceber um anúncio em torno dos intestinos. Os intestinos localizam-se na zona dos infernos corporais, no epicentro do grotesco carnal.

 

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento, na Capela Sistina.

Michelangelo. Detalhe do Último Julgamento.

Com tanto medo da morte, ainda virá um dia em que desejaremos morrer sem o conseguir: “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles” (Apocalipse 9). Morra a morte, morra! Pim!

A Esmeralda Cristina enviou-me, da Alemanha ou do Brasil, este anúncio. Apesar de residir na Alemanha, é a orientanda com quem mais comunico. Fazemos imensos planos. Falho quase todos. Com paciência de Job, não leva a mal! Está a fazer uma tese, precisamente, sobre a publicidade de sensibilização. Seguem alguns excertos do seu comentário ao anúncio:

“Sensibilizar para a morte… Um anúncio alemão que tem como intenção chamar a atenção para o controlo regular dos intestinos como forma de precaver a morte. O texto cantado por crianças, o que demonstra um pouco de inocência, mas com palavras duras de crítica incipiente que afirmam que os adultos têm tempo para tudo, menos para controlar o corpo. O tempo passa…tic tac…tic tac… Tudo é feito menos o controlo do intestino, o que conduz a que de um dia para outro… tic tac ‘tu estás morto’! Com esta afirmação termina a canção e o spot publicitário. Mas será que as pessoas ficam a pensar em controlar o seu intestino ou será que pensam que podem morrer com algo no intestino? O medo também faz com que as pessoas fujam aos controles. Mas no subconsciente permanece o medo de morrer, o que pode levar o corpo à produção do que não quer… Assim o que produz este anúncio? medo? precaução? morte? ou felicidade? segurança? vida?” (Esmeralda Cristina).

Anunciante: Felix Burda Foundation. Título: The Children’s Song. Agência: Heimat, Berlin. Alemanha, Março 2016.

Grão a grão

Grão a grão, o blogue Tendências do Imaginário vai compondo as estatísticas. Pachorrento: cerca de trezentas visualizações por dia. Agora, soma 1820 artigos, 450 023 visualizações e 95 716 visitantes. Podia ser mais! Mas também podia ser menos. Consola-me o facto de um programa de televisão ter elogiado um blogue mais antigo por ter ultrapassado 100 000 visualizações. Em 2016, a distribuição das visualizações por país pouco se alterou. Subiram ligeiramente o Brasil (de 30% para 34%) e Portugal (de 23% para 27%).

Visualizações em Abril 2016

 

A escada para o céu

O Sonho de Jacob. Capela Palatina de Palermo. Itália. Meados do séc. XII.

O Sonho de Jacob. Capela Palatina de Palermo. Itália. Meados do séc. XII.

O anúncio Camionushka, da Ford Argentina, apresenta um, dois, três, quatro, cinco camiões, cinco camiões empilhados. Tudo igual ao mesmo em equilíbrio e movimento.

Camionushka me parece que tiene un humor justo y cuenta de manera casi literal el feauture del producto. Fue un enorme desafío poder hacerlo, con pruebas previas, cálculos, medidas, pesos, etc.” (Toni Waissman, direcção geral criativa, agência Blue Hive).

Camionushka nos cautivó desde un primer momento ya que lograba plasmar los 4 pilares de este producto: robustez, seguridad, tecnología y confort” (Juan Carlos Janocko, gerente de vendas e marketing dos camiões Ford).

Nada de valores pós-materialistas (Ronald Inglehart, The silent Revolution, 1977), nada de afrouxamentos líquidos (Zygmunt Bauman, Liquid Modernity, 2000). Nem sequer o Van Damme do anúncio aos camiões Volvo ou a respectiva paródia aérea com Chuck Norris.

Uma vez sobrepostos, estes camiões lembram uma escada, a escada do sonho de Jacob, em versão peso pesado.

Anunciante: Ford Argentina. Título: Camionushka. Agência: Blue Hive Argentina. Direcção: Roi Ricci. Argentina, Abril 2016.

Marca: Volvo. Título: The Epic Split Feat. Van Damme. Agência: Forsman & Bodenfors, Gottenburg. Suécia, 2013.

Paródia do anúncio da Volvo, com Chuck Norris. 2013.

Mesmidade epidémica

H&M Breckham. Lisboa

Mais um anúncio filmado em Portugal, desta feita em Lisboa. Da H&M, com a participação de David Beckham. Trata-se de uma mesmidade ao nível da roupa, a que nem sequer escapam os cães. Todos os protagonistas vestem e, por vezes, agem como Beckham. A cópia processa-se ao nível da aparência, do invólucro. A mesmidade resulta da imitação.

O anúncio World of Play, da LG, vai mais longe. A réplica e a multiplicação ocorrem ao nível dos próprios corpos. Todos os protagonistas são um clone de Jason Statham. Dezenas e dezenas, a braços com situações insólitas num mundo delirante.

Fredrik Bond dirigiu os dois anúncios.

Para a distopia da mesmidade, aponta a noção de reificação de Georgy Lukacs (História e Consciência de Classe, 1923), retomada pela Escola de Frankfurt e pelo marxismo romântico. Metropolis (1927), de Fritz Lang,  foca, ao nível do cinema, a humanidade perdida num mundo totalitário compassado por máquinas. Alguns quadros de René Magritte multiplicam figuras semelhantes e retratam a exiguidade identitária. Aldous Huxley escreve sobre a normalização mecânica da vida (O Admirável Mundo Novo, 1931). Oitenta anos depois, em pleno”admirável mundo da imagem”, a receada distopia parece transformar-se em aprazível utopia, se não em promessa a cumprir no presente. A moda e a publicidade, mas também a educação, o mercado, o trabalho, o lazer e o mundo digital caminham no fio da navalha. Complicado? Jacques Prévert ilustra.

Marca: H&M. Título: Everyone dresses like Beckham. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Fredrik Bond. Reino Unido, Fevereiro 2016.

Marca: LG. Título: World of Play. Agência: BBDO Chicago. Direcção: Fredrik Bond. USA, Abril 2016.

FAMILIALE

Prévert 2

Jacques Prévert


La mère fait du tricot
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu’est-ce qu’il fait le père ?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu’est-ce qu’il trouve le fils ?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père fait des affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle tricote
Le père continue il fait des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
Le père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre les affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimetière.

Jacques Prévert, Paroles. 1945.

Caras risonhas

Rare Earth - Ma - FrontEm 1976, vim a Portugal levantar certificados no Liceu Sá de Miranda para me matricular na Sorbonne. Eu e o John decidimos contar estrelas. No Campo da Vinha, um ramalhete de meninas de uma excursão lisboeta não queria nem hotel, nem passar a noite no autocarro. Fomos para uma discoteca perto do Hotel Turismo e do Sabiá. O DJ enfrascou-nos com a canção Smiling Faces (1973), dos Rare Earth, um grupo a pingar para o funk-rock, de Detroit, criado em 1968. Foi uma estada curta, mas atribulada. De regresso a França, vi-me forçado a passar a fronteira a salto por falta de autorização militar.

Rare Earth. Smiling Faces. Álbum Ma. 1973.