Archive | Março 2016

Sexualidades 2

Com a aproximação da Primavera, tudo desperta. Até a sexualidade. Sabia que andar num Audi A1 é algo como fazer amor? “Llamémoslo amor” confirma o anúncio: Audi A1, o carro do amor, parado ou em movimento. Uma bela colagem: sexo e máquina.

devendra-banhart

Devendra Banhart.

A música é do norte-americano Devendra Banhart, um compositor e intérprete sui generis. Acrescento uma segunda música bastante antiga: Inaniel, do álbum Cripple Crow (2005).

Marca: Audi A1. Título: Amor. Agência: DDB España. Direcção: David Vergés. Espanha, Fevereiro 2016.

Devendra Banhart. Inaniel. Cripple Crow. 2005.

Sexualidades 1

McDonalds

Como o mundo “pula e avança”! Um jovem “sai do armário” e assume a homossexualidade perante o pai. Trata-se de um anúncio da McDonald’s, de Taiwan. Disse “sai do armário”? Uma tradução literal do inglês… As traduções literais para o português são uma epidemia, uma incontinência linguística. Um destes dias, falamos inglês, falando português.

Marca: McDonald’s. Título: acceptance. Agência: Leo Burnett Taipei. Taiwan, Março 2016.

Oxalá e Nanã

“Por conta das velhas de terracota e da morte grávida: Imagem de Oxalá e de Nanã”

Gosto do comentário de Ana Rita Ferraz ao artigo O riso da velha Grávida. Ana Rita é professora na Universidade Federal de Feira de Santana – UEFS, actriz e dramaturga. Trocamos ideias em torno do grotesco.

Ana Rita Ferraz chama a atenção para uma crença corporizada em rituais afro-brasileiros:
“Conta-se que Olorum, o criador, chamou Oxalá e lhe deu uma tarefa: deveria criar a humanidade. Oxalá coçou a cabeça pois não sabia como fazer. Então, pegou o vento e começou a trabalhar nele tentando uma forma; em vão. Com o fogo também não teve sucesso. Tão pouco com as águas. Já estava desanimado quando Icu, também conhecida como Nanã, a morte, senhora que vive nas águas lamacentas, perguntou-lhe porque não fazia os seres encomendados de lama. Oxalá aceitou. Nanã desceu lá no fundo das águas e lhe trouxe um punhado de lama. Sentaram-se e começaram a esculpir criaturas. Assim foi que Oxalá, o que é pai, e Nanã deram por cumprida a tarefa dada por Olorum.
Este é um mito africano. Nanã, ou Icu, é representada com gravetos no colo, que simbolizam seus filhos. Acho lindo pensar que temos como mãe a morte.
Veja a canção CORDEIRO DE NANÃ , quase um acalanto” (Ana Rita Ferraz).

Mateus Aleluia e Thalma de Freitas – Cordeiro de Nanã | Compacto Petrobras.

“Como oxalá é pai, aqui em Salvador, não apenas o povo das religiões de matriz africana, costuma vestir roupas brancas, especialmente às sextas-feiras” (Ana Rita Ferraz). Segue um vídeo sobre o culto a Oxalá. Para terminar, a música Meu Pai Oxalá, interpretada pela banda Moinho, da autoria de Vinicius de Moraes e Toquinho, mas inspirada no candomblé.

 

O riso da velha grávida

01. Mulher grávida Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre

01. Mulher grávida. Terracota de Kertch – Crimeia. Séc. IV a.C., Museu do Louvre.

“Entre as célebres figuras de terracota de Kertch, que se conservam no Museu L’Ermitage de Leningrado, destacam-se velhas grávidas cuja velhice e gravidez são grotescamente sublinhadas. Lembremos ainda que, além disso, essas velhas grávidas riem. Trata-se de um tipo de grotesco muito característico e expressivo, um grotesco ambivalente: É a morte prenhe, a morte que dá à luz” (Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, São Paulo, HUCITEC, 1987, pp. 22-23).

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

02. Hieronymus Bosch. A Tentação de Santo Antão (triptico). Pormenor do painel central.1505-1506.

Só de imaginá-las, estas figuras de terracota cativam. Há anos que as procuro. Resignei-me a substituí-las pela velha com um bebé enfaixado, da Tentação de Santo Antão (1506), de Hieronymus Bosch, e pelas  imagens da morte com o bebé ao colo (ver James Ensor, Morte com bebé ao colo). Alguns estudos sobre Bakhtin sinalizam uma estatueta de terracota (figura 1) que condiz com a descrição: uma mulher, aparentemente, idosa e grávida (ver, por exemplo, Vanessa Tarantini, O corpo grotesco). A estatueta provém de Kertch, contanto se encontre no Museu do Louvre e não no Museu L’Ermitage. Confesso que tenho visto e revisto esta idosa grávida, mas ela teima em não se rir. Tão pouco chora.

03. Figura de Terracota sentada numa cadeira. Boeotia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

03. Figura de Terracota. Mulher sentada numa cadeira. Beócia, Grécia, c. 300 a.C. British Museum.

Está tudo na Internet? Quando o objetivo é específico, o que mais se encontra é lixo. Explorar na Internet é cada vez mais navegar numa lixeira. Parafraseando Malthus, se o crescimento da informação é geométrico, o crescimento do lixo é exponencial. De qualquer modo, quem muito procura quase alcança. “Descobri” uma estatueta com uma mulher sentada: idosa, obesa e, com boa vontade, grávida e risonha. Condiz com as figuras de terracota de Mikhail Bakhtin. Até na data (três séculos a.C.). Só não foi produzida em Kertch, na Crimeia, mas, perto, na Beócia. Também não está no L’Ermitage, mas no British Museum (figura 3).

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

04. Figura de terracota de uma velha ama com um bebé. Beócia. Grécia. Cerca de 330-300 a.C. British Museum.

Outras estatuetas de terracota avizinham-se das figuras convocadas por Mikhail Bakhtin. Falta-lhes, porém, um ou outro atributo: a idade, a gravidez ou o riso (ver galeria). Destaco, mesmo assim, uma imagem: uma velha risonha sentada com um bebé ao colo, da mesma época, mas da Beócia (figura 4). Tal como a mulher do British Museum (figura 3), esta figura está repleta de pregas e dobras: dobras de sombra, do tempo, do movimento e da aproximação dos contrários. A velha ri enquanto cuida do bebé. Não está grávida, mas sustenta o crescimento. Não é “a morte prenhe, a morte que dá à luz”, mas um atalho no ciclo da vida e da morte, um laço entre a velhice, próxima da morte, e a infância, no início da vida. O mundo dobra-se e os extremos confrontam-se.

Galeria de imagens

Tentação

Sprite Ambition

“Um hoje vale por dois amanhãs, e mais, se tiver algo para fazer amanhã, faça hoje” (Benjamin Franklin, The Way to Wealth, 1757).

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1917-18.

Gustav Klimt. Adão e Eva. 1918.

“Lembre-se que o tempo é dinheiro (…) Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco shillings circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras”.

(Benjamin Franklin, Advice to a Young Tradesman, 1748).

O anúncio Ambition, da Sprite, tem dois protagonistas. Um, velho, parece uma reencarnação de Benjamin Franklin; o outro, jovem, lembra Eva a colher uma garrafa da árvore do prazer. Qual vai ser o destino da bebida?

Entre o dever calculista, moderno, e o prazer imediatista, pós-moderno, qual dos dois vingará? O prazer, que não dá ouvidos ao dever.

Gosto! Gosto de anúncios que nos distraem da catequese do bem e do sucesso.

Marca: Sprite. Título: Ambition. Agência: Hello. Direcção: Perlorian Brothers. Uruguai, Novembro 2015.

Excelência

nike

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais” (Público, 11.03.2016).

“Para já, o que se fica a saber é que, em 19 áreas clínicas, foram apresentadas 134 candidaturas e seleccionadas 74 (que na realidade correspondem a  82 instituições, se considerarmos todos os serviços, uma vez que há centros que vão funcionar em consórcio, o que é novidade em Portugal). Os que não foram escolhidos não serão prejudicados, porque continuam a fazer o que faziam. “Isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”, sublinha Alexandre Diniz, da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e membro da comissão de peritos que escolheu as unidades” (Público, 11.03.2016).

Sobressalto de espanto e júbilo: “Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”! Na ciência, também existem muitos centros de excelência. E mais que excelentes! Pontos de referência. Para quem? Lembro-me de uns rectângulos avermelhados que, molhados, eram pontos de referência para as moscas.

Os centros “que não foram escolhidos (…) continuam a fazer o que faziam”. Precise-se que “isto não serviu para seleccionar centros especializados, mas sim centros altamente especializados”. A avaliação esmera-se. Mais um caso nacional em que a avaliação se faz para avaliar e, por contágio, descriminar. Consequências? O arrasto do costume.

“O que muda para os doentes? Por enquanto, não haverá grandes alterações, porque para que um paciente seja tratado num destes centros precisa primeiro de ser encaminhado pelo seu clínico assistente” (Público, 11.03.2016).

Resta uma postura nacional com tradição excelente e, por sinal, de referência: esperar! Pela centelha da predição criadora do oráculo burocrático. Entretanto, vou deslocar-me para Lisboa, Porto ou Coimbra. Cidades onde a gente é gente, com centros de excelência e pontos de referência. Quanto ao clínico, mais do que um médico, espero que seja bom encaminhador e, caso disso, bom alavancador.

Sculpture of a theater mask dating from the Hellenistic. National Archaeological Museum in Athens.

Boquiaberto. Escultura de uma máscara de teatro do período helenístico. Museu Arqueológico Nacional. Atenas.

As palavras têm altos e baixos. Ora estão na mó de cima, ora estão na mó de baixo. Excelência e referência são palavras em que as burocracias europeias apostam. Pouco importa se os ventos são atlânticos ou nórdicos, estas duas palavras incham que nem sapos com um cigarro na boca. Como nos vasos comunicantes, outras palavras esvaziam-se. Por exemplo, a palavra “elite”, penalizada pelo lastro histórico. Ressalve-se, porém, que não é por uma burocracia integrar uma sociedade democrática que ela é democrática. As burocracias não são democráticas!

“Portugal já tem oitenta e dois centros de referência nos hospitais”. Já? Nem sei o que pensar.Tanta excelência deve ser excelente!

Desta vez, não comento o anúncio. O anúncio ilustra, como contraponto de referência, o comentário.

Marca: Nike. Título: Jogger. Agência: Wieden+Kennedy Portland. Direcção: Lance Acord. USA, 2012.

Bananas

Oxfam. Let's Make Fruit Fair

Um anúncio simples, muito simples, assente numa ideia simples, muito simples, mais simples do que o ovo de Colombo. O comércio injusto funciona como um garrote para os produtores de fruta. As bananas sugerem o garrote.

Por falar em garrote, em 1974, em Espanha,  ainda houve execuções com recurso ao garrote. Foi um escândalo internacional. Recordo ter desenhado, a pontilhado, uma caricatura com o Franco numa cadeira de rodas a apertar o garrote.

Por falar em bananas, não convém esquecer a famosa saia de bananas da dançarina e actriz Josephine Baker. Tal como no anúncio, trata-se de uma adaptação/deslocação das bananas.

Anunciante: Oxfam International. Título: Let’ Make Fruit Fair- Now! Agência: M&C Saatchi Berlin. Direcção: Eric van den Hoonaard. Alemanha, 2015.

Josephine Baker. Dança das Bananas. Follies Bergères. 1927.

Não há dois sem três! Se bananas lembram bananas, então também lembram uma banana: a banana dos Velvet Underground e do Andy Wahrol.

Velvet Underground. Femme Fatale. Velvet Underground. 1967. Com capa e produção de Andy Wahrol.

Adónis e o “Pensador de Cernavoda”

Monumento funerário. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Monumento funerário. A Morte de Adónis. 250 a 100 ac. Museu Gregoriano Etrusco (Vaticano).

Afrodite apaixona-se por Adónis ainda este era criança. Guarda-o num cofre que entrega a Perséfone, que também se apaixona pelo belo Adónis. Ambas as deusas reclamam Adónis. Zeus, chamado a pronunciar-se, é salomónico. Divide o ano em três partes iguais: durante os meses de inverno em que as sementes estão soterradas, Adónis vive no inferno com Perséfone; na primavera, quando as sementes germinam, Adónis vive com Afrodite; Os quatro meses restantes ficam à escolha de Adónis, que opta por Afrodite. Adónis é o deus da morte e da ressurreição, um deus ctónico, associado à vegetação. Durante a sua estadia no inferno, a terra é estéril. A partir da Primavera, a terra torna-se fértil. Há seis mil anos, o “pensador de Cernavoda” já devia reflectir sobre as facetas do tempo cíclico. A vida enterra a vida, a morte dá à luz a vida. Sem tréguas, nem dramas. Uma tragédia.

O Pensador de Cernavoda, 5000-4500 ac. Balcãs

O Pensador de Cernavoda, 5000-4500 ac. Balcãs.

Auguste Rodin. O Pensador.  1902.

Auguste Rodin. O Pensador. 1902.

Afrodite fotógrafa

A rir e rir, que seja de coisas sérias!

01. Hermafrodita. Musée National Romain (Palazzo Massimo).  Rome.

Hermafrodita. Musée National Romain (Palazzo Massimo). Rome.

No filme Veridiana (1961), de Luis Buñuel, os mendigos aproveitam a saída dos proprietários para promover um banquete. A um dado momento, surge a ideia de tirar uma fotografia. Uma mulher levanta a saia e a “fotografia” acontece (ver A ceia dos pobres).

08. Isis-Afrodite ou estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Terracota pintada, 330-30 ac.

Isis-Afrodite ou estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Terracota pintada, 330-30 ac.

Afrodite, deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade, presta-se à nudez. Ora é representada vestida (Figura 02), ora nua (Figuras 3, 4 e 5), ora nua da cintura para cima (Figura 6), ora nua do umbigo para baixo (Figura 7 a 9). As últimas lembram a máquina fotográfica de Luis Buñuel.

Todas as esculturas selecionadas dizem respeito à grega Afrodite ou à egípcia Ísis. Apenas uma dúvida quanto à Figura 08, por vezes identificada como uma estatueta funerária de uma cortesã sagrada. Nesses termos, de tão parecidas, as estatuetas das figuras 7 e 9 seriam, também, de cortesãs sagradas.

12. Hermafrodita. Império romano. 27 ac-476 dc. Museu do louvre.

Hermafrodita. Império romano. 27 ac-476 dc. Museu do Louvre.

Nesta lógica, algumas esculturas de Hermafrodita (Figuras 10 a 12), quase cópias das estátuas de Afrodite “fotógrafa”, corresponderiam a filhas bonificadas da relação de uma cortesã sagrada com um satélite canadiano. A afinidade entre as figuras de Afrodite e de seu filho Hermafrodita é impressionante. Distinguem-se apenas pela máquina fotográfica.

Por falar em filhos de Afrodite, Aphrodite’s Child era o nome de uma banda grega de rock progressivo criada nos anos sessenta. Esteve sediada na Grécia e na Inglaterra, mas onde colheu mais sucesso foi em França. Na banda, tocavam dois primos: nas teclas, Vangelis, e à guitarra baixo e voz, Demis Roussos. Para que conste, Rain and Tears (1969):

Galeria de imagens

Embalagem fálica

 

PerrierA Perrier tem marcado a história da publicidade. Recorde-se, por exemplo, La Femme et le Lyon (1990), La Fête (1997), Le Train (2003), Melting (2009) e The Drop (2012). Bouteille Phallique, de 1976, tornou-se um clássico. O conceito é simples: uma garrafa e uma mão feminina; a garrafa cresce à medida que é acariciada, culminando a acção num jorro da água mineral. A garrafa é, naturalmente, associada a um falo e o jorro de água, a um orgasmo (ver A mulher, o homem e o objecto). A Perrier recorreu, várias vezes, a este conceito. No anúncio Une Nouvelle Forme de Plaisir, de 2014, a marca retoma, volvidos quarenta anos, a associação entre recipiente e falo, água e satisfação, jorro e orgasmo. Algumas imagens são, aliás, citações do anúncio de 1976. Mas os dois anúncios são distintos. A simplicidade deu lugar à exuberância. A câmara, inquieta, salta de personagem em personagem, captando confissões, subentendidos e mal-entendidos alusivos ao sexo, ao falo e ao prazer.

Este anúncio foi muito criticado. Porquê? Problema de conteúdo ou de forma? Uma questão de estética? A estética pode funcionar como bálsamo e cosmético? A mudança de focagem do sentido da visão para o ouvido é tão decisiva quanto se estima? Uma série de falas curtas compõem uma variação ou uma cacofonia? Quarenta anos é muito tempo, mudou a nossa tolerância face à expressão da sexualidade? Ou será que a expressão da sexualidade se vulgarizou até aborrecer?

Marca: Perrier. Título: Une nouvelle forme de plaisir. Agência: Ogilvy. França, 2014.