Archive | Novembro 2015

Figuras Remojadas Sorridentes

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

“A serendipidade remete para o facto bastante frequente de se observar um dado inesperado, insólito e decisivo que dá azo ao desenvolvimento de uma nova teoria ou ao alargamento de uma teoria existente” (Merton, Robert K., 1965, Elements de Théorie et de Méthode Sociologique, Paris, G. Monfort, p. 47).

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Há quem encontre o que procura, com protocolos de investigação. O método indica o caminho. Há, também, quem descubra caminhando. Uns, clássicos, desfiam uma realidade complexa. Outros, barrocos, constroem a realidade a partir de singularidades imprevistas.

No livro dedicado a François Rabelais, Mikhail Bakhtin refere-se a umas figuras de terracota com velhas risonhas. Tenho procurado estas imagens em vão. Encontrei, em contrapartida, sem qualquer guia, estas figuras cerâmicas sorridentes da cultura Remojadas (Vera Cruz, México) dos séculos VII e VIII. Para quem aprecie o grotesco, este achado representa um filão.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

Figura sorridente. Cultura Remojadas. Vera Cruz. México. Secs. VII-VIII.

“The so-called Smiling Figures from the Remojadas region of Veracruz are often regarded as expressions of Mesoamerican humor. These hollow ceramic sculptures are thought by many to be associated with a god of dance, music, and joy. Another compelling interpretation, however, relates them to a cult of pulque, an intoxicating beverage made from the fermented sap of the maguey plant. The animated faces, puffy cheeks, and swollen protruding tongues are regarded as evidence of intoxication. The figures may depict ritual participants, or even sacrificial victims. The survival of many more smiling Remojadas heads than bodies suggest to some a possible ceremonial decapitation and destruction of the bodies. This bare-chested figure, with open mouth and filed teeth, stands energetically with legs spread and arms lifted as if caught in mid-motion. The garb of this celebrant consists of circular earrings, a beaded necklace and bracelet along with a loincloth decorated with laterally symmetrical patterns. On his cap are ollin symbols, a sign for motion. This sculpture evokes a festive dance or ritual accompanied by the rhythmic reverberation of the hand-held rattle and celebratory sound escaping from the figure’s open mouth” (The Metropolitan Museum of Art: http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/1979.206.1211).

Turbulência universitária

“Demasiado repouso entorpece-nos. Demasiado tumulto atordoa-nos. Demasiado frio gera indolência. Demasiada actividade, turbulência (Charles-François Panard, 1689-1765)

Melbourne UniversityGosto deste anúncio da Universidade de Melbourne (Austrália). Gosto da composição de corpos humanos, nada rara mas sempre única. Gosto do pormenor da caveira a lembrar Salvador Dali. Gosto da turbulência onde bebe a seiva da criatividade. Até parece que na Universidade de Melboune não se embalsamam os sábios em túmulos de burocracia. Gosto do cruzamento entre o choque de ideias e o choque de pessoas. Gosto da afirmação do vice-reitor da Universidade de Melbourne: “beyond science, important youthful intellectual movements have come from the humanities” (não traduzo porque em inglês vale a dobrar). Desengane-se quem mal pensou: a Universidade de Melbourne, 33ª no World University Rankings Elsevier, contempla todas as áreas científicas (http://coursesearch.unimelb.edu.au/grad).

Beyond science, important youthful intellectual movements have come from the humanities: the Romantic Movement from 1800 to 1850; the Bloomsbury Set of writers, intellectuals, philosophers and artists such as Virginia Woolf, John Maynard Keynes and E. M. Forster; the Great War poets. These young, brilliant, ambitious people were thrown together at university but carried on their conversations after graduation. They changed the way we view poetry, literature, art, economics and war. It’s barely possible to think about the most momentous issues facing us today without at least subconscious reference to the intellectual frames they constructed – especially in a world of threatened freedoms, economic uncertainty and military conflict. (A Message from the Vice Chancelor of the University of Melbourne: http://collision.unimelb.edu.au/#layer-vc-message).

Marca: University of Melbourne. Título: Where great minds collide. Agência: McCann Australia. Direcção: Mark Daly. Austrália, Setembro 2015.

A electricidade das plantas

UTEC logoDou, por deformação profissional, alguma atenção aos anúncios promovidos pelas universidades. A UTEC, Universidade de Ingeniería & Tecnología, do Perú, iniciou a disseminação de uma nova forma de produção de energia eléctrica mediante recurso à fotossíntese das plantas. Num país com cobertura eléctrica insuficiente, como é o caso do Perú, a “plantalámpara” é uma bênção. O anúncio mostra, até certo ponto, como se faz e como se usa. Falta saber quanto custa. Na Holanda, uma empresa associada à Universidade de Wageningen trabalha no mesmo sentido (http://www.semprequestione.com/2015/06/empresa-colhe-eletricidade-partir-de-plantas.html#.VjjqcbfhCHt).

Marca: UTEC, Universidad de Ingeniería & Tecnología. Título: Plantalámparas. Agência: FCB Mayo. Direcção: Antonio Sarria. Perú, Outubro 2015.

Calças de perder a cabeça

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Ave Maria por Ave Maria, este anúncio optou por a de Franz Schubert, originalmente intitulada Ellens dritter Gesang (1825).

As calças Replay Hyperskin são tão flexíveis e tão leves que nem dá para sentir.

Se se cruzar com um par de calças Replay, olhe sem ver, imagine o nu e esqueça as calças, não vá perder, com o espanto, a cabeça, que tão mau aparafusada anda.

Permitam-me acrescentar um intérprete, eventualmente inesperado, da Ave Maria de Schubert: Nina Hagen, considerada por muitos a “Rainha do Punk”: Ave Maria, Nina Hagen (1989).

Marca: Replay Hyperskin. Título: A New Dimension in Denim Experience. Agência: 180 Amsterdam. Direcção: Tell no one. Holanda, Outubro 2015.

A morte à flor da pele

01. Nuremberg chronicles - Dance of Death. 1493

01. Nuremberg chronicles – Dance of Death. 1493

“[Os jovens que fazem piercings e tatuagens] procuram “autonomizar-se” do olhar dos pais. Têm o sentimento de não ser eles próprios, mas uma espécie de bem que pertence aos pais. Daqui esta frase repetida inúmeras vezes: “Eu reapropriei-me do meu corpo”, como se o corpo lhes tivesse sido roubado a um ou outro momento. Ao nível simbólico, o facto de fazer uma tatuagem ou um piercing é uma maneira, para o jovem, de assinar o seu corpo, uma maneira de dizer que é só dele” (David Le Breton, “Les jeunes prennent leur autonomie par le piercing”, jornal Le Monde, 25 de Março de 2004).

02. Work in progress. Danse Macabre by Cash at Addicted to Ink in White Plains, NY.

02. Danse Macabre by Cash at Addicted to Ink in White Plains, NY.

Há três fenómenos culturais que vieram ao arrepio das minhas expectativas teóricas. As tatuagens, os piercings e a moda da barba apanharam-me desprevenido. Centram-se no corpo: marcam-no e demarcam-no, mas não para o polir ou isolar. Configuram “sinais de identidade”, introduzindo uma nova modalidade de semiose social.

03. Guy Marchand. Danse Macabre, 1846.

03. Guy Marchand. Danse Macabre, 1486.

Seleccionei cinco tatuagens, góticas, alusivas à morte. As duas primeiras copiam, literalmente, as danças macabras do séc. XV.

04. Dança macabra e memento, mori, por Stigmatattoo.

04. Dança macabra e memento mori, por Stigmatattoo.

A terceira, lembra, no traço, A Noiva-cadáver de Tim Burton e, na postura, o Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro.

05. Tatuagem gótica.

05. Tatuagem gótica.

Na quarta, a caveira aparece tatuada na parte do corpo mais apropriada: a cabeça.

06. Jeremy Woodhouse. Holly Wilmeth

06. Jeremy Woodhouse. Holly Wilmeth

A quinta tatuagem apresenta um espelho da morte, tema recorrente nas imagens medievais e barrocas (Michel Vovelle, “A História dos homens no espelho da morte”, in Herman Braet & Wermer Verbeke (eds), A Morte na Idade Média, S. Paulo, Edusp, 1996, pp. 11-26). O corpo assume-se como suporte do espelho da morte.

07. Book of Hours ('The Hours of Dionara of Urbino'), central Italy (Florence or Mantua), c. 1480.

07. Book of Hours (‘The Hours of Dionara of Urbino’), central Italy (Florence or Mantua), c. 1480.

08. Skull Tattoos by Adem Senturk.

08. Skull Tattoos by Adem Senturk.

Por último, depois do espelho da morte, termino com a vanitas nos lábios de uma tatuagem. Original. Uma versão contemporânea do beijo da morte?

09. Hans Baldung Grien, La Mort et la Femme, 1517.

09. Hans Baldung Grien, La Mort et la Femme, 1517.

10. Gothic Kiss tattoo.

10. Gothic Kiss tattoo.

Um fim-de-semana bem preenchido. Gosto de jogar ténis de mesa com os meus rapazes. São os únicos que me aturam. Gosto, também, de jogar pingue-pongue com a história. Em momentos de lazer, é um prazer visitar a história como quem descasca castanhas. É um desporto que não emagrece. Dá a ver o presente sob outra luz: muita ganga e pouco minério.