Archive | Novembro 2015

Sou como sou, agrado a quem agrado

Klaus Nomi Anjo

O anúncio #yourrules, da House of Fraser, é uma dança de resistência coreografada por Parris Goebel. É, no entanto, a música, You Don’t Own Me, interpretada por Grace, que mais agita os neurónios. A canção original, de Leslie Gore (1964), foi retomada por vários cantores entre os quais Klaus Nomi (1981).

Para visualizar, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=4wwWEzwJ6Ps:
House of fraserMarca: House of Fraser. Título: #yourrules. Agência: 18 Feet & Rising. Reino Unido, Novembro 2015.

Para visionar, carregar na imagem ou no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=d-Yrg9xNSS0

KLAUS NOMI & JOEY ARIASKlaus Nomi. You Don’t Own Me. 1981

Duas gotas

Ford dos gotas

“Duas gotas iguais como duas gotas de água. A gravidade empurra-as para o vazio. Uma escolhe ser uma linha reta para chegar primeiro. A outra desvia-se para desenhar a mais perfeita das linhas. Duas gotas que nunca foram iguais como uma gota de água”.

“Kinetic Design, a nova corrente de desenho da Ford, desenha a linha dos seus automóveis a partir do movimento.”

A curva e o movimento, o traço do barroco na publicidade automóvel

Marca: Ford. Título: Dos gotas. Agência: JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2009.

Bataclan

Pormenor da fachada da sala de espetáculos Bataclan, em Paris

Pormenor da fachada da sala de espetáculos Bataclan, em Paris

Retomo um artigo, publicado na ComUM online , em 30 de Setembro de 2013 (http://www.comumonline.com/?p=116), com um trecho dedicado ao Bataclan, casa de espectáculos de Paris, em tempos frequentada por emigrantes portugueses.

“Caravanas

A noite passada, sexta 27, corria pelas ruas um buzinão danado. Celebração desportiva? Excesso da praxe universitária? Casamento de meia-noite? Não! Eram, em vésperas de eleições, as caravanas políticas, ajuntamento cuja aritmética me escapa: em fila sonora, parecem mais, logo são mais; se forem muitos, ainda mais serão… Qual é a fé que sustenta esta extravagante procissão motorizada? Congregar as hostes e chamar os indecisos? Jogar a última carta? A convicção de que ganha quem mais berra? Será um ritual premonitório do resultado eleitoral? Um ritual antecipatório em que armar, hoje, músculo garante, por magia, força amanhã? Uma simulação de vitória para atrair quem gosta de acertar no vencedor? Uma pulsão tribal na era da técnica? Seja qual for a razão, não deixa de ser comovedor ver tanto português a carburar tanto combustível.

No dia 25 de Abril de 1975, já lá vão quase quarenta anos, fiquei com o trauma das caravanas. Responsável de um partido político no concelho natal, surpreendeu-me a vitória, nacional e concelhia, nas eleições para a Assembleia Constituinte. Para comemorar, organizou-se, em jeito de ex-voto, uma caravana. Enorme! Um milagre de multiplicação de adeptos. A caravana dirigiu-se à fronteira. Passou pela alfândega e desceu a encosta rumo à rotunda e à ponte que separa os dois países. Aguardavam-nos, do lado espanhol, dezenas de soldados da guarda civil de metralhadora em riste. Ainda governava Franco. Nunca circundei uma rotunda sob tamanha tensão. Um arrepio de emoções no poço do inferno. A situação foi séria, nada de simulações ou hiper-realidades. Com 16 anos, viajava no carro da frente. Aquelas metralhadoras não esquecem; continuam apontadas à memória.

Bataclan. Paris

Bataclan. Paris

As caravanas lembram-me, por homofonia, a canção Caravan, dos Blur, bem como o grupo rock/jazz Caravan, criado em 1968. Por acaso, o vídeo dos Blur (https://www.youtube.com/watch?v=J8hG_CXvSjg) e o vídeo dos Caravan (https://www.youtube.com/watch?v=8dpNzczhW-w) partilham uma característica: ambos foram filmados, ao vivo, no Bataclan: os Blur, em 2003, e os Caravan, em 1973. O Bataclan, em Paris, não é uma casa de espetáculos qualquer: tem o selo de Portugal, a impressão digital de compatriotas de carne e osso. Ao domingo, o Bataclan era um dos principais pontos de confluência de jovens emigrantes portugueses. Acorriam de longe. O Vítor, por exemplo, vinha de Bordéus, cerca de 600 km sem TGV. Outros deslocavam-se da Bretanha ou da Lorena. Numa tarde, reunia-se uma dúzia de colegas de escola! Assim sucedia com os melgacenses, com os montalegrenses, com os pombalenses… Em Paris, os portugueses ocupavam, ao domingo, outros locais de dança: a sala Wagram, junto ao Arco de Triunfo, o Week-end, em Montparnasse, a “Mairie du XVI Arrondissement”, perto da Torre Eiffel. Estes jovens, arrancados da terra ainda verdes, não mereciam este país mendigo. Um colega de escola, companheiro, também, do Bataclan, regressou a Portugal, onde criou uma empresa, por sinal, de sucesso. Má sina, o negócio era na área da construção civil; com quase sessenta anos, voltou a emigrar, agora, para a Suíça. Este país depenado continua a dar-se ao luxo de dispensar pessoas trabalhadoras, empreendedoras e experientes, de que, se calhar, precisa mais do que imagina.”

Bolas

Bonds 2A roupa interior é um desafio para a publicidade, pela sobrecarga simbólica, sobretudo no caso dos homens. Existem formas de contornar este obstáculo: a estilização, o eufemismo, a metáfora, a metonímia, a alegoria, a animação, a personificação… Artes de dizer de outro modo, porventura mais eficiente, aquilo que não se quer dizer directamente. Neste anúncio, dois cestos pendurados, em forma de bola de futebol americano, albergam duas personagens “beckettianas” que só encontram alívio e conforto numas cuecas da marca Bonds.

Marca: Bonds. Título: The Boys – Part 1: Impact. Agência: Clemenger BBDO (Melbourne). Direcção: Tony Rogers. Austrália, Outubro 2015.

Gatos trajados

Gaston Lagaffe. Gato

O gato é esfíngico, não é? E tem botas para acelerar, não tem? Neste anúncio da Temptations, assistimos a um carnaval de gatos contrafeitos. É mais fácil empanturrar um gato com guloseimas do que “vesti-lo” a rigor. O gato do Gastão da Bronca confirma. A namorada fez as pantufas e o Gastão calçou o gato. O resultado foi um desastre.

Marca: Temptations. Título: Say Sorry for the Holidays. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Austen Humphries. Reino Unido, Novembro 2015.

De cabeça para baixo

Unicef

Este anúncio da Unicef, World Upside Down, propõe um diálogo dramático entre a segurança e o risco. O próximo, protegido, é catapultado para o lugar, exposto, do outro. Embalado pela voz de Antony (Soft Black Stars), o anúncio convoca realidades que, apesar de tudo, não nos são completamente estranhas. As cenas da linha de caminho-de-ferro lembram um print da Prada com uma criança sentada numa linha férrea desactivada (Prada, 2011). Foi censurado, no Reino Unido, devido a imagens eventualmente perigosas, “in a potentially hazardous situation”  (https://tendimag.com/2011/11/29/zelai-por-nos/). É certo que o teor do anúncio da Unicef é diferente: versa sobre riscos, que importa revelar. Não obstante, a “censura democrática” talvez não perdesse em ser menos categórica e mais ponderada. A censura não risca apenas uma obra, hipoteca o futuro, porventura a liberdade e a criatividade. Um anúncio censurado, como o print da Prada, aloja-se nos bastidores da memória, à espera de repisar o palco.

Anunciante: Unicef. Título: World Upside Down. Agência: Don’t Panic London. Direcção: Karen Kunningham. Reino Unido, Novembro 2015.

Almas danadas

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

Marten de Vos. Juízo Final. 1570. Pormenor.

Volta e meia, cruzo-me com autores maneiristas, de Agnolo Bronzino (1503-1572) a Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), passando por Francisco de Holanda (1517-1585) e Wenzel Jamnitzer (1507-1585).Calhou a vez a Marten de Vos (1532-1603), pintor de Antuérpia.

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

Marten de Vos. Juízo Final. 1570

O inferno do Juízo Final (1570), de Marten de Vos, é impressionante: fogo, demónios e condenados formam uma corrente rumo à boca do inferno. Os  corpos, com os seus movimentos, contorcem-se como labaredas. Trata-se de um fluxo onde não há parte sem todo. Este dinamismo lembra a queda no abismo, no inferno do Juízo Final (1467) de Hans Memling. (1430-1494).

Hans Memling, Juízo Final. Triptico. 1467-71

Hans Memling, Juízo Final, 1467-71

Marten de Vos, A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594)

Marten de Vos, A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594)

Reencontramos as figuras fantásticas, demoníacas e grotescas na Tentação de Santo Antão (1591-1594), que lembra, por sua vez, a Tentação de Santo Antão, quer de Hieronymus Bosch (1502), quer de Mathias Grunewald (1512-1516). Todos juntos lembram o surrealismo.

Hieronymus Bosch. Tentações de Santo Antão. 1502

Hieronymus Bosch. Tentações de Santo Antão. 1502

Matthias Grunewald. A Tentação de Santo Antão, c. 1512 - 16

Matthias Grunewald. A Tentação de Santo Antão, c. 1512 – 16

Para terminar, uma nota curiosa: o “dinossauro” pintado, antes da data, na parte inferior direita da Tentação de Santo Antão, de Marten de Vos. E Pronto! Quando a vista se regala, a língua cala.

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

Marten de Vos. A Tentação de Santo Antão, c. 1591-1594). Pormenor

O quinto cavaleiro do Apocalipse

anti smoking

Sábado, tenho uma comunicação em Coimbra sobre as danças da morte medievais e as imagens das embalagens de tabaco actuais. Percorri o ferro velho anti tabaco. Encontrei, entre outros, estes dois anúncios

Odeia alguém? Encoraje-o a fumar. Fumar mata! Aguente o fardo até que o fumo faça efeito. Qual é a moral?

Marca: The Anti Smoking Society. Título: Couple. Agência: Mountainview. Reino Unido, 2000.

Os fumadores caem aos molhos que nem tordos. Acidente? Predestinação? Justiça? Fumar mata. Avulso ou por atacado. Qual é a moral?

Marca: Smokenders. Título: Balcony. Agência: McCann Erickson Johannesburg. África do Sul, 2003.

O Homem na Lua

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Todos os anos, a John Lewis estreia um anúncio na quadra natalícia. É uma tradição. Fantásticos e ternurentos, os anúncios da John Lewis são contos infantis. Neste anúncio, uma menina, na terra, e um idoso, na lua, têm dificuldade em comunicar. Mas tudo se resolve… Um anúncio polémico, sobretudo, para quem gosta de interpretações literais. Por exemplo, como chegou o idoso à lua?

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

Roupa feliz

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A leveza é tão leve e o peso, tão pesado. Há balanças assim. Neste anúncio, várias celebridades, de Elton John a Naomi Campbell, saltam rumo às nuvens. Respiram leveza, alegria e jovialidade; três graças “abensonhadas” (Mia Couto). O vídeo raia a paródia, em movimento musicado, das fotografias da série jumpology de Philippe Halsman (vale a pena ver: https://tendimag.com/2012/02/09/celebridades-aos-saltos/).

Marca: Burberry. Título: Celebrating 15 years of Billy Elliot. Direcção: Christopher Bailey. Reino Unido, Novembro 2015.