Desta vez é diferente: o rei do carnaval
“Isto é um anúncio. Um anúncio tenta dizer-lhe o que fazer. Mas este anúncio quer que você nos diga o que fazer. Exerça esse poder. Escolha quem decide. Vote dia 25 de Maio. Eleições Europeias 25 de Maio de 2014”.
Que me lembre, os cidadãos votavam em quem os representasse: os deputados. Decidiam quem deveria representá-los; tinham o poder de lhes atribuir esse dever. Desta vez, nas próximas eleições europeias, o exercício do poder por parte do cidadão parece consistir em “escolher quem decide”. Vem tudo a dar ao mesmo? Em democracia, a semântica é matéria sensível. Escolher quem nos representa não é o mesmo que escolher quem decide. Entre ambos, insinua-se uma elipse política. Quanto a mim, não vou escolher nem quem me representa, nem quem decide, mas vou votar. “A experiência é a madre de todas as coisas” (Duarte Pacheco Pereira): tenho-me sentido pouco representado e não acredito deter o mínimo poder de escolher quem decide. Mesmo que a minha mesa de voto fosse em Munique…
Anunciante: Comissão Nacional de Eleições. Título: Desta vez é diferente. Agência: Ogilv&Mather. Portugal, Maio 2014.
O beijo da imagem
Lindo, o beijo da imagem.
Lindo, dois caracóis a fazer amor.
Lindo, uma mulher com treze braços a mostrar o caminho a um monge.
Lindo, um bando de demónios a banhar-se no rio.
Lindo, uma árvore de falos num convento.
Lindo, o heróico e minúsculo pecado.
Lindo, um bispo montado de costas a caminho da missa do burro.
Lindo, um porco a andar de bengala depois da festa do presunto.
Calemo-nos, pois! Para acolher o beijo da imagem. Calemo-nos, de preferência, em inglês, para melhor forma e maior efeito.
Espelho
“Chapéus há muitos, seu palerma!” (Vasco Santana, Pátio das Cantigas). Identidades, também! Fragmentadas, líquidas, múltiplas, híbridas, virtuais, camaleónicas… Neste anúncio francês, a identidade desafia o espelho. Não fosse a idade, seria mais um apontamento para a teoria do estádio do espelho.
Marca: Nestlé – Extrême. Título: Le reflet. Agência: JWT Paris. Direcção: Sébastien Grousset. França, Maio 2014.
Selfie desfocado
Eis o meu corpo! Eis a minha imagem! Tirada por mim, para comunhão digital. Não é alienação, é dádiva, subjectivamente autenticada. Não é selfish, é selfie. A onda selfie tem os seus pergaminhos. Alexandre o Grande foi o primeiro governante a estampar o seu rosto na moeda. Para seduzir todo o Império. Alguns dos selfies que piscam o olho na internet vão ser mais famosos do que os auto-retratos de Rembrandt ou de Van Gogh. Subsiste, no entanto, um risco. E se, devido à anunciada revolta dos objectos, o fundo da imagem ofusca a figura. Se os selfies emergentes forem do tipo: mobiliário de cozinha com figura desfocada ou despixelada em primeiro plano. É o que acontece no anúncio intitulado, precisamente, Selfie. Um dia, atardei-me a observar um lagarto. De repente, começa a andar à roda até que abocanha a própria cauda. Começa a morder. Tanto morde que só sobram os dentes. Se calhar, o lagarto fez um selfie réptil. Não é verdade que o selfie seja um modo de estar só no meio da multidão, para retomar a expressão de David Riesman. É apenas uma maneira de não estar acompanhado. O que não vai dar ao mesmo.
Marca: Leroy Merlin. Título: Selfie. Agência: BETC Paris. Direcção: Blacktool Brieuc Dupont & Clément Langlais. França, Maio 2014.
Selfie Mania
Na minha língua, Selfie é nome de animal. Selfie! Selfie! Selfie! Noutras línguas, pode significar uma travessia electrónica à volta do umbigo. O anúncio tailandês Selfie Mania navega nestas águas. Com humor oriental: pictórico, absurdo, insólito e, por vezes, sinistro. Em suma, grotesco.
Marca: Huawey. Título: Selfie Mania. Agência: Saatchi & Saatchi, Thailand. Direcção: Apiruk Pangseepirom. Tailândia, Maio 2014,
Às urnas, cidadãos!
Aproxima-se o dia de ir às urnas. Novos e velhos, semeamos a nossa cruz numa urna. Traçamos o destino com uma cruz numa urna. Estar admirado não é o mesmo que ser admirado. Se calhar, estar velho não é o mesmo que ser velho. Estou velho. Velhos, herdamos uma vida em que convém investir. Um jogador de futebol está “velho” aos 35 anos; um mineiro, aos 50; um professor universitário, aos 70; um político ou um patrão nunca estão velhos. Não têm prazo de validade.
Marca: Dagbladet. Título: O ministro. Agência: McCann Erickson. Direcção: Astrand/Reis. Noruega, 2001.
Temos que falar
Esta conversa entre um homem e um cão é uma ternura. Quem adopta quem? Nos tempos que correm, todos somos, mais ou menos, adoptados.
Tradução: “Sabes uma coisa? Tenho andado a dar muitas voltas à cabeça. A vida não é fácil. Tu já não és um cachorro e creio que tens que saber: és adoptado.
Anunciante: Pedigree. Título: Tenemos que hablar. Agência: BBDO México. Direcção: Rodrigo García. México, Maio 2014.
Pelos cabelos
Limamos o excesso e o insólito desde que nascemos. Mesmo assim, permanecemos estranhos, aos outros e a nós próprios. Este blogue não o esquece. A iniciativa da Casa de la Amistad para Niños con Cancer apresenta-se, à primeira vista, estranha. Se calhar, não o é. A ideia é genial: organizar um festival rock, o Hair Fest (México, 12 de Abril), com o objectivo de recolher cabelo destinado a perucas para crianças com cancro. Resultados: cabelo para 107 perucas, nove milhões de impactos nas redes sociais e mais de 500 000 dólares de publicidade gratuita! Foram ultrapassadas as expectativas mais optimistas. Pelos vistos, o Metal tem bom coração. E o marketing, os seus trunfos.
Anunciante: Casa de la Amistad. Título: The Hair Fest. Agência: Ogilvy & Mather México. Direcção: Hernán Almar. México, Maio de 2014.
















