O Riso na Pintura: Sécs. XV a XIX.
Na arte ocidental, o riso é um hóspede esporádico. É rara a figura que ri e, sobretudo, que gargalhe. Segundo os sábios sisudos, “o riso é a trombeta da loucura”, o oposto da razão: “Tenho a certeza que, desde que pude fazer pleno uso da minha razão, nunca mais ninguém me ouviu rir” (Philip Chesterfield, Letters to his Son. Letter XXXII, 1748). Como diz o provérbio, “muito riso, pouco siso”. Há, porém, quem, como Erasmo de Roterdão, partilhe uma visão positiva e corrosiva do riso: “Uma boa gargalhada é o melhor pesticida que existe” (Vladimir Nabokov, Strong Opinions, 1962, p. 53: http://pt.scribd.com/doc/163217619/Vladimir-Nabokov-Strong-Opinions). Excetuando um ou outro pintor flamengo, a paleta dos artistas é sóbria: furtam-se a estampar o riso nas suas telas. Em pose para a eternidade, ninguém quer adoptar a aparência da insanidade ou da inconveniência. A não ser um extravagante como Rembrandt, antes de perder a vontade de rir (Figura 1). A maior parte das figuras joviais são loucos, bobos e bêbados (figuras 3 a 12); crianças e namorados, ambos abençoados pela inconsciência (figuras 14 a 22) e pessoas marginais (mulheres de boa vida e “minorias étnicas”). Neste elenco, ainda sobra espaço para o grego Demócrito, sistematizador da teoria atomista, conhecido como o “filósofo que ri”, por gracejar a torto e a direito e defender que o riso faculta sabedoria (figuras 30 a 32). Na arte, além destas, há outras figuras que riem, por fora e por dentro, por exemplo, a morte, o diabo, Baco, Dionísio, os faunos, os sátiros… Mas isto já é outro humor.
O riso na arte é tema mais que estudado. Mas soube-me bem descobri-lo. O russo Alexandre Herzen sugeria, em meados do século XIX, que “seria extremamente interessante escrever a história do riso” (citado por Jacques Le Goff, Rire au Moyen Âge: http://ccrh.revues.org/2918). Jacques Le Goff concentrou-se na história do riso na Idade Média; Mikhail Bakhtin propôs uma história do riso no Ocidente (L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance, Gallimard, Paris, 1970). Umberto Eco dirigiu várias histórias temáticas, mas ao riso consagrou um romance: O Nome da Rosa. John Morreall, fundador da International Society for Humour Studies adverte que é preciso tomar o riso a sério (Taking Laughter Seriously, Suny Press, New York, 1983).
As gargalhadas são sonoras. Com gargalhadas também se fazia música na Idade Média:
Clemencic Consort. Cavalgade. La Fête de l’Âne
Para terminar esta espécie de panteão do riso, um aforismo de François Rabelais: “É melhor escrever sobre risos que sobre lágrimas, pois o riso é o apanágio do homem” (Gargantua, Pocket, 1992, p. 33). Que o riso é próprio do homem, não duvido. Admito, contudo, a existência de seres humanos sem cócegas na inteligência que dispensam o privilégio. Guardo mais reservas quanto ao ser “melhor escrever sobre risos que sobre lágrimas”. Nos tempos que correm, convém dar força às lágrimas. Se as lágrimas não gelam o riso, pelo menos, salgam-no!
- Fig 01. Rembrandt. Laughing self potrait. 1628.
- Fig 02. Rembrandt. Portrait de Saskia Riant Portrait of Laughing Saskia. 1633.
- Fig 03. Anónimo. Laughing jester. Séc- XV.
- Fig 04. Quentin Massys. An Allegory of Folly. Início do séc. XVI.
- Fig 05. Frans Hals. Malle Babbe. 1633.
- Fig 06. Frans Hals. Malle Babbe. 1633
- Fig 07. Diego Velazquez. Portrait of Juan Calabazas (Calabacillas). 1637–9.
- Fig 08. Francisco de Goya. Tio Paquete. 1820
- Fig 09. Francisco de Goya. Mujeres riendo, 1819-1823
- Fig 10. Hans von Aachen. Self-Portrait with a Glass of Wine.1596
- Fig 11. Frans Hals. Young Man and Woman in a inn, 1623
- Fig 12. Gerrit Van Honthorst. The Happy Violinist with a Glass of Wine, 1624
- Fig 13. Vincenzo Campi, Les mangeurs de ricotta. 1580.
- Fig 14. Frans Hals.Two laughing boys with mug of beer. circa 1626-1627
- Fig 15. Frans Hals. The Rommel Pot Player, c.1618-1622
- Fig 16. Jusepe de Ribera. Le pied bot. 1642.
- Fig 17. Frans Hals. Laughing boy. 1625
- Fig 18. Frans Hals. Laughing Child. 1625
- Fig 19. Hans von Aachen. Joking Couple. first half of 17th century
- Fig 20. Hans von Aachen. A couple at a guesthouse. Ca. 1596.
- Fig 21. Hendrick Terbrugghen. Unequal Couple. c.1623
- Fig 22. Hendrick Terbrugghen.The Concert. 1626-1627.
- Fig 23. Gerrit van Honthorst, Smiling Girl, a Courtesan, Holding an Obscene Image.1625
- Fig 24. Hendrick ter Brugghen. Bacchante with an Ape. 1627
- Fig 25. Frans Hals. Gypsy Girl. 1628-30
- Fig 26. Niccolo Frangipane (ca.1560-1609). Dipinto veneto del XVI secolo raffigurante personaggi umoristici.
- Fig 27. Gerrit van Honthorst. De koppelaarster. C. 1625.
- Fig 28. Frans Hals. The Mulatto. 1627
- Fig 29. Frans Hals. Laughing man with crock known as peeckhaeringh. 1620-30.
- Fig 30. Hendrick ter Brugghen. Democritus. 1628.
- Fig 31. Charles-Antoine Coypel, Democritus. 1692
- Fig 32. Johannes Moreelse. Democritus. 1630
PS: Surgiu, nos últimos anos, um novo tipo de riso: o riso internauta. Carrega-se numa tecla e está pronto a enviar para os “amigos” das redes sociais. Uma simpatia viral!
Bobos
Para além da leveza, ando a pesquisar outro assunto ainda menos sério. Nestas andanças, deparei com dois retratos de bobos, um mais encantador do que outro.

Anónimo. The Laughing Jester. Art Museum of Sweden, Stockholm. Séc. XV
No retrato mais antigo, de autor anónimo do séc. XV, o bobo ostenta um traje colorido com as tradicionais orelhas de burro e um bastão esculpido. Uma mão cobre parte do rosto, aludindo, porventura, à missão de mostrar as duas faces da realidade.

Quentin Massys. An Allegory of Folly. Início do séc. XVI.
O segundo retrato é da autoria de Quentin Massys (1466-1530), um dos pintores mais surpreendentes da história da arte. Apresenta um louco com os respetivos símbolos: um galo na cabeça e a pedra da loucura na testa. Digno de atenção é o remate do bastão com uma figura humana, bastante realista, a mostrar o rabo.
Uma baleia na floresta
Quando a inspiração e a arte se dão as mãos pode acontecer um anúncio de inesperado e belo efeito. À semelhança da coca-cola de Fernando Pessoa, uma baleia a nadar numa floresta é um conceito que “Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”.
Marca: Whale and Dolphin Conservation (WDC/WDCS). Título: Safe and free. Agência: Gentleman Scholar. USA, Novembro 2013.





































