Archive | Agosto 2013

Histórias aos quadradinhos do tempo de D. Afonso Henriques

Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Fig. 1. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra,1155-1160 (Pormenor da Fig. 5)

Quão antigas são as histórias aos quadradinhos? Não me refiro às histórias gravadas, pintadas, esculpidas que remontam às cavernas, aos túmulos egípcios, aos palácios assírios, aos frisos gregos, aos arcos de triunfo e às colunas imperiais dos romanos. Cinjo-me a histórias dispostas em séries de pequenos quadrados ilustrados. Estas histórias têm, no mínimo, 850 anos. Entre 1155 e 1160, foi manuscrito o Livro de Salmos de Canterbury, alvo de várias cópias. Creio existirem bíblias mais antigas com o mesmo esquema de ilustração. De qualquer modo, já existiam histórias aos quadradinhos no tempo de D. Afonso Henriques.

O Livro de Salmos de Canterbury relata várias passagens bíblicas em páginas divididas em quadrados, cada um com sua imagem. A figura 2, dedicado ao Genesis, é acompanhada por uma “legenda” que identifica as imagens (http://www.moleiro.com/fr/livres-bibliques/psautier-anglo-catalan.html). Graças a esta multiplicação das ilustrações, o Livro de Salmos de Canterbury é considerado o manuscrito inglês do séc. XII com maior número de imagens bíblicas (ver, a título de exemplo, as Figuras 3 a 6). Como prova da qualidade das iluminuras, acrescenta-se um pormenor com a imagem de um quadrado (Figura 1).

Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 2. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

“Dieu créant la lumière : Fiat lux: dixit Deus, et facta est lux (Gén. 1: 3); Dieu créant l’ étendue entre les eaux : Fecit Deus firmamentum in medio aquarum (Gén. 1: 6); Dieu séparant les eaux de la terre : Congregentur aque, que sub celo sunt, in locum unum et appareat arida (Gén. 1: 9); Dieu créant le Soleil et la Lune : Fecit Deus duo magna luminaria, solem et lunam, et stellas (Gén. 1: 16); Dieu créant les oiseaux et les poissons : Creavit Deus cete grandia atque volatile super terram (Gén. 1: 21); Dieu créant les animaux et Adam à son image : Producat terra animam viventem. Faciamus hominem ad imaginem (Gén. 1: 24, 26); création d’Eve : un ange tend un morceau d’argile à Dieu pour engendrer sa chair : Edificavit costam quam tulerat de Adam in mulierem (Gén. 2: 21-2); Dieu prévient Adam et Eve de l’interdiction de manger les fruits de l’arbre de la connaissance du bien et du mal : Eva. Adam. De fructu sciencie boni et mali ne comedas (Gén. 2: 17); Adam et Eve mangent le fruit, tentés par le serpent : Eva. Serpens decepit me et comedi. Adam(Gén. 2: 13); expulsion d’Adam et Eve du paradis : Ubi ejecti fuerunt de paradiso. Adam. Eva (Gén. 3: 23-4); Adam en train de creuser et Eve en train de filer la laine auprès de leurs enfants : In dolore paries filios. In sudore vultus tui vesceris pane (Gén. 3: 16-19); Dieu repousse l’offrande de Caïn tandis qu’il accepte et bénit celle d’Abel : Abel. Sacrificium. Caym (Gén. 4: 3-5)” (http://www.moleiro.com/fr/livres-bibliques/psautier-anglo-catalan.html).

Figura 3. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 3. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 4. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 4. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 5. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 5. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 6. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Figura 6. Livro de Salmos de Canterbury, Inglaterra, 1155-1160

Internet e Humor

A internet é um vector de humor. O riso espreita a cada janela, a pretexto de tudo, de todos e de qualquer jeito. Em contrapartida, afigura-se-me que rimos pouco da nossa relação com a internet. Trata-se de um terreno fértil que só pede sementes. Este anúncio brasileiro é um bom exemplo.

Anunciante: Claro. Título: Cineasta de Cachorro. Agência: Ogilvy & Mather, São Paulo. Brasil, Agosto 2013.

O assunto não é irrisório. Em 1999, segundo um inquérito do INE, um português médio ocupava o seu dia do seguinte modo:

– cuidados pessoais (sono, refeições e outros cuidados pessoais), 11:32;

– trabalho profissional e estudo, 4:38;

– trabalho doméstico e cuidados à família, 2:42;

– actividades cívicas e de voluntariado, 0:17;

– em trajectos que não os de e para o trabalho, 1:07.

Sobram 3:39 para o convívio (0:47) e para o lazer (2:52). Não surge qualquer referência à internet (pode aceder aos resultados deste inquérito em http://www.cite.gov.pt/asstscite/downloads/Usos%20do%20tempo_Portugal_1999.pdf).

Não encontrei inquéritos recentes do mesmo teor para Portugal. Em França, o INSEE realizou um inquérito homólogo em 2010 (pode-se aceder aos resultados em http://insee.fr/fr/themes/document.asp?reg_id=0&ref_id=ip1377#inter4). A contramão, é curioso reparar como os portugueses ocupam mais tempo do que os franceses com a actividade profissional (4:38 contra 3:15) e dispõem de menos tempo de lazer (2:52 contra 4:04). Se assim era outrora, como vai ser agora com os ajustamentos em curso relativos ao horário de trabalho e à idade da reforma?

Une journée moyenne en France - 2010

A internet e os videojogos surgem discriminados, no inquérito francês, no quadro do tempo de lazer: 33 minutos diários do francês médio (ver Figura 2). Uma vez que este “francês médio” é uma ficção estatística, interessa especificar os resultados por sexo e por idade (ver Figura 3). No tempo consagrado ao ecrã, a televisão continua a dominar, aumentando o seu peso com a idade. Outros ventos sopram do lado da juventude: entre os mais novos (15-24 anos), a internet ultrapassa claramente a televisão. Sublinhe-se, por último, que o tempo dedicado à internet tende a ser maior nos homens do que nas mulheres (42 contra 26 minutos), em todas as idades.

Temps passé devant un écran selon l´âge et le sexe (France, 2010)

Temps passé devant un écran selon l´âge et le sexe (INSEE, France, 2010)

O tempo consagrado à internet tende a aumentar. Entre 1999 e 2010, o tempo médio dedicado à internet duplicou: passou de 16 para 33 minutos. Começa a ser considerável. Pelo sim, pelo não, ganhamos em temperar este “passatempo” com boas doses de humor.

Desfragmentação

Tim Richardson é um fotógrafo e realizador australiano com uma carreira notável. Trabalhou com Spike Lee, os LCD Soundsystem, os Radiohead, Lady Gaga… Dirigiu anúncios publicitários para as seguintes marcas: Van Heusen, Nars Cosmetics, Mugler e Givenchy. O vídeo 6 Breaths resultou de uma encomenda do coreógrafo Rafael Bonachela. Foi exibido durante a Bienal de Dança de Veneza. Decanta uma fragmentação que raia a pulverização, ora decomposta, ora recomposta, com elevado primor técnico e estético.
Para aceder ao vídeo, pode carregar na imagem ou utilizar o seguinte link: http://timrichardson.tv/six-breaths.

Tim Richardson

Tim Richardson. 6 Breaths. 2010.

Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista: Lorenz Stoer

Lorenz Stoer. Geometria et Perspectiva.

Lorenz Stoer. Geometria et Perspectiva.

Lorenz Stoer (c.1537-c.1621) nasceu em Nuremberga, mas fez carreira em Augsburgo. Parte da sua obra aproxima-o de Wenzel Jamnitzer (http://tendimag.com/2012/03/26/perspectivas-wenzel-jamnitzer-e-m-c-escher/).

“Tudo indica que os estudos académicos dedicados a Stoer se resumem a um par de textos datados de meados do século XX que o associam a dois ourives de Nuremberga – Hans Lencker [ver Figura 2] e Wenzel Jamnitzer- compondo um trio de artistas maneiristas interessados pelo desenho geométrico e pela perspectiva” (http://bibliodyssey.blogspot.pt/2009/09/geometric-landscape.html).

Hans Lencken. Perspectiva Literária. 1567.

Hans Lencken. Perspectiva Literária. 1567.

Uma série de gravuras de Lorenz Stoer foram compiladas na obra Geometria et Perspectiva, publicada em 1567, no mesmo ano que a Perspectiva Literaria, de Hans Lencker, e um ano antes da edição da Perspectiva Corporum Regularium, de Wenzel Jamnitzer. Três obras de “geometria fantástica”, todas publicadas em Nuremberga, com a diferença de um ano. É certo que Stoer desenvolveu uma técnica própria de desenhar poliedros, mas a sua originalidade radica, principalmente, nas gravuras de paisagens geométricas, com figuras minuciosa e caprichosamente dispostas, que antecipam várias práticas artísticas contemporâneas.

Hans Lencker. Schneckenhaus. Perspectiva Literaria (1567)

Hans Lencker. Schneckenhaus. Perspectiva Literaria (1567)

“A justaposição de figuras geométricas e cenários de ruínas traz à mente tanto Escher como Piranesi, um anacronismo tornado mais estranho e exacerbado pelas formas elaboradamente decorativas nos primeiros planos de algumas gravuras, que, como George Hart observou, poderiam passar por esculturas abstractas do séc. XX” (http://www.spamula.net/blog/2003/07/geometry_perspective.html).

É difícil percorrer a obra de Stoer sem convocar M. C. Escher (1898-1972), o surrealismo e, porventura, algumas correstes de arte contemporânea.

Jordi Savall. Ostinato. 2001

Greensleeves to a Ground, a música que acompanha o vídeo com as gravuras de Lorenz Stoer, é da autoria de um anónimo do séc. XVI. A interpretação, próxima do original e com instrumentos da época, é de Jordi Savall, com Hesperion XXI  (Ostinato, 2001).

Para melhorar a qualidade da visualização do vídeo Paisagens Geométricas, carregar em HD no ângulo superior direito.

Galeria com gravuras de Lorenz Stoer:

A Fábrica da Vida

InfinitiA Nissan Infiniti habituou-nos a anúncios, no mínimo, interessantes (por exemplo, http://tendimag.com/2011/10/12/bailado-do-carro-com-a-agua/). Este segue a tradição. Confronta-nos com um mundo a dois tempos e a dois tons: o disfórico “admirável mundo novo” e a eufórica direcção do novo automóvel. O esquema é recorrente: reduzido a objecto técnico pela técnica, o ser humano emancipa-se como sujeito técnico graças a um objecto técnico. Sujeito ou objecto, o ser humano vive ou sobrevive sob a égide da técnica. É a “fábrica da vida”. Quem não se lembra do anúncio 1984, da Apple (http://www.youtube.com/watch?v=axSnW-ygU5g)?

Marca: Nissan Infiniti. Título: Factory of Life. Agência TBWA. EUA, Agosto 2013.

Voz extrema

Klaus Nomi. PosthumousHá vozes que impressionam. Tendem para o limite. Lisa Gerrard, australiana, contralto, membro dos Dead Can Dance. Klaus Nomi, contra-tenor alemão, vítima da sida em 1983, exímio a combinar o trágico e o grotesco. Ambos tendem para o limite, mas em sentido contrário. Fantásticos!

Lisa Gerrard / Dead Can Dance. Sanvean. Toward the Within. 1994.

Klaus Nomi. Der Nussbaum. Ses 20 plus belles chansons.1994.

O Beijo

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Auguste Rodin. Le Baiser. Pormenor. 1888-1889

Já se sentia a falta de um anúncio argentino.
O beijo consiste numa junção de orifícios com troca de saliva. Um risco de transmissão de doenças. Uma libertação de energia por fricção que não contribui para o PIB, nem paga impostos. Inscreve-se a contracorrente de tudo quanto é regra civilizacional de bem ser, de bem estar e de bem fazer. Prazeroso, mas arriscado e inútil. Nem sequer garante a ignição da reprodução da espécie. O beijo que se cuide, a depuração espreita. Depois dos apitos de fumo, das ingestões espirituosas, dos músculos moles e da vigília do ecrã, a vez do beijo está a chegar. A dupla ventosa humana vai ser, política, científica e tecnicamente, ajustada, graças a uma chuva de medidas: o beijo só é permitido a um mínimo de 20 cm de distância entre entidades beijadoras; o beijo é proibido nos locais frequentados… E cartazes com o lema: “Fumar aumenta a saliva”. E nos guardanapos: “Se é beijador compulsivo, o seu médico pode ajudar”.
Ainda bem que, a fazer fé neste anúncio, o beijo resiste a tudo!

Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: GUARNA. Argentina, 2009.

Anúncios de Tim Burton

Tim Burton. Timex com.concepts. 2000

Tim Burton. Timex com.concepts. 2000

Muitos realizadores de cinema não resistiram a um pé de dança na publicidade. Tim Burton não é excepção. Dirigiu uma campanha (I-control Watch) para a Timex. Desta campanha, retemos um anúncio televisivo e um póster. Pode aceder à restante produção neste endereço: http://www.timburtoncollective.com/timex.html. O anúncio Mannequin (2000) propõe uma cena de combate, associável ao Matrix ou ao Batman, em que os maus são maus, os relógios são armas e a mulher é uma mulher.

Marca: Timex. Título: Mannequin. Agência: Fallon Minneapolis. Direção: Tim Burton. EUA, 2000.

Palavras com imagens

A palavra sempre foi importante na publicidade. Em alguns anúncios é, porém, muito importante. A França é um país que cultiva sobremaneira a palavra. Vê-se nestes dois excelentes anúncios produzidos pela mesma agência de publicidade, a Publicis Conseil (Paris), para marcas francesas (Galeries Lafayette e Orange), com realizadores franceses (Philippe André e Bruno Aveillan). A palavra como eixo da imagem.

Marca: Orange. Título: Les Mots. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direcção: Philippe André. França, 2009.

Marca: Galeries Lafayette. Título: Recette d’une femme mode. Agência : Publicis Conseil, Paris. Direcção : Bruno Aveillan. França, 1998.

Crisálida. Era uma vez no oriente

Chrysalis

Crisálida

Este é um anúncio fora do vulgar. Longo, criativo, animado, irreverente, delirante… Bizarro! Nem sei como o Salvador Dali, o Andy Warhol e os Gato Fedorento falharam esta oportunidade.

Não resisto a lembrar um anúncio, igualmente longo, para a Pantene: Crysallis (2009). Recoloco-o porque se mencionar apenas o endereço a maior parte não vai ver. Talvez seja isto a globalização: um contacto, uma ligação, uma partilha. Pouco tem a ver com a globalização que anda nas bocas do mundo.

Marca: Smooth E Babyface Foam. Título: พี่จุ๋มกลับมาเกิด. Direção: Sprite & Kaykai. Tailândia, 2007.

Marca: Pantene. Título: Crysalis. Agência: Grey Thailand. Direção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Fevereiro 2009.