Massagem dos neurónios
Intelectualizar não é o que está a dar. Já há algum tempo. A Axe sabe-o muito bem! No século passado, quando tinha 20 anos, intelectualizar era o que estava a dar. Estavam no vento a crítica às indústrias culturais e a adesão a contraculturas. A contracultura morava, então, nas universidades, nos movimentos sociais e numa multidão de nichos efervescentes. Agora, passadas quatro décadas, nas universidades, nos movimentos sociais e nos nichos efervescentes pouca contracultura subsiste. Estão abençoados pela ordem disciplinar. A contracultura já não mora aqui! Ninguém pede o impossível! Gere-se o possível. O espanto, a provocação, a subversão e o sonho migraram para outras bandas. Nos nossos dias, os arremedos de contracultura aninham-se, ironicamente, mais nos braços das indústrias culturais do que nos discursos dos bastonários do intelecto. Quanto mais participo em liturgias e encontros científicos e quanto mais anúncios publicitários visualizo, mais me capacito da envergadura dessa migração. O espanto e o incómodo são-nos servidos em pequenas doses nas intermitências dos ecrãs. Resultam inconsequentes? Será inconsequente um dispositivo que toca, todos os dias, milhões de seres humanos? Para McLuhan, a publicidade era a arte das cavernas do século XX. A publicidade envolve-nos como uma gruta. Mas, mais do que envolvimento, a publicidade é massagem quotidiana dos nossos neurónios. E faz-nos cócegas, haja ou não comichão. Algo que a Axe faz muito bem!
Marca: Axe. Título: Brainy Girl. Agência: BBH London. Reino Unido, Março 2012.
Factores de impacto
Dos preservativos, saltamos para os canos e para as fantasias associadas à sua limpeza com recurso a artigos com duplo impacto (devem ser muito bons!). Acabamos sempre por bater na mesma tecla: somos “monotemáticos”, mas não monogâmicos (pelo menos, em sonhos).
Produto: Liquid Plumr. Título: Double Impact. Agência: DDB (San Francisco). EUA, 2012.
Tempos ingratos
Passei o mês de Julho a corrigir: teses, candidaturas à FCT, exames, trabalhos (licenciatura, mestrado e doutoramento), relatórios de estágio e de investigação, projectos de dissertação, propostas de comunicação a congressos, propostas de artigos para revistas… E a febre correctora prossegue! As teses de doutoramento vão comigo para banhos em Agosto. Detesto corrigir. Detesto, ainda mais, não ter tempo livre. Não aprecio esta incontinência avaliativa exponencial. Pasmo ao ver os meus colegas entusiasmados a inventar novas provas e avaliações. Será que corrigir e avaliar ainda propicia alguma sensação de poder? Por motivo de correcção, não tenho publicado, dias a fio, artigos neste blogue. Salva-se, hoje, este anúncio, ungrateful, tão desencantado quanto o meu humor.
Marca: Tulipan. Título: Ungrateful. Agência: Young & Rubicam (Buenos Aires). Argentina 2012.
Fantasia
Para este fim de semana, sugiro um magnífico cocktail de fantasia. Gosto muito dos anúncios de Frédéric Planchon. Pelo menos, desde o Upside down, que foi amor à primeira vista. Este Entertainment é simplesmente fantástico. O canal Orange Tv deve ser fabuloso! Parece faltar-lhe apenas um tipo de fábulas a que estamos acostumados e que convencionámos chamar notícias.
Marca: Orange. Título: Entertainment. Agência: Publicis Conseil. Direção: Frédéric Planchon. França, Novembro 2008.
Recordar é acordar (os espanhóis recordar dizem acordar).
Marca: Peugeot. Título: Upside down. Agência: BETC Euro RSCG. Direção: Frédéric Planchon. Prança, Novembro 2001.
Capuchinho vermelho na era digital
Dantes, o capuchinho vermelho perdia-se na floresta; agora, expõe-se nas redes sociais. Já não é uma donzela campestre, mas uma “noiva electrónica”. Nem sequer os prazeres são os mesmos. No tempo de Perrault, colhia flores para meter na boca do lobo. Agora, é só posicionar o cursor, abrir o ficheiro e fazer downloads e uploads.
Anunciante: Facemoods‘ Online Safety Kit. Título: Little Red Riding Mood. EUA, 2011.
Sensações
Curioso! Um anúncio com trejeitos psicadélicos contra o uso de drogas no desporto! A realidade é, ela própria, extraordinária.
Marca: GlaxoSmithKline. Título: Anti-doping. Marlon Devonish. Agência: TBWA London. Direção: Scott Lyon. UK, Julho 2012.
Humor introvertido
É normal que um país eleja um país vizinho como alvo de chacota. Nestes anúncios da Popsy, os noruegueses ridicularizam os suecos, tal como os franceses os belgas e vice-versa. E os portugueses de quem se riem? Dos espanhóis? Rimo-nos de nós próprios, dos alentejanos, dos mouros ou dos espanhóis nacionais. O nosso humor, para além de divertido, é introvertido. O nosso riso é, de algum modo, ressonante. Convenhamos, no entanto, que um povo que se ri de si próprio é digno de louvor. O riso distingue o ser humano dos animais; e o riso reflexivo distingue o homem de espírito do homem mesquinho. Por outro lado, sobram, certamente, as anedotas dedicadas a nuestros hermanos. Menos, porém, do que as piadas a ministros da República.
Marca: Popsy. Título: The Swedish Truck Drivers. Agência: Dist Creative (Oslo). Noruega, 2012.
Marca: Popsy. Título: Pilots. Agência: Dist Creative (Oslo). Noruega, 2012.
Chuva de sangue
Um cenário de sonho para vampiros: chove sangue. É só estender a língua e deixar correr a música ( “Rain Drops Keep Falling On My Head”). Original e intrigante, este anúncio remete para a série “True Blood” da TWC. Termina, aliás, com uma das suas atrizes: Deborah Ann Woll.
Anunciante: TWC. Título: Enjoy better: Rain. Agência: Ogilvy & Mather. Direção: Nicolai Fuglsig. Julho 2012.
Monotemático ou o sex appeal do inorgânico
Este anúncio parece concebido para ilustrar a noção de sex appeal do inorgânico de Mario Perniola. A excitação foca-se em realidades tais como uma campainha, sombras, frutos, automóveis, esferográficas ou uma bomba de ar. O anúncio culmina, na senda de Perrier, com a explosão generosa de uma garrafa de Sprite.
Produto: Sprite. Título: Monotemático. Agência: JWT. Direção: Luciano Podcaminsky. México, 2012.
Cortes
Mais um anúncio com sensibilidade e criatividade orientais. Quem é amigo do ambiente recorta em vez de lavar as nódoas. Mas há máquinas de lavar amigas dos amigos do ambiente… Com tanta tesourada e tanto corte nas t-shirts, este anúncio lembra um país à beira mar afundado, com resgate em curso e sem solução à vista.

