Fumar mata

Crónica de opinião no jornal online ComUM.

Albertino Gonçalves. Fumar mata.

Estreou, há semanas, mais um anúncio de sensibilização anti-tabaco. Com imagem a preto e branco, uma bela jovem fuma um cigarro. Fumaça após fumaça, envelhece a olhos vistos até se transformar numa velha enrugada. Basta o tempo de um cigarro para se operar o morphing. Somos, por último, informados que “fumar envelhece até 19 anos” (http://vimeo.com/32894755). Trata-se de um anúncio bem concebido que não se desvia um milímetro da mensagem: o tabaco envelhece e degrada. Não deixa, porém, de recorrer a dois artifícios: a hipérbole, com o exagero do processo degenerativo, e a imitação da linguagem científica, com o preciosismo da sentença “fumar envelhece até 19 anos”. Esta frase pouco ou nada diz e não está ao alcance da ciência. Como assegurar que, os demais factores de risco permanecendo inalterados ou controlados, ocorre um envelhecimento até 19 anos provocado exclusivamente pelo consumo de tabaco?

A envergadura da campanha anti-tabaco tem dado azo à proliferação de anúncios. Muitos inspiram-se na figura do fumador homicida de si mesmo, com o cigarro como arma do crime. Auto-agridem-se (http://vimeo.com/13485441) ou desfazem-se em pó (http://files.coloribus.com/files/adsarchive/part_1418/14184155/file/truth-anti-smoking-you-small-30203.jpg) . Mas existem outras soluções. Umas, rebaixantes: o rosto de uma mulher assume, ao expelir o fumo, funções anais (http://www.culturepub.fr/videos/anti-tabac-bouches-petent). Outras, asseveram-se degradantes. Por exemplo, num carro aberto, um grupo de figuras aberrantes cantam, algumas com um orifício na garganta, com uma voz rouca http://www.youtube.com/watch?v=x7_B-9OyZls). Noutras, o fumo é sulfuroso, contorce-se esboçando imagens do demónio (http://www.ads-ngo.com/wp-content/gallery/demons/adesf-demon-1.jpg) . Outras, enfim, alertam para os riscos de impotência associados ao tabagismo. A maior parte dos anúncios rebaixa, denigra, estigmatiza e ameaça a figura do fumador e, em alguns casos, do ex-fumador, o que representa um em cada dois homens. Quem promove estas campanhas? Organismos governamentais ou paragovernamentais. Vale a pena? Tudo vale a pena quando a alma é pequena! Em Portugal, entre 1994-98 e 1999-2001, a proporção de fumadores na população adulta passou, no caso dos homens, de 32,7% para 32,8% e, no caso das mulheres, de 7,9% para 9,5% (fonte: World Health Organization). Nos últimos anos, “tudo indica” que o consumo do tabaco diminuiu ligeiramente entre os homens. Parece, também, que se manteve ou subiu no caso das mulheres e dos adolescentes. Parece, ainda, que estes resultados, a verificar-se, pouco ou nada devem às campanhas publicitárias.

O fumo afecta a visão. Queima os olhos e envolve-os em névoa. Talvez por desfocagem, estes anúncios trazem à memória os exorcismos medievais, as caricaturas trocadas entre católicos e protestantes durante a Reforma ou a propaganda dos regimes totalitários do século XX. Do ponto de vista do fumador, a maioria dos anúncios anti-tabaco desencadeiam um processo de agressão do eu, um assédio simbólico. Quem é responsável? As agências de publicidade fazem o seu negócio e as entidades promotoras o seu arremedo de poder. Quanto aos fumadores, ao contrário dos católicos e dos protestantes dos sécs. XVI e XVII, pagam as mensagens e andam com elas no bolso. Frases como “Fumar pode prejudicar o esperma e reduz a fertilidade” constam entre aquelas que mais circulam nos tempos que correm. Sinal dos tempos. Fumar mata! O ridículo, também.

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