A pausa
Este Hypnotist, para a marca Nescafé, é lindo. Traz à memória um dos anúncios mais belos da história da publicidade: o Rewind City, da Orange TV. Um hipnotizador suspende o tempo e o movimento. Congela o mundo. Com pequenos retoques, promove a comunicação entre as pessoas, despertando-as para a felicidade. Qual é o truque? Uma pausa para uma chávena de Nescafé é quanto basta para reparar o mundo e a vida. À semelhança do movimento de retrocesso em Rewind City, a suspensão manifesta-se reparadora.
Marca: Nescafé. Título: Hypnotist. Agência: Anonynous Content. Direcção: Christian Bevilacqua. EUA, Novembro 2011.
Rewind City, Orange TV, Ag. PUBLICIS CONSEIL, Dir. Ringan Ledwidge, França, Maio 2008.
“Rewind City é um anúncio de excepcional qualidade estética. Bastante longo (91 segundos), multiplica as pontes com o cinema. A produção esteve, aliás, associada ao filme Por favor, rebobine (2008), de Michel Gondry. Numa populosa cidade da Índia, uma jovem chora, sem desprender os olhos de um autocarro que se afasta. Sensibilizado, um taxista engrena a marcha atrás e pede aos presentes para, também eles, andarem para trás. Todos, atendendo ao pedido ou por imitação, invertem os movimentos. Volvido algum tempo, o autocarro regressa de marcha atrás. Um jovem desce, recuando, e abraça, apaixonadamente, a namorada. O autocarro reparte, agora, sem o jovem.
Trata-se de uma paródia com ironia fina. De um ponto de vista técnico estrito, não se trata de um rewind. Mas faz de conta. O barbeiro, por exemplo, pousa as madeixas de cabelo cortado na cabeça do cliente. A sincronia apresenta falhas. Cada um recua, a seu ritmo, como pode: uns com dificuldade, como o ciclista, outros, como os peões, mais à vontade. Tão pouco começam todos ao mesmo tempo: por exemplo, o varredor, que lembra o colega do filme Meu Tio (1958) de Jacques Tati, só começa a recuar, ou seja, a espalhar o lixo, no fim. Mas é, precisamente, nesta inconsistência que repousa a riqueza, a complexidade e a imprevisibilidade do anúncio. Para lhe fazer justiça, é preciso rebobiná-lo e revê-lo várias vezes.
As pessoas recuam para reverter o curso dos acontecimentos. Recuam e, por artes mágicas, o jovem regressa. A separação e o vazio ficam resolvidos num abraço. A situação foi reparada. Neste, como noutros anúncios congéneres, o resgate do passado visa a regeneração do presente. Perante estas imagens, bem podemos esfregar os olhos que eles continuam embaciados de magia” (Gonçalves, Albertino, “Como nunca ninguém viu: O olhar na publicidade”, in Martins, Moisés de Lemos et alii, Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Ed., pp. 139-165).
