Redespertar
Dormir
E acordar de novo
Quando for velho e frágil
E fraco
[Quinquis, Setu (Sonho), 2022)
Diálogo entre a cadeira de rodas e a bengala:
Cadeira de rodas: – Agora que consegues andar, podias mudar de vida!
Bengala: – Como assim?
Cadeira de rodas: – Essa que tens não presta. Desperta enquanto é tempo. Aproveita a primavera!
Bengala: – Não vejo como.
Cadeira de rodas: Em vez de pasmar a observar os pássaros, dá asas ao desejo e reaprende a voar.

Nascida em Brest, em 1990, casada com Yann Tiersen, Emilie Quinquis é uma compositora, instrumentista e fotógrafa francesa que canta em língua bretã. Algumas das suas canções não ultrapassam as centenas de visualizações. Nestas circunstâncias, ao retê-la numa “corrente” tão diminuta, uma pessoa acaba por se sentir alguém. Seguem quatro músicas com Quinquis.
Repouso

Se não encontrar uma oração que lhe convenha, invente-a (Santo Agostinho, 354-430).
Demoremos-nos, suspensos no colo divino, com o olhar perdido nas mãos desertas. A música proporciona-se como uma forma de comunhão. Algumas composições de Yann Tiersen prestam-se especialmente para esse efeito. Seguem Tempelhof, Erc’h e Pell, do álbum All (2019).
Desligado. Hikikomori.
Dá-me alguém e dou-te o mundo

Dá-me alguém e dou-te o mundo
A palavra japonesa Hikikomori refere-se tanto a uma situação de vida como àqueles que a vivem. No Japão, mais de meio milhão de pessoas vivem neste isolamento. Desligam, refugiam-se em casa, furtando-se à pressão social. Recorde-se, aliás, que o Japão se carateriza também por uma elevada taxa de suicídio. Este fenómeno existe noutras sociedades. Não confundir com o confinamento que é uma imposição e não uma iniciativa. O confinado recorre a todos os meios de comunicação disponíveis (por exemplo, o telemóvel ou o Skype), o Hikikomori evita-os. Enfim, a condição do Hikikomori difere de situações de isolamento extremo, como o de muitos idosos. Não se foge de quem não existe
Desertas são as paisagens deste vídeo musical de Yann Tiersen.
Yann Tiersen

Yann Tiersen descende dos bretões e de outras coisas mais; eu descendo dos brácaros e de outras coisas menos. Partilhamos uma origem celta. A discografia de Yann Tiersen é apreciável. As músicas Pell (um belo vídeo) e Tempelhof foram extraídas do álbum ALL, publicado em 2019.
Acrobacia e dança

Já coloquei a música Porz Goret, de Yann Tiersen (https://tendimag.com/2018/12/12/cavalo-cansado/). Mas não com este vídeo: uma dança acrobática de Tarek Rammo & Kami-Lynne Bruin, que já foram membros do Cirque du Soleil. O ritmo, a melodia e o sentimento da música de Yann Tiersen prestam-se à dança.
Confidências de um guarda-chuva solitário

O meu dono deixou-me pendurado nesta cancela metálica. Deixou-me a falar com os meus botões. Um guarda-chuva não fala? Se assim o diz, mas, na verdade, não pode não comunicar, como os humanos de Erving Goffman. O meu dono deixou-me aqui sozinho e pendurado. Pareço um marco ou um padrão: este território tem dono e o dono anda por perto. Sinais de guarda-chuva! Quem passa olha para mim e inteira-se: o Tio Zé anda nos campos. Se não houvesse outras possibilidades, a minha capacidade de comunicar seria questionável. Mas quando há alternativas, a vontade e o sentido intrometem-se. O meu dono possui dezenas de sítios para me colocar. Por exemplo, dentro da propriedade. Mas coloca-me logo à entrada. De outro modo, os transeuntes não saberiam que o Tio Zé está no campo. Para me consolar, sonho que sou um guarda imperial na fronteira de um “reino maravilhoso” (Miguel Torga).
Disse que lembro um marco. Nestes tempos de satelização, assemelho-me também a um ponto de GPS. Na minha aldeia, passa-se a palavra. Uma pessoa pode não estar comigo e saber onde estou. O Tio Zé? O Tio Zé está no campo, deixou o guarda-chuva à entrada.
Pendurado nesta cancela, aguardo a hora da missa. Se chover, vamos em cortejo. Os guarda-chuvas e os donos (ver A Sociedade dos guarda-chuvas). Abrem-se as varetas como os anjos abrem as asas. Discursos e sinais à parte, a nossa missão não é falar, é molhar-nos pelos outros.
Os guarda-chuvas apreciam a música e a dança. Quem não se lembra de Singin’ in the rain (1952)? Entre a cancela e a igreja, apetece ouvir a canção Le Parapluie (original de Georges Brassens, 1952) na versão de Yann Tiersen & Natacha Regnier (2001), com fotografias de Robert Doisneau.
Cavalo cansado

Gosto de ligar o que não tem ligação ou está solto. Em todos os domínios menos um: o mundo académico e científico. Fazem-no por mim. Em França, a Bretanha, como o Minho, tem uma ascendência celta, o que se presta a simbolismos profundos. Em 1975, Pierre-Jakez Helias escreveu um livro chamado Cheval d’Orgueil dedicado à cultura bretã. Teve um enorme sucesso. Em 1977, volvidos dois anos, Xavier Grall publica o livro Le Cheval Couché a criticar o passadismo de Pierre-Jakez Helias. Ambos são bretões. Yann Tiersen e Didier Squiban também são bretões, compositores e pianistas. Yann Tiersen é sobejamente conhecido, Didier Squiban nem por isso. Para comparação, junto as músicas Porz Gwenn e Ar Baradoz, de Didier Squiban, e a música Porz Goret, de YannTiersen.
Infinitude
Yann Tiersen, que aparece num dos primeiros artigos deste blogue (http://tendimag.com/2011/09/03/notas-coloridas-musica-e-animacao/), acaba de publicar um novo álbum: Infinity. Segue o vídeo oficial disponível: A Midsummer Evening. Uma boa companhia para as noites mágicas em que ninguém perde, nem ninguém ganha.
Yann Tiersen. A Midsummer Evening. Infinity. Maio 2014.
Cento e cinquenta mil velas
O blogue Tendências do Imaginário ultrapassou as 150 000 visualizações. Mais de mil artigos em trinta meses. As visualizações cresceram, paulatinamente, rondando, nas últimas semanas, cerca de 300 por dia. Não é bom, nem é mau, é o que se arranjou. Tendências do Imaginário é um blogue com vocação universal em língua portuguesa. O contrário de um blogue paroquial em língua estrangeira. Esta vocação universal é, de algum modo, indiciada pela proveniência geográfica das visualizações. Como se pode observar na figura 1, nos últimos 365 dias, as visualizações provêm de quase todo o globo, com particular incidência nos países lusófonos (Portugal e Brasil) e nos países com forte emigração portuguesa (França, Estados Unidos da América e Alemanha). Três em cada dez (29,3%) visualizações provêm de Portugal. Entristece-me que este blogue seja improdutivo, sem efeitos na economia do País, nem na minha. Antes pelo contrário! Muito embora… Neste momento, uma pesquisa por imagens no Google acerca da Domus Aurea, de Roma, revela que nas primeiras quarenta e quatro imagens oito são deste blogue. Terá isso efeito algum económico? E educativo? Não sei! Só perguntando aos produtores de produtivos.
À semelhança da dama do anúncio da Ferrero Rocher, apetece-me colocar algo, algo especial. Algo, ao mesmo tempo, diferente e igual. A chave para estes oxímoros costuma descansar na memória. O primeiro vídeo, um anúncio da BASF, data de finais dos anos setenta. Uma vez visto, fica a piscar no cérebro como um boneco teimoso. O segundo, The Piano, foi a primeira curta-metragem colocada no blogue Tendências do Imaginário (em 03/09/2011). Marca um estilo.
Marca: BASF. Título: Play it again John! Direção: Tony Williams. Nova Zelândia, 1979.
Música: Jean Sheppard, Dear John. Letra:
Dear John, Oh how I hate to write.
Dear John, Oh how I miss you so, tonight.
But my love for you has gone,
So I’m sending you this song.
Tonight I’m with another.
You’ll like him John,
He’s your brother.
So adieu to you forever.
Dear John.
Aidan Gibbons: The Piano. Música de Yann Tiersen.


