Chamar a música
A par da imagem e do pensamento, a música constitui, desde o início, uma das apostas do blogue Tendências do Imaginário. Embora crucial, o principal critério de seleção não é nem o meu gosto nem o dos seguidores. O intuito decisivo consiste em mostrar a imensa diversidade de músicas notáveis (não necessariamente notórias) independentemente do género ou da proveniência. Espelha a insatisfação com as paradas, os intérpretes e os críticos que nos são servidos pela comunicação social predominante.
As músicas dos artigos The earth is my grave (de 17 de julho de 2014) e Vozes (de 17 de julho de 2019) são bastante diferentes. Identifico-me com o cantor norte-americano Don McLean e aprecio o compositor belga Nicholas Lens.
Mágua
I’ve always felt that the quality of the voice is where the real content of a song lies. Words only suggest an experience, but the voice is that experience (Jeff Buckley)

Cantor, compositor e guitarrista norte-americano, Jeff Buckley foi uma das maiores revelações dos anos noventa. Não sei se me é permitido, mas arrisco afirmar que “bastante louvou Quem cedo o levou”. Faleceu afogado, em 1997, com 30 anos de idade, quando nadava, entoando uma música dos Led Zeppelin, num afluente do rio Mississipi. Seguem quatro canções com inspiração religiosa: Grace; Corpus Christi Carol; Satisfied Mind; e, incontornável, a versão de Hallelujah, do Leonard Cohen.
O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 2
A primeira é a preferida do Fernando; a segunda, minha; a terceira, não sei!
O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 1
À São, à Beatriz, à Minda,
à Paula e à Fátima,
estrelas deste deserto
Quando tudo é belo e sublime, a intérprete, a voz e a execução, convém sentir mais do que ser. Ekaterina Shelehova, canadiana, de origem russa, a viver em Itália, revelou-se durante o Got Talent de 2022 búlgaro. Desde então, de en-canto em en-canto, abraçou uma carreira de merecido, embora não ofuscante, sucesso.
Sur-preso por uma promessa incomensurável de prazer, que fazer? Tornar-se, como diria Pascal, infinitamente pequeno e infinitamente grande, microchip e parabólica, para sentir concentrado, intensamente, e aberto, extensamente. Depois, agradecer e partilhar alegre e humildemente.
Proponho-me dedicar três artigos a Ekaterina: o primeiro realça a qualidade da voz e da interpretação; o segundo retém algumas canções preferidas; o terceiro contempla parcerias.
Os anjos sempre cantaram

A Fátima Guimarães e a Almerinda Van Der Giezen colocaram, respetivamente, as canções “Oh Love” e “These Days” interpretadas pela norueguesa Ane Brun. Uma voz a seguir! O prazer partilhado é um regalo exponencial. Acrescento, um pouco no espírito da época, um videoclip, também da Ane Brun: “Do You Remember”. Delirante e cheio de ressonâncias, como apreciam algumas amigas.
Finalmentes

Existem os preliminares, os entremezes e os finalmentes. Este “Concierto para una Sola Voz”, da peruana-mexicana Tania Libertad, Embaixadora da Paz pela UNESCO, vale sobretudo, sem desmerecer o resto, pela performance da segunda parte. Em tempos que me parecem devotados à ostracização dos prazeres, não perca esta oportunidade. Não se contenha!
Imagem: Tania Libertad. Fonte: LAMULA.PE
Virtualidades do menos bom
E quando o menos bom resulta em mais bom… Eis uma equação que palpita nas cabeças pensantes. Neste sentido, costuma dizer-se que existem males que vêm por bem. Neste anúncio japonês da agência Dentsu, um comportamento brutesco quase universal é responsável por uma quase beleza universal. Mas subsistem exceções decisivas…
Ana Popovic

De vez em quando, faz bem uma pessoa desviar-se. Para as margens do mainstream, dos estereótipos e do gosto sedentário. É reparador extraviar-se longe do centro. Ana Popovic nasceu em Belgrado, na Sérvia, fez carreira na Holanda e acabou por fixar residência nos Estados-Unidos. É vocalista e guitarrista, com muita garra. Segue a interpretação ao vivo de Blues for M.
Vozes

As músicas Flamma Flamma – The Fire Requiem (1994) e Was Hast Du Mit Meinem Herz Getan (Orrori Dell’ Amore, 1995), compostas pelo belga Nicholas Lens, surpreendem: vozes mágicas, estranhas, excessivas, do outro mundo. Acrescento o teaser da ópera, também de Nicholas Lens, Shell Shok – A Requiem of War (2014), em memória da Primeira Grande Guerra. Meus amores, meus horrores!

