Colocado entre A cor do abismo, no dia 20, e Um silêncio de morte: Goya, dia 28, Leveza e turbulência na pintura de Goya, no dia 25, completa a tríade de artigos substantivos dedicados a Goya no mesmo mês de julho de 2017. Um indício provável do estado de espírito, e do corpo, em que me encontrava então mergulhado.
Imagem: Goya – Autorretrato , ca. 1796. The Metropolitan Museum of Art
“Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango (…) Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.” Aos pássaros de aço, de “O peso das coisas” (2016), acrescento “O Pássaro de Fogo” (excerto), conduzido pelo próprio Stravinsky.
A Minda enviou-me a curta metragem de animação “Tragic story with happy ending” (França, 2005), da autoria da portuguesa Regina Pessoa.
Regina Maria Póvoa Pessoa Martins (Coimbra, 16 de Dezembro de 1969) é uma realizadora de animação portuguesa. É membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e vencedora de diversos prémios de animação internacionais como o Annie Awards e o Anima Mundi.
O seu filme Kali, o Pequeno Vampiro foi considerado Património Mundial pela UNESCO (…) A sua curta-metragem História Trágica com Final Feliz é o filme português mais premiado de sempre, tendo obtido mais de 35 prémios (…) O seu nome encontra-se em terceiro lugar, na lista dos 50 melhores filmes de animação dos últimos 25 anos, compilada pelo Animac – Festival Internacional de Cinema de Animação da Catalunha em 2021. (Wikipedia, 27.02.2026).
Andar às voltas com a felicidade propicia recompensas como esta.
Regina Pessoa – Tragic story with Happy ending. França, 2005.
Que força é essa? Que força é essa? Que trazes nos braços? Que só te serve para obedecer? Que só te manda obedecer? (Sérgio Godinho, Que Força É Essa. Os Sobreviventes, 1972).
Pouco ou muito coloridas, as nossas sociedades toleram cada vez menos o voo das borboletas. Imprevisível, importa discipliná-lo, dar-lhe moldura geométrica, à semelhança, por exemplo, do alinhamento das formigas ou da formação dos gansos.
Na justiça, palaciana ou popular, a presunção de inocência conheceu melhores dias. A corrente incontinência de regras, procedimentos e controlos parece assentar no primado do mal e na bênção exorcista. Para prevenir qualquer hipótese de falhas ou desvios, as leis e os procedimentos desconfiam de tudo e de todos. Tentam acautelar, em particular, os “efeitos borboleta”, os pequenos nadas aleatórios suscetíveis de subverter a arquitetura impecável do conjunto, porventura uma gaiola dourada.
Salvador Dali, Flordali I, 1981Salvador Dali. Allégorie de Soie. 1950Salvador Dali. Paysage aux papillons, c. 1956
As regras e as normas visam menos a orientação ou a coordenação e mais a restrição e a filtragem. Multiplicam-se e complicam-se os postigos e as chaves. Não obstante, com tamanha urdidura, profilaxia e purga, há cada vez menos notícia de pessoas, gestos e obras decentes. Sem um mínimo de confiança, as relações humanas resultam perversas e penosas. Enquistam, definham e degradam-se.
Entretanto, as borboletas continuam a voar como se não existissem teias de aranha.
Willie Nelson. Butterfly. God’s Problem Child. 2017
Bénabar. L’effet papillon. Infréquentable. 2008
Sérgio Godinho. Que Força É Essa? Os Sobrevivente, 1972
Que as renas voam toda a gente sabe. Que seria do Pai Natal? Que o céu tem limites também todos sabemos. Demonstra-o o efeito de estufa. Quem voa incauto arrisca umas boas cabeçadas. Importa “capacetar-se”!
Cosmos, estratosfera, voo, liberdade. Vertigem, aceleração, velocidade, adrenalina. Queda, mergulho, regeneração, biografia. Instante, Intensidade, vitalismo. Emoção, corpo, plenitude. Radical, risco, ousado, não convencional. A estética e a sensualidade como marcadores da experiência humana. Flores da nossa (pós)modernidade, valores do tempo presente. Cupra, marca do novo automóvel do grupo SEAT, aposta vigorosamente neste anúncio. Com a participação da atriz Nathalie Emmanuel (A Guerra dos Tronos) e música original de Loyle Carner, o anúncio estreia no intervalo do jogo de futebol entre o Real Madrid e o Barcelona.
Pieter Brueghel O Velho. Paisagem com a queda de Ícaro (ca. 1558).
As imagens do anúncio lembram a figura de Ícaro. Seguem duas pinturas: uma de Pieter Brueghel (Paisagem com a queda de Ícaro, 1558), a outra de Pieter Paul Rubens (A queda de Ícaro, 1636).
Marca: Cupra. Título: Drive, live, feel another way. Agência: &Rosas. Direção: Nicolas Mendez. Espanha, Janeiro 2021.
Este anúncio é uma magnífica homenagem aos professores. Tem a marca do planeta do Principezinho. Tive bons professores. Estão a ensinar os anjos a voar sem asas. Sinto-lhes a falta. As ideias gostam de voar, nas nuvens ou nas aulas.
O facebook desencantou um artigo, colocado há oito anos, com o anúncio The Passage, realizado por Michel Gondry para a Air France. Acrescento um segundo anúncio, publicado dois anos depois, em 2002, para a mesma marca, com mesmo realizador. Duvido da bondade de relembrar anúncios geniais e de extremo bom gosto. É que o bom gosto também se perde. Não estou, naturalmente, a falar nem da Air France, nem do Michel Gondry.
Uma confidência: caiu-me em sorte uma prenda de Natal antecipada. Traz-me ocupado e tolda-me a lucidez.
Marca: Air France. Título: The passage. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção: Michel Gondry. França, 2000.
Marca: Air France. Título: The Clowd. Agência: BETC Euro RSCG. Direcção Michel Gondry. França, 2002.
Imaginação, muita imaginação; vontade, muita vontade; e o sonho acontece. Voar num carrinho de compras que faz inveja ao trenó do Pai Natal. Os hipermercados têm a faculdade de transformar os desejos em realidades e as realidades em desejos (ver Albertino Gonçalves, 2002. Um perfume de utopia. Ir às compras ao hipermercado, Comunicação e Sociedade, Vol. 4, pp. 315-319).
Marca: Fotex. Título: Rollo the reindeer. Produção: Nobody Cph. Direcção: Rune Milton. Dinamarca, Novembro 2017.