Tag Archive | voo

Os gordos não voam

dostoevskij-878x1024

Fiodor Dostoievski

“Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo” . (Dostoievski, Fiodor, Diário de um escritor, 1873).

“Descubra a história comovente de um menino que realizou o seu sonho de voar. Uma curta-metragem excitante que transmite simbolicamente os benefícios de uma dieta consciente e equilibrada” (https://www.edeka.de/homepage.jsp).

Agora, são os obesos. No anúncio Eatkarus (uma combinação de eat, comer, e Ícaro), todas as pessoas são obesas excepto o herói que, entretanto, emagreceu. Presumia que o anunciante fosse uma empresa de elevadores ou afim, mas não, trata-se da Edeka, a maior marca de estabelecimentos comerciais da Alemanha.

Ao ver o anúncio, acudiu-me o título do filme Feios, porcos e maus (1976), do Ettore Scola (tenho que aprender a controlar as lembranças). Uma tríade do subterrâneo (Fiodor Dostoievski). Como os gordos, os fumadores e os bêbados. Caricaturas disfóricas da publicidade de sensibilização, os fumadores morrem, os bêbados matam e os gordos não voam. Valha-nos a robustez infalível da profilaxia do vício e do desvio. Trata-se, admita-se, de uma espécie de jogo semiótico. E símbolos são símbolos! Mas pelos símbolos, se morre e pelos símbolos, se mata.

O anúncio Eatkarus é notável. Primorosamente concebido, com som e imagem a preceito. A caracterização das personagens é impecável. A estética da obesidade lembra Fernando Botero. Para quem se interessa pelo tópico da leveza, este anúncio é um achado. Faculta um quadrado com os seguintes vértices: peso / leveza; imobilidade / voo.

Marca: Edeka. Título: Eatkarus. Agência: Jung von Matt. Direcção: Alex Feil. Alemanha, Fevereiro 2017.

O peso das coisas

Pega no presente e pulsa o ritmo cadente de um músculo novo que nasce sem esforço porque se inventa como o vento e as marés (João Negreiros. O Manual da Felicidade. 2015).

René Magitte. Chateau des Pyrenées. 1959.

René Magitte. Chateau des Pyrenées. 1959.

Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango. Fácil de dizer, mas difícil de ilustrar. Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.

A carrinha Ford aguenta a violência dos gorilas, mas é um brinquedo na sua mão. A Toyota enfrenta a fúria do mar, mas flutua como uma boia de pesca. A Dodge perfura o planeta, num voo caído, sem fundo.

No anúncio da General Motors, os automóveis, pesados, levitam. Não existe uma via única para conjugar leveza e levitação. Até as ilhas levitam ou voam, como nas viagens de Gulliver, nas pinturas de Magritte ou nos vídeos dos Gorillaz. Na Idade Média, gordos e magros desafiaram a gravidade. Gostava de te sussurrar ao ouvido que para voar não é preciso ter asas, mas peso. Para voar, importa começar. E não te esqueças de fazer um sinal, “um bom sinal, um sinal de que não estamos fixos” (ao jeito de Jacques Prévert). Estende-me um tapete e descolarei, como São Bento, rumo aos céus.

Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.

Marca Toyota Tacoma. Título: Tide. Agência: Saatchi & Saatchi (Los Angeles). Direcção: Baker Smith. USA, 2006.

Marca: Daimler Chrysler Dodge Nitro. Título: Planet. Agência: BBDO (New York). Direcção:  Acne. USA, 2006.

Marca: General Motors. Título: Elevation. Agência: Deutsch (Los Angeles). Direcção: Phil Joanou. USA, 2007.

Condom vs Baby Sitter

Mary PoppinsPor mais que uma língua se desdobre em palavras, nem sempre encontramos aquela que nos satisfaz. Como traduzir baby sitter? Babá, aia, ama, governanta, nutriz, ama-seca, perceptora… Por que não guardadora de crianças? O Constantino também era guardador de vacas e de sonhos. Em espanhol, destaca-se a palavra niñera. Seguem: nodriza, tata, institutriz, ama, aya, chacha, ñaña… Os franceses, habitualmente avessos a anglicismos, adoptaram a palavra baby sitter. Os portugueses, também. Quanto ao preservativo, entre condom, em inglês e em espanhol, e preservativo, em francês e em português, ainda sobram letras para a poesia: camisa-de-vénus e capote.

Vem este exercício de dicionário a propósito do anúncio espanhol “Ten Más Hijos”, para a Campanha de 2016 da empresa de baby sitters BePoppins, designação inspirada em Mary Poppins, uma das baby sitters mais célebres da história do cinema. A única, segundo consta, que voa (vídeo 2). A BePoppins parte em campanha a favor da natalidade contra a contracepção. As sequências do anúncio da BePoppins lembram outros anúncios, mormente a preservativos. Não é por acaso. A Bepoppins defende uma causa e zela pelos seus interesses. Não há motivo para puritanismos. Não é o facto de um comportamento, ou um pensamento, ser interessado que o torna errado.

Marca: BePoppins.com. Título: Ten Más Hijos. Campaña 2016. Agência: La Fuerza. Espanha, Maio 2016.

Mary Poppins. 1964. Flying Nanny Scene.

Realidade virtual

8bar eagle woman

No anúncio australiano Eagle Woman, da 8 Bar, uma mulher voa como uma águia e levita como um santo. Sem levitação, o voo seria pesado. Por sinal, já conseguimos imitar o voo dos pássaros, por exemplo, com modalidades desportivas como a asa-delta ou o wingsuit.

Jean Duvignaud, Françoise Duvignaud e Jean-Pierre Corbeau recolheram milhares de relatos de sonhos. Muitos franceses sonham com voar, em particular os membros das novas classes médias (Duvignaud, Jean et alii, La banque des rêves, Paris, Payot, 1979).

Figura órgão de Tibães

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Não sou dado a profecias, mas, quando a poesia se alucina, não resisto. A realidade virtual apossar-se-à nos próximos tempos da rampa tecnológica. Com que impacto? Creio que antes do Juízo Final, mais do que a imersão num simulacro pré-fabricado, vamos aceder ao espectáculo da própria “alma”, desde a cave até ao sótão (Bachelard, Gaston, La Poétique de l’Espace, Paris, PUF, 1957) e do recalcado ao sublimado. Em suma, o inconsciente e o não-consciente. Todo o icebergue! Uma experiência “terrível”.

Figura órgão de Tibães 2

Figura do órgão do mosteiro de Tibães.

Na sanefa das escadas de acesso ao coro alto do Mosteiro de Tibães, aguarda-nos a seguinte inscrição: “Terribilis este locus iste, vere, hic domus dei est, et porta coeli” (“Este lugar é terrível. Esta é a casa de Deus e a porta do céu”: Oliveira, Paulo, “O coro alto da igreja do mosteiro de Tibães”, Minia, nº13, IIIª série, 2014). Nem terríveis, nem extraordinários, eu e o Paulo Oliveira vamos dar uma aula aberta, com visita, no Mosteiro de Tibães,  subordinada ao tema O espaço fala – O Coro Alto e o Escadório das Virtudes do Mosteiro de Tibães. No âmbito do Programa Doutoral de Estudos Culturais, terá lugar no dia 26 de Abril, às 14:30. Apareça, será bem-vindo.

Marca: 8Bar. Título: Eagle Woman. Agência: DDN Melbourne. Direcção: Tim Bullock. Austrália, Março 2016.

Voar em Aveiro

C’è un nuovo mondo solare e fantasioso, fatto di buonumore,
colori e soprattutto leggerezza: il Pavesini Village.
Basta un morso e via che si spicca il volo…

Pavesini Village

Este anúncio foi filmado em Aveiro e na Costa Nova, coloridos ao jeito da Rua Sésamo. O anúncio irradia luz, fantasia, “bom humor, cor e, sobretudo, leveza”. Sem esquecer o movimento e a juventude. A leveza, potencialmente libertadora, é uma tentação do homem contemporâneo. Volare (1959) é a primeira palavra da canção O Marenariello (Serenata Napoletana) de Dean Martin. Vamos ouvir, enquanto se voa no ecrã!

Marca: Pavesi. Título: Pavesini Village. Produção: BRW Filmland. Direcção: Eli Sverdlof. Itália, Maio 2014.

Dean Martin / Nicoli Lucchesi, O Marenariello (Serenata Napoletana), 1959.

Peixes voadores

 

Johnnie Walker. Fish

Há anúncios que fazem cócegas no diafragma, regalam a vista e desafiam o raciocínio. Humor, estética e imaginação. FlyBoardFishing, da Fishersman’s Friend, surpreende uma sequência  de voo em flyboard e pescaria de mergulho. Tudo graças ao sopro de um velho com pulmões invejáveis. De perder o fôlego! Fish, da Johnnie Walker, estreado em 2003, é uma obra-prima da publicidade. “Antes do primeiro passo”, os seres humanos nadam, entre saltos e mergulhos, como golfinhos, num movimento semelhante ao do pescador do anúncio FlyBoardFishing. De suster o fôlego! No anúncio Fish, carregar em HD.

Marca: Fisherman’s Friend. Título: FlyBoardFishing. Agência: Walker Zurich. Direcção: Axel Laubscher. Suíça, Fevereiro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Fish. Agência: BBH London. Direcção: Daniel Kleinman.  Reino Unido, 2003.

 

 

Criação e recriação

kia-optima-blake-griffin-fighter-pilotHá criação e recriação. Alguém disse que o que é bem pensado voltará a ser pensado. O anúncio Fighter Pilote, da Kia, retoma a papel químico o anúncio de Jacques Séguéla, Porte avion, para a Citroën (1985). Em suma, há recriação por todo o lado. Na publicidade, na ciência e na arte, expulsa-se a “folle du logis” (a imaginação). É substituída pela “follie ménagère” (a arrumação).

Marca: Kia. Título: Fighter Pilote. Agência: David&Goliath. Direção: Stacy Wall. USA, Fevereiro 2015.

Marca: Citroen. Título: Porte avion. Direcção: Jacques Séguéla. França, 1985.

O voo da galinha

tigerairÀ semelhança do que sucedeu com as tartarugas, os sapos e os porcos, as galinhas estão em vias de valorização simbólica (https://tendimag.com/2013/10/06/a-galinha-e-o-politico/). Menos estúpidas, mais vistosas, as galinhas são, agora, empreendedoras. Ainda não voam, mas estão prestes a fazê-lo, tal como os clientes potenciais da companhia de aviação australianaTigerair.

 “The Infrequent Flyer program represents exceptional value for Australians who don’t fly all that often. And who better than the chickens of Australia to represent those who just don’t fly that much? It’s a deliberately fun and unconventional spot, just like the program itself” (McCann Melbourne).

Marca: Tigerair. Título: Chickens. Agência: McCann Melbourne. Direcção: Raphael Elisha. Austrália, Novembro 2014.

A Cama de Shakespeare

Ikea. Beds

Omnipresentes neste anúncio da IKEA, o sonho e o voo não nos largam. Quedas em cascata, de cama em cama suspensas nas nuvens. As imagens parecem sair de uma pintura de René Magritte. Mas o golpe de génio reside na récita de Shakespeare. “Somos feitos da matéria dos sonhos”!

“Os nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão-de sumir-se, como se deu com essa visão ténue, sem deixar vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono.” (William Shakespeare (1610-1611), A Tempestade, Próspero, Acto IV, Cena I).

Marca: Ikea. Título: There’s no bed like home. Agência: Mother London. Direcção: Juan Cabral. UK, Julho 2014.

Deslizar

Peugeot_3008_memories_A45Deslizar não é andar nem voar. Voar e deslizar são figuras e sensações particularmente prezadas na actualidade. Foram, por exemplo, os desportos californianos (asa delta, parapente, surf) aqueles que mais cresceram desde meados do século XX (ver o artigo “O Desporto do Nosso Contentamento”, publicado em 2002). Este anúncio da Peugeot, dirigido por Filip Tellander, aposta no deslize, em diálogo ora com desportos radicais, ora com videojogos. Uma cartografia, entre outras possíveis, do prazer contemporâneo.

“Ce dont, dans sa diabolique pesanteur, le monde s’évertue à nous dépouiller, c’est de la passion, qui seule glisse au niveau de la Création” (Louis Calaferte, Droit de Cité, 1992).

Marca: Peugeot. Título: The Road to Sensations. Agência: BEPC. Direcção: Filip Tellander. França, Janeiro 2004.

O Desporto do nosso contentamento