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Caracóis

Le secret de l’histoire naturelle contenant les merveilles et choses mémorables du monde. 1401-1500. Bibliothèque Nationale de France.

Os novos monstros “apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987). Os novos monstros pressentem-se apenas quando já nos habitam. Face ao coronavírus, a sociedade retrai-se como um caracol ameaçado. Cancelei três iniciativas que me traziam entusiasmado: a exposição de fotografias de Álvaro Domingues e Duarte Belo, prevista para Maio; a Escola da Primavera, nos dias 9 e 10 de Maio, em Melgaço; e a visita ao Mosteiro de Tibães, no dia 31 de Março.

Encontrei uma música para embalar esta contenção impotente: o Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169, de Antonio Vivaldi. Subtraindo os Allegro aos concertos para flauta de Vivaldi, sobram, mais vagarosos e mais despojados, os Largo. Acrescento o Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434 e o Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Antonio Vivaldi, Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Potência e Angústia

Funeral de Beethoven pintado por Franz Xaver Stöber. 1827.

Antonio Vivaldi consta entre os compositores mais inovadores da história da música. Terá inventado ou consolidado a estrutura do concerto e da sinfonia. Foi respeitado e protegido por réis, imperadores e papas. Mas nunca se libertou da oposição de parte da Igreja. Acabou a vida na miséria, tendo sido enterrado numa sepultura anónima de pobre em Viena. A Tempestade (3º movimento do Verão, das Quatro Estações) transmite uma sensação de potência, senão violência, que nos oprime. Recorda a Grande Fuga em Ré Maior, de Beethoven. Mesma potência, mesmo sufoco. A Grande Fuga, publicada após a morte de Beethoven, foi recebida com estranheza pela crítica. Ao contrário de Vivaldi, Beethoven teve um funeral imponente, com mais de vinte mil pessoas a assistir (ver imagem).

Ambas as obras, a Tempestade No Mar, de Vivaldi, e a Grande Fuga, de Beethoven, permanecem atuais, de uma atualidade surpreendente.

Tempestade. Concerto nº 2 em sol menor, op. 8, RV 315, “O Verão”, Mov. 3, Presto. Interpretação: Divertissement Chamber Orchestra. Direcção: Lesya Melnik.
Beethoven (arr. strings). Grosse Fugue, Op.133. Australian Chamber Orchestra & Richard Tognetti. Sydney Opera House. 2016.

Primavera

Giuseppe Arcimboldo. Primavera. 1563.

Pressente-se a Primavera. Antonio Vivaldi dedicou-lhe uma composição e Giuseppe Arcimboldo, vários quadros. As obras de Vivaldi e de Arcimboldo sofreram, ambas, um longo eclipse histórico. Apenas foram redescobertas na primeira metade do século XX.

A. VIVALDI: «Filiae maestae Jerusalem» RV 638. Ph. Jaroussky / Ensemble Artaserse,

O regresso às sombras húmidas

Monte de Prado. Melgaço.

Monte de Prado. Melgaço.

Esta noite não me apetece fazer serão. Como o vinho, tenho um leve sabor a velho! A exemplo do Marcel Proust, tive uma epifania. Vivaldi e Bach lembraram-me um refúgio de infância. A 300 metros da casa do meu avô, no meio da floresta, no ribeiro de São Lourenço, escondem-se uma cascata, as ruínas de um moinho e uma singela represa. O poço, fundo, não fossem as sombras, dava uma bela piscina. O espaço é coberto pela vegetação: por todos os lados e por cima. A luz infiltra-se, tímida, por entre os ramos dos carvalhos e dos pinheiros. Lembra os vitrais das catedrais góticas. É um retiro isolado e deserto. Aventurei-me algumas vezes só, outras, na companhia dos homens e das mulheres que limpavam, religiosamente, ano após ano, os regos. Uma dúzia de pessoas. À medida que as sacholas se aproximavam do poço, as cobras multiplicavam-se. Os lagartos fitavam-nos agarrados aos troncos das árvores. Há cinquenta anos que não vou à cascata sombria do poço fundo. Hei-de voltar! Ao lugar das Mourinheiras, “povoação de mouros”, terra assombrada. Com o portátil ao tiracolo e os headphones do meu rapaz na sacola. Para ouvir Vivaldi e Bach, enquanto desengorduro o cérebro: será o ser humano mais destro a simbolizar a morte do que a simbolizar a vida?

J.S. Bach. Keyboard Concerto Nº 5 In F Minor Bwv1056. V. Tomb Raider.

J. S. Bach. Well-Tempered Clavier, Book I: I. Prelude and Fugue in C major, BWV 846.

A. Vivaldi. Largo from Winter from The Four Seasons. By Yo-Yo Ma.

Concerto For Guitar And String Orchestra In D Major 2 st

Abrir as janelas

Jean-Pierre Rampal Muppet

Após uma reunião, deixamo-nos conversar à porta de um edifício barroco. Falou-se de flauta e de flautim (piccolo). De Vivaldi e do concerto per piccolo em dó menor p. 78 – 2 Largo (ver https://tendimag.com/2012/01/08/relatorio-in-c-major-rv-443-largo/). Convocou-se Jean-Pierre Rampal, um intérprete de flauta incontornável. Falou-se, por último, de um vídeo com Jean-Pierre Rampal e Miss Piggy, na série Os Marretas. Arejar faz bem! Liberta o espírito.

Antonio Vivaldi. Concerto para flauta em lá menor. P.77 – 2. Jean-Pierre Rampal: Vivaldi, les concertos pour flûte-piccolo. 1988.

Jean-Pierre Rampal & Miss Piggy. The Muppet Show Ep. 106.

A Folia de Vivaldi

Vivaldi, un prince à veniseVi, vezes sem conta, nas aulas, Vivaldi, Un Prince à Venise (2006), de Jean-Louis Guillermou. Um filme pedagógico sobre a vida de Antonio Vivaldi (1678-1741). “O padre vermelho” torna-se famoso e admirado na Europa. Mas nos últimos anos de vida conhece dificuldades, hostilizado por parte do clero, ultrapassado pela moda e criticado por poetas e compositores, entre os quais Goldoni e Marcello. Vivaldi vê-se constrangido a vender parte das partituras e, com 63 anos, deixa Veneza rumo a Viena, onde, passados poucos meses, morre, sendo sepultado numa campa sem nome. A própria música entrou em hibernação. A maior parte do seu repertório foi (re)descoberta nos anos 1920’ e divulgada nos anos 1950’. A vida é assim feita: tudo que sobe pode descer e vice-versa, como as calças de ganga, o rugby, os tacões e os lenços de namorados.

Antonio Vivaldi compôs uma folia, música e dança de origem portuguesa (ver https://tendimag.com/2013/08/02/folia-portuguesa/). Ver e ouvir, na medida do possível, até ao fim.

Antonio Vivaldi. La Folia. Interpretação: Apollos’s Fire

A arte de tocar pífaro

Antonio VivaldiÉ tempo de fazer uma pausa nos anúncios publicitários. Como diria o rei D. João V, “nem sempre rainha, nem sempre galinha”. Gosto dos concertos para flautim de Antonio Vivaldi, o padre ruivo veneziano que viria a falecer, desafortunado, em Viena de Áustria, no ano de 1741. Foi-lhe, então, concedida uma sepultura anónima de pobre. Enterrada também ficou a sua obra, que esperará três séculos pela ressurreição triunfal no século XX.

No Concerto para flautim, cordas e baixo contínuo em Do Maior, RV 445, dá para ver como se toca flautim. Quanto ao Concerto para flautim, cordas e baixo contínuo em Lá Menor, RV 444, mais vale preparar o ouvido.

Existe um filme sobre a vida de Vivaldi, realizado por Jean-Louis Guillermou: Antonio Vivaldi, Um Príncipe em Veneza (França, 2007).

Antonio Vivaldi.  Concerto para flautim, cordas e baixo contínuo em Do Maior, RV 445.

Antonio Vivaldi. Concerto para flautim, cordas e baixo contínuo em Lá Menor, RV 444.

Relatório in C major RV 443 (largo)

Ainda não acabaram os relatórios. Não há margem para mais nada, a não ser ouvir música. Boa música, como este concerto de Vivaldi para flautim in C major RV 443 (largo).