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Embalar a tristeza

Se pretende embalar a tristeza, o Adagio para Cordas Op. 11, do Samuel Barber, é particularmente apropriada e célebre, mas o Adagio Molto da Sinfonia Al Santo Sepolcro, do Antonio Vivaldi, não lhe fica atrás.

Imagem: Jean-Édouard Vuillard, Félix Vallotton, 1908. Musée d’Orsay

Samuel Barber – Adagio for Strings Op. 11 (1936). ViennaPhilharmonic. Summer Nigh Concert. 02.08.2019
Vivaldi – Sinfonia Al Santo Sepolcro | RV 169 in B minor (ca. 1716). Academia Montis Regalis. Concerto particular, abril 2021

Abraço digital

Fernando Gonçalves e respetivo robot. Guimarães, 28.11.2025

Não esqueças que o teu filho não é teu filho, mas o filho do seu tempo. (Confúcio)

Na tarde de sexta, 28, a família dividiu-se. O filho defendeu provas de doutoramento em Engenharia Mecânica, em Guimarães e o pai teve a conferência “Com o Filho no Colo: as esculturas da humildade e da piedade” em Braga. O abraço acabou por resultar extemporâneo. Compenso com este digital. Como não me sobra frescura, recorro a memórias musicais de estimação. [Não vai ter tempo para escutar]

Antonio Vivaldi – Recorder Concerto in C major, RV 443, II. Largo. Solo Recorder: Dorothee Oberlinger. Bremer Barockorchester. Live recording in “Unser Lieben Frauen” Church, Bremen on February 13th, 2020
Antonín Dvořák – Symphony No. 9 (Excerpt 2nd movement). at Het Concertgebouw Amsterdam on March 22, 2019. Mariss Jansons conducts
Edvard Grieg – Peer Gynt, Op. 23, Act 4: No. 13, Prelude. Morning Mood. Sir Neville Marriner · Academy of St Martin in the Fields. A Warner Classics release, 1983
Camille Saint-Saëns –  Introduction et rondo capriccioso, Op. 28. María Dueñas. Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. Conductor: Mihhail Gerts
Dmitri Dmitriyevich Shostakovich – Piano Concerto No 2: 2nd Movement Andante. By Russian conductor Valery Gergiev, his compatriot classical pianist Denis Matsuev and the Mariinsky Theater Orchestra of St. Petersburg, Russia. Posted: 24/03/2018.

Extravagância

Está a chegar a hora de deitar. O álbum O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland é um bom preâmbulo. Publicado pelo músico francês Hughes de Courson, em 2001, é todo ele uma pérola. Segue a canção “Berceuse de Grinne pour Diamait”.

Hughes de Courson – Berceuse de Gráinne pour Diarmait (After Vivaldi’s Nisi Dominus, RV 608). O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland, 2001

O Pintassilgo de Vivaldi

Faz dois meses (24 de março) publiquei um artigo dedicado à lenda do pintassilgo, que incluía oito pinturas com o Menino Jesus e um pintassilgo, acompanhadas pela música “Grantchester Meadows” (1969), dos Pink Floyd. Hoje, não resisto a acrescentar quatro, acompanhadas agora pelo concerto para flauta Il Cardellino (O Pintassilgo), de Antonio Vivaldi, interpretado pela multifacetada Anna Fuzek, de origem checa.

Imagem: Anna Fuzek

Pelos vistos, não vai ser fácil espaçar os artigos. Não convence a perspetiva de congelar as ideias em bicos de pés numa fila de espera. Mesmo ao ritmo atual, muitas acabam abortadas pelo caminho… Armazenar restos pesa numa mente cansada. E importa semear e comunicar. Até no deserto com a própria sombra. Enquanto houver um nada a acrescentar.

Antonio Vivaldi – Il Gardellino, op. 10, no. 3, RV 428. Anna Fuzek com a Orquestra Barroca de Veneza, 2020

Celestial

I find the colors and the diagonal streaks mesmerizing. The slow transition from blue to orange works very well also. To my interpretation of minimal, sharp edges of complimentary colors are not a requirement. When solid objects are the subject versus an overall ethereal scene (like here), of course, having the the solid objects closer together adds more tension and is more graphic art like. (Mike Thompson / Administrador: Photographic Minimalism,10.02.25)

Fotografia de Almerinda Van Der Giezen. Seleção do grupo público Photographic Minimalism, Fev 2025

Em qualquer estação, perante o céu sublime, contrastada mas suavemente multicor, da fotografia da Almerinda Van Der Giezen, nada como imaginar um pastor a tocar trechos (largos) de dois concertos de Vivaldi para flautim (em dó maior p.78-2 e p.79-2), enquanto acompanha os galanteios das cotovias. Já agora, mudando de instrumento, o pastor pode tocar, também, o largo do concerto para flauta em lá menor P.77-2.

Faz da tua vida um sonho, e do teu sonho uma realidade” (Pierre Curie).

Antonio Vivaldi – Concerto para flautim em dó maior P.78- 2. Largo & Concerto para flautim em dó maior P.79- 2. Largo
Antonio Vivaldi – Concerto para flauta em lá menor P.77- 2. Largo

A pomba, o menino e a cruz

Anónimo (França ou Flandes). Anunciação. 1380. Museu Nacional de Varósvia

Ao analisar imagens com a Anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem, deparei com um pormenor curioso numa pintura do Museu Nacional de Varsóvia: a pomba não só toca o corpo de Maria, como vem acompanhada por Jesus bebé, nu e a carregar uma cruz. Além da fecundação por obra e graça do Espírito Santo, este detalhe prefigura a incarnação e a crucificação, portanto, o início e o fim do divino feito homem. Uma sincronização engenhosa!

Wilhelm Kalteysen. A Anúnciação. Do Tríptico da Crucificação do cônego Peter von Wartenberg. Museu Nacional de Varsóvia.1468

Uma vez advertido, detetei meia dezena de pinturas em que este detalhe se repete, ora quase impercetivelmente, como na Anunciação do Tríptico da Crucificação do cónego Peter von Wartenberg, ora tão ostensivamente, como na Anunciação do Museu Nacional Suíço, que tive, paradoxalmente, alguma dificuldade em identificar.

Imagem: Anunciação a Maria. Painel do interior do altar. Ca. 1470. Museu Nacional Suíço, Zurique

Para concluir, um regresso à música com um excerto do Inverno, das Quatro Estações do Vivaldi, interpretado por Nigel Kennedy. Com a vista cansada, preciso jejuar da escrita e da análise de imagens.

The Four Seasons, Violin Concerto in F Minor, Op. 8 No. 4, RV 297 “Winter”: II. Largo · Nigel Kennedy.

Recuperação

A um primo irmão

Saio pouco de casa. Mas tento abraçar o mundo. Como posso e se propicia. O Tendências do Imaginário ajuda, como meio de comungar com o silêncio da rede.

O concerto em Dó Maior, RV 443, para flautim, de Antonio Vivaldi, consta entre as minhas músicas prediletas. Uma bênção, um sopro único de ternura alegre e esperança tranquila. Boa recuperação!

Antonio Vivaldi, Concerto em Dó Maior, RV 443, para flautim (largo). Intérprete: Lucie Horsch.

Tempestade

John William Waterhouse. Miranda, a character in The Tempest, a play by William Shakespeare; 1916.

A campanha eleitoral pode não ter sido muito substantiva, foi mobilizadora. E a votação lembra uma tempestade: varreu à esquerda e dispersou à direita, mais ao jeito de Vivaldi do que de Branduardi.

Antonio Vivaldi. Storm. The Divertissement Chamber Orchestra. 2016.
Angelo Branduardi. La Tempesta. Musiche da film. 1992.

Caracóis

Le secret de l’histoire naturelle contenant les merveilles et choses mémorables du monde. 1401-1500. Bibliothèque Nationale de France.

Os novos monstros “apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987). Os novos monstros pressentem-se apenas quando já nos habitam. Face ao coronavírus, a sociedade retrai-se como um caracol ameaçado. Cancelei três iniciativas que me traziam entusiasmado: a exposição de fotografias de Álvaro Domingues e Duarte Belo, prevista para Maio; a Escola da Primavera, nos dias 9 e 10 de Maio, em Melgaço; e a visita ao Mosteiro de Tibães, no dia 31 de Março.

Encontrei uma música para embalar esta contenção impotente: o Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169, de Antonio Vivaldi. Subtraindo os Allegro aos concertos para flauta de Vivaldi, sobram, mais vagarosos e mais despojados, os Largo. Acrescento o Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434 e o Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Antonio Vivaldi, Adagio Molto da Sinfonia “Al Santo Sepolcro” in B Minor RV169.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 5 in F, RV 434.
Antonio Vivaldi, Largo do Concerto nº 6 in G, RV 437.

Potência e Angústia

Funeral de Beethoven pintado por Franz Xaver Stöber. 1827.

Antonio Vivaldi consta entre os compositores mais inovadores da história da música. Terá inventado ou consolidado a estrutura do concerto e da sinfonia. Foi respeitado e protegido por réis, imperadores e papas. Mas nunca se libertou da oposição de parte da Igreja. Acabou a vida na miséria, tendo sido enterrado numa sepultura anónima de pobre em Viena. A Tempestade (3º movimento do Verão, das Quatro Estações) transmite uma sensação de potência, senão violência, que nos oprime. Recorda a Grande Fuga em Ré Maior, de Beethoven. Mesma potência, mesmo sufoco. A Grande Fuga, publicada após a morte de Beethoven, foi recebida com estranheza pela crítica. Ao contrário de Vivaldi, Beethoven teve um funeral imponente, com mais de vinte mil pessoas a assistir (ver imagem).

Ambas as obras, a Tempestade No Mar, de Vivaldi, e a Grande Fuga, de Beethoven, permanecem atuais, de uma atualidade surpreendente.

Tempestade. Concerto nº 2 em sol menor, op. 8, RV 315, “O Verão”, Mov. 3, Presto. Interpretação: Divertissement Chamber Orchestra. Direcção: Lesya Melnik.
Beethoven (arr. strings). Grosse Fugue, Op.133. Australian Chamber Orchestra & Richard Tognetti. Sydney Opera House. 2016.