Tag Archive | vergonha

Caras de pau

Wooden Tree Sculpture: Close-up of Faces Carved in Wood, Handmade.

As mulheres da minha aldeia estendiam criteriosamente a roupa lavada sobre a erva. “Corava ao sol”. Vestidos com roupa corada, corávamos também. Bastava uma palavra, uma anedota, uma imagem, um namoro, um olhar, um mau pensamento… Agora, as máquinas lavam, secam e engomam. A roupa não cora. E as pessoas, deslavam-se? Quer-me parecer que somos cada vez mais caras de pau. Reviramos a pele como quem muda de roupa. Ainda existe quem core, mas aproxima-se de uma espécie em vias de extinção. Surpreender alguém a corar releva de uma epifania , uma graça abençoada. Quase não coramos! E torna-se complicado distinguir a emoção rosada de um cosmético revigorante. Há vasos sanguíneos que caíram em desuso. Como, a seu modo, os pelos, os dentes tortos, as rugas, a transpiração ou a saliva.

Giorgio de Chirico. “Mélancolie hermétique”. Huile sur toile. 1919.

Nestas coisas do pensamento, sou como um cão. Quando encontro um osso, não o largo. O que me ofusca. Na dúvida, recorri a um “grupo de foco”. Nos mundos dos participantes, as pessoas coram, coram, por exemplo, os professores e os alunos nas escolas. Até as personagens dos anime coram. Cora-se, porventura, menos no meu mundo. Rostos serenos e pálidos, a lembrar São Sebastião. A ninguém interessa corar. Um colega com vergonha é como um coxo a andar para trás. E na publicidade? Nos anúncios, não se cora. Mas quem lucra com a comunicação da vergonha?

Caras de pau ou não, eis a questão? Órfão de uma nova intuição, deixo-me embalar pela melancolia. Há melancólicos que descansam a cabeça e fitam o infinito. Não se sabe se esperam ou desesperam. Eu oiço música e escrevo. Procuro nas palavras alento para continuar.

Léo Ferré. La melancolie. La melancolie. 1965.

Catequese pela imagem: a origem da vergonha

Esta iluminura dos irmãos Limbourg, A Queda e a Expulsão do Paraíso, de 1415-16, proporciona um excelente exemplo de catequese pela imagem. Ilustra, passo a passo, a mudança de estatuto da nudez, da inocência à vergonha, passando pelo pecado. Primeiro e segundo episódios: Eva colhe a maçã e entrega-a Adão, ambos despreocupadamente nus. Terceiro: Deus expulsa Adão e Eva do Paraíso, ambos cobrem os órgãos genitais com as mãos. Quarto: Adão e Eva saem do Paraíso tapando, agora, as vergonhas com folhas de figueira.

©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽdaIrmãos Limbourg. A Queda e a Expulsão do Paraíso. 1415-16 (Alta resolução).

Sobre o tema da nudez na religião e na arte:

“Não foi a modéstia da Contra-Reforma, mas o zelo dos pintores do Renascimento do Norte quem vulgarizou o encobrimento dos órgãos genitais com folhas de plantas. Para além dos ressuscitados no Juízo Final e dos condenados ao inferno, não há nudez mais incontornável do que a de Adão e Eva no paraíso. Pintores como Albrecht Dürer, Jan Gossaert, Hans Baldung, Jan van Scorel e Lucas Cranch respaldam-se na própria palavra bíblica para justificar a utilização das folhas virtuosas.

Mal Adão e Eva acabaram de comer o fruto da árvore que se erguia no meio do jardim celeste, “os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si” (Genesis, 3. 7). As folhas de figueira são mencionadas no Genesis como forma de ocultar a nudez vergonhosa dos primeiros pecadores. Recorde-se que, no paraíso, antes do pecado, a nudez não era vergonhosa e dispensava, portanto, a folha de figueira: “O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam” (Genesis, 2. 25)“ (https://tendimag.com/?s=vestir+os+nus).