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Pernas cruzadas

1. Seated girl, Roman statue (marble), possibly copy after Hellenistic original from the school of Lysippus, 2nd century AD (if copy, then original 4th c. BC), (Centrale Montemartini, Rome).

Pasmei perante a escultura romana de uma jovem mulher sentada (imagem 1). Presumivelmente, uma cópia de um original grego do século IV a. D. Até as botas são um encanto. Tem as pernas cruzadas acima dos joelhos (para uma estátua, com as pernas cruzadas abaixo do joelho, ver imagem 2). Parece estar à espera. Do nosso olhar? Na minha ignorância, desconhecia este tipo de representação. Na realidade, existem outros exemplares. Ao olhar para a escultura, insinua-se uma sensação de equilíbrio tenso. O corpo apoia-se num segmento de reta que une o braço e a cadeira. Lembra o estilo clássico. O resto do corpo desdobra-se em pregas de emoção. A cabeça curvada desprende uma aura de melancolia. Não fosse pecado anacrónico, diria que lembra o estilo “barroco”. O equilíbrio tenso transforma-se em desequilíbrio ancorado.

2. The Sleeping Ariadne, long called Cleopatra. Séc. II a.C. Vatican Museums.

Existem várias figuras gregas e romanas com uma mulher que cruza as pernas. Mas Penélope sobressai: “Penelope  is presented as sitting, with her chest turned towards the observer, her legs crossed, and her chin or her cheek resting on one of her hands” (Capettini, Emilio, Charicleia the Bachante, in Emilio, Cueva, Edmund et alii, Re-Writing The Ancient Novel – Volume 1: Greek Novels,Groningen, Barkhis & Groningen University Library, 2018, pp. 195-220, p. 207). Calculei que as pernas cruzadas exprimissem resguardo e castidade, o que condiz com a resistência de Penélope aos pretendentes. Não foram necessárias muitas leituras para o comprovar. “The only iconographic element entirely peculiar of Penelope are the crossed legs, which indicate her emotional and sexual unavailiability” (Capettini, Emilio, Ibid, p. 207). A Penélope do Vaticano ergue-se como uma obra emblemática (Imagem 3)

3. Vatican Penelope 6Th C Bc Roman Copy After A Greek Original Classical Greek Art Sculpture On Marble Vatican City Vatican Museums

« Dans les épigrammes funéraires grecques, qui reflètent les valeurs dominantes de la société grecque, les références implicites ou explicites à Pénélope sont extrêmement nombreuses : la majorité des défuntes sont présentées comme des épouses et mères modèles, et elles sont comparées à Pénélope en termes de sagesse, de retenue et de travail domestique » (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%A9lope).

4. Greek vase painting, 5th Century BC. Penelope and Telemachus.

Na arte funerária grega, Penélope é uma referência positiva.” A maioria das mulheres defuntas eram (…) comparadas a Penélope em termos de sabedoria, compostura e trabalho doméstico”. A escultura da jovem mulher sentada onde se inscreve?

5. Jules Cavalier. Penelope asleep. 1849

Passados dois milénios, constata-se alguma continuidade na escultura de Penélope (imagem 5). É uma perdição observar a evolução dos significados de um gesto. Hoje, as pernas cruzadas falam outra língua. Um pouco mais de sedução e um pouco menos de contenção.

Castrati

Jacopo Amigoni. Portrait of Carlo Broschi, called Farinelli (1705-1782).

Regressando a Händel (ver https://tendimag.com/2018/03/14/musica-e-espectaculo/), a célebre ária Ombra Mai Fù, da ópera Xerxes (1738), foi escrita para ser cantada por um castrato. Não é a única composição de Händel destinada a ser cantada por castrati. As músicas para castrati costumam ser cantadas, nos nossos dias, por uma soprano ou por um contratenor. Segue a interpretação do contratenor francês Philippe Jaroussky.

Philippe Jaroussky – Ombra mai fù | Händel – Serse.

Os castrati atingiram o seu apogeu no período barroco (entre o final do século XVI e meados do século XVIII). Castrados durante a puberdade por cirurgiões e, até, por barbeiros, não lhes cresciam, ao contrário dos seios, nem os pelos nem a maçã de Adão. As consequências desejadas concentravam-se na laringe e nas cordas vocais, de modo a proporcionar características vocais únicas.

“Em 1588, o Papa Sisto V proibiu as mulheres de cantar no palco de qualquer teatro público ou lírico. Essa proibição foi reiterada pelo Papa Inocêncio XI cerca de 100 anos mais tarde (…) Ao tomar essa posição inflexível, a Igreja abriu caminho para um problema ainda mais sério: os castrati!” (https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/101996088#h=21).

Os castrati acabaram por assumir o papel das mulheres, entretanto ausentes, na música e, sobretudo, na ópera. No auge da fama dos castrati, cerca de 5 mil meninos eram castrados todos os anos (“Você conhece a trágica história dos castrati italianos?”: https://www.megacurioso.com.br/historia-e-geografia/101327-voce-conhece-a-tragica-historia-dos-castrati-italianos.htm). Alguns castrati alcançaram fama, poder e riqueza. Constituíam, segundo consta, uma tentação para as nobres, bem como para os nobres. Farinelli (1705-1752) é um expoente que inspira o filme homónimo, realizado por Gérard Corbiau em 1994.

Farinelli il Castrato, de Gérard Corbiau. 1994. Excerto: “Opera Orgasm”.

Alessandro Moreschi (1858-1922), considerado o último castrato, aposentou-se em 1913 da Pontifícia Capela Musical Sistina. Segue uma gravação da sua interpretação da Ave Maria de Bach / Gounod.

Alessandro Moreschi, castrato, canta a Ave Maria, de Bach / Gounod. Início do século XX.

Em Portugal, também existiram castrati italianos e portugueses. Recomendo o artigo “Também houve castrati portugueses”, de Cristina Fernandes, no jornal O Público. (https://www.publico.pt/2012/07/03/jornal/tambem-houve-castrati-portugueses-24791971).

Regressando, mais uma vez, a Händel, o artigo do Tendências do Imaginário que lhe é consagrado (https://tendimag.com/2018/03/14/musica-e-espectaculo/) não inclui a Sarabanda, uma das muitas versões da folia portuguesa (https://tendimag.com/2013/08/02/folia-portuguesa/). Pois não é tarde!

Händel, Sarabande. Do filme Barry Lyndon.