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Pedra d’água

Se no artigo anterior, a liberdade e o amor surgem como rivais, hoje apetece-me corrigir a mão. A liberdade ama-se e o amor salva do pior dos tiranos: nós mesmos. Uma canção que me faz sentir a liberdade é a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, interpretada por Manuel Freire. Dir-me-ão que não incide sobre a liberdade mas sobre o sonho. Pois, sem sonho não há liberdade, fica-se prisioneiro, não do amor, mas da realidade.

Junto com a Pedra Filosofal, vem a magnífica Menina dos olhos d’água, interpretada por Pedro Barroso.

António Gedeão

Manuel Freire – Pedra filosofal / Pedro Barroso – Menina dos olhos d´água

Esta (des)conversa inspira-se em Ernst Bloch, autor erudito e complexo, ídolo dos movimentos estudantis dos anos sessenta. As obras mais reputadas são Espírito da Utopia (1918) e O Princípio Esperança (3 vols., 1954-1959). Os meus textos inspiram-se sempre em algo ou alguém. Poucas novidade acrescentam. Neste caso, andei na adolescência às voltas com um livro menos conhecido de Ernst Bloch: Thomas Münzer, Teólogo da Revolução (1921).

Em 1978, fiz um trabalho dedicado precisamente ao Thomas Münzer (1490-1525), com o título Thomas Munzer, a sutana e o martelo. Münzer foi um teólogo “revolucionário” do século XVI. Crítico de Lutero, acabou por liderar a “guerra dos camponeses” na “Alemanha” (1524-1525). Pregava as os seus textos nas portas das igrejas e assinava: “Thomas Münzer à martelada”. Almejava criar o Reino de Deus na Terra. Foi decapitado em 1525. Friedrich Engels dedica-lhe um pequeno livro: As guerras camponesas na Alemanha (1850).

O trabalho, de uma trintena de páginas, possuía uma introdução extensa sobre a abordagem das ideologias. Graças a ele desemboquei em obras interessantes, tais como O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), da socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz, ou Ideologias: inventário crítico dum conceito (1978), do José Madureira Pinto. Emprestei o trabalho a uma doutoranda grega e nunca mais lhe pus a mão.

Junto a tradução em português do livro Thomas Münzer, Teólogo da Revolução, de Ernst Bloch(Editora Tempo Brasileiro, 1973).

A primeira vez

Utopia tour

O mundo anda assim. Parece avariado. Espreita-se um anúncio e não se percebe nada. Um corpo, não se sabe se vestido ou despido, e uma voz, esticada das profundezas do inconsciente. Um corpo à David Hamilton? Uma reflexividade à Ingmar Bergman? Um vídeo pelo olhar de um fotógrafo? Presumivelmente, não. Há calendários para o iPhone? Saiu um novo perfume ou uma nova bebida light? Quanto à música, apenas uns acordes na parte final. Ou se ouvia a voz quase robótica ou a música electrónica. Acertaram: se não tem música, é sobre música: o anúncio de um festival de música dance, em Madrid. A nós, ninguém nos engana. Mas a primeira vez ainda está para vir. El mundo es de los jóvenes!

Marca: Festival Utopia 2016. Título: You won’t have another chance to experience this first edition. Agência: La Despensa Ingredientes Creativos. Direcção: Imanol Ruiz de Lara. Espanha, Abril 2016.

Loiras com malte

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Entre uma pessoa loira e uma cerveja loira pouco deve haver em comum. No entanto, os criativos insistem em confundi-las. A marca de cerveja australiana Pure Blonde é reincidente nessa tentação pueril. No primeiro anúncio, A River of Blonde, um simples trago de cerveja é composto por uma multidão de loiras e loiros; o segundo, Pardon, mostra que basta uma ovelha negra, um arroto de um moreno, para destruir a utopia, a loiralândia, terra de loiras virgens onde nasce a cerveja Pure Blonde.

Marca: Pure Blonde. Título: A River of Blonde. Agência: Clemenger BBDO Melbourne. Direção: Steve Rogers. Austrália, 2013.