Olhares Lugares. Cinema e fotografia
Agnès Varda é uma cineasta e fotógrafa belga, residente em Paris, empenhada na intervenção social e no movimento feminista. Na sua filmografia, constam, como realizadora, mais de 40 filmes, desde 1955. Recebeu o Oscar Honorário em 2017, o César Honorário em 2001; o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim; e o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1985.
JR (de Jean René) é um fotógrafo e muralista francês, de origem tunisina, que se dedica à arte de rua. Lembrando o grafite, procede à colagem de grandes fotografias, normalmente em preto e branco, nos espaços públicos. Apresenta-se como “photograffeur” votado, tal como Agnès Varda, à intervenção social.
Agnès Varda anda pelos 89 anos de idade, JR pelos 34. Podiam ser avó e neto. Não obstante, uniram-se para realizar, em 2017, o filme Olhares Lugares. Qual é o espanto? Na sociedade, o cruzamento mobilizador das diferenças é uma banalidade extrema. Em contrapartida, esbater as diferenças, igualizar, é delírio totalitário.
Obrigado, Adélia!
Trailer do filme Olhares Lugares. Realização: Agnès Varda & JR. 2017.
O espelho ordinário
Há momentos retorcidos. Normalmente, escrevo para ser lido, mas, desta vez, escrevo para ser decifrado.
Existe um tipo de grotesco que remete para a disformidade conforme. Desconcerta, mas acaba por se deitar, atravessada, no leito de Procusto da Razão. Estranha-se, primeiro, e entranha-se, depois. Como diria Goya, o sonho, por monstruoso que seja, faz parte do sono da razão. Atente-se, por exemplo, na obra de Salvador Dali.
Com a devida vénia ao movimento punk, existe uma outra forma de grotesco que releva da conformidade disforme. O que é estranho já não é o sonho mas a realidade. Este grotesco bebe no pântano da vida quotidiana. É a experiência que se torna estranha (Sigmund Freud; Wolfgang Kaiser). Ocorre um estranhamento do familiar, incluindo o íntimo. O grotesco opera menos por criação e mais por deslocamento. Da intimidade para o público. É uma monstração. Este grotesco não sonha, desperta, com os olhos esbugalhados, para a experiência comum. Partilha, obscenamente, o que não é partilhável, mas que todos têm. O delírio do extraordinário é substituído pelo espanto face ao banal, pelo espetáculo insólito e exacerbado do mais que vivido e mais que conhecido.
Este anúncio justifica a seguinte pergunta: como é que a grosseria pode promover a beleza? Enquanto fico a pensar, passo a palavra ao Victor Hugo:
“Somente diremos aqui que, como objectivo junto do sublime, como meio de contraste, o grotesco é, segundo a nossa opinião, a mais rica fonte que a natureza pode abrir à arte (…) O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece, ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada” (Hugo, Victor, 1827, Do grotesco e do sublime, Prefácio de Cromwell).
E pronto!
Marca: B Cosmic. Título: Be pretty. Agência: JWT Tunis. Direcção: Fekih Anwar / EZA. Tunísia, Dezembro 2014.




