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Vaca carnívora

Anunciante: Unimed Curitiba. Título: Vaconça. Agência: Bronx. Brasil, Dezembro 2019.

“Desde que comecei a rir de mim mesmo, nunca mais me aborreci” (Georges Bernard Shaw).

Quando embirro com um assunto, sou pior que uma criança. A ameaça dos herbívoros, não prevista na Bíblia, abala os meus padrões tradicionais de entendimento. Não fui educado para percecionar uma vaca como um agente perigoso. Ressalvo as vacas realmente loucas, desenfreadas pelos caminhos a escornear tudo que apareça. Casos raros. Para mim, a vaca é um animal gentil que bafeja o divino. Dócil e belo. No Líbano, quando se pretende lisonjear uma mulher, diz-se que “tem os olhos bonitos como os de uma vaca” (عيون جميلة مثل بقرة: euyun jamilat mithl baqara).

Ao observar o animal na imagem (uma “vaconça”), debato-me com duas dúvidas:

– Trata-se de uma vaca disfarçada de carnívoro para não ser identificada como fonte de Metano e factor de catástrofe planetária? Um caso de camuflagem ou metamorfose bestial?

– Resulta a pele felina de experiências alimentares? Nos cortejos londrinos, era costume alterar a refeição dos cavalos a fim de que os excrementos fossem de cor discreta. Se a dieta afecta os excrementos, também pode mudar a pele. Atente-se nas intoxicações. Têm-se testado várias dietas para vacas. Há dietas que reduzem a emissão bovina de Metano para metade. Desconfio que comendo ração para gato uma vaca adquira uma pele de felino. Afigura-se-me, também, que se dessem de comer plástico às vacas resolver-se-iam dois grandes problemas da humanidade.

Guillermo Mordillo

Transformação

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Multiplicam-se os anúncios com pessoas LGBT. O Paul’s Journey, da SJ Swedish Railways, é especial. Como diria Edgar Morin (1967, Commune en France, Paris, Fayard), é stendhaliano: tem o sentido do detalhe. Durante uma viagem de comboio, gesto a gesto, assiste-se a uma transformação da aparência identitária.

 

Marca: SJ Swedish Railways. Título: Paul’s Journey. Agência: TBWA Stokholm. Direcção: Anders Hallberg. Suécia, Março 2017.

Cosmética

shiseido-hed-2015Ele ou ela? Uma questão de cosmética? Eis a magia da liquidez: mergulha-se mulher e sai homem; e vice-versa. O anúncio High School Girl?, da Shisheido, embora não o explicite, lembra a figura do andrógino, cara ao imaginário japonês.

As marcas de moda evidenciam-se pela qualidade dos anúncios. Este é um bom exemplo. Para aceder ao making of: https://www.youtube.com/watch?v=CM_uPPvXUXs.

Marca: Shisheido. Título: High School Girl? Japão, Outubro 2015.

A mecânica da felicidade

Mitsubishi Midas

Tudo muda: “todo o mundo é composto de mudança”. Todo o mundo? Não. Por consenso, o automóvel Mitsubishi é uma excepção. Como admite Luís de Camões: “E afora este mudar-se cada dia, / Outra mudança faz de mor espanto / Que não se muda já como soía”. Deve ser esta espantosa estabilidade automóvel, à prova do toque de Midas, a mecânica da felicidade.

Marca: Mitsubishi. Título: Midas. Agência: África. Direção: ALASKA. Brasil, Maio 2014.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, d
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

A Nova Jerusalém

Facundus. A Nova Jerusalém, Apoc. XXI. 1047

Facundus. A Nova Jerusalém, Apoc. XXI. 1047. O anjo mede a Cidade Santa.

Deus criou o mundo em seis dias. Obra perfeita. Ao sétimo, descansou. Mas a perfeição não era perfeita. Ao oitavo dia, Deus quebra o repouso e regenera a criação, iniciada a um domingo e a um domingo ultimada.

Houve tempos em que a promessa de salvação era apanágio da Igreja. Seguiu-se a política. Entretanto, as esferas celestiais rolam nos estádios e a Nova Jerusalém adquire foros de cotação na bolsa. Mas ainda não acordamos do sonho do Apocalipse de João. Os anjos brancos e os anjos negros continuam a defrontar-se perante os nossos olhos impotentes. E os anjos negros parecem cair não no inferno mas num enorme trampolim.

O anúncio brasileiro A Grande Transformação, do Banco Itaú, é uma obra-prima de comunicação. Soberbo! Quando o poder financeiro coloca maravilhas ao peito apetece entoar glórias e hossanas. Mas a experiência ensina-nos que sempre que travestimos seres humanos em deuses, São Bartolomeu solta o diabo.

Marca: Banco Itaú. Titulo: A Grande Transformação. Agência: Africa, Brazil. Direção: Cláudio Borrelli. Brasil, Dezembro 2013.

“Vi também a cidade santa, a Nova Jerusalém (…) Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim (…) Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro, e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus. Tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas, nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Três portas se achavam a leste, três, ao norte, três, ao sul, e três, a oeste. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.  Aquele que falava comigo tinha por medida uma vara de ouro para medir a cidade, as suas portas e a sua muralha. A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios. O seu comprimento, largura e altura são iguais. Mediu também a sua muralha, cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, isto é, de anjo (…) As suas portas nunca jamais se fecharão de dia, porque, nela, não haverá noite. E lhe trarão a glória e a honra das nações.”

(Apocalipse 21:1 – 22:5)