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Falar com as imagens

Busto da República

Há católicos que falam com as imagens dos santos. Mais, afigura-se-lhes que estes lhes respondem. Em casa, tenho um busto da República original. Herança de meu avô. Acontece-me falar com ela. Às vezes, tento dialogar. Perdeu o cocuruto. Não tem vida fácil. Gostava muito de lhe dedicar uma canção. Mas não sei cantar. Peço a outros. Por exemplo aos The Who.

The Who. I’am Free. Tommy. 1969. Ao vivo em Kilburn, em 1977.

As imagens interpelam-nos, o busto da República interpela-nos. Num século, perdeu o cocuruto. É vulnerável. A república é vulnerável.

Washington. 06.01.2021.

A decomposição da realidade e a recomposição da ilusão

Giuseppe Arcimboldo. Flora Meretrix. 1590.

Giuseppe Arcimboldo. Flora Meretrix. 1590.

A arte de Giuseppe Arcimboldo (1527-1593) paira sobre a actualidade (ver https://tendimag.com/2012/01/22/comer-com-os-olhos-os-alimentos-em-arcimboldo/). Apraz-nos “decompor uma ordem e recompor uma desordem”, segundo a expressão de Severo Sarduy (Barroco, Paris, Ed. du Seuil, 1975). Esta recomposição de uma desordem gera um efeito, uma ilusão, de realidade. Pode ser complexa, como nos quadros de Arcimboldo, ou simples como no anúncio da Moe’s Southwest Grill: um pedaço de nachos funciona como corpo de uma guitarra elétrica.

Marca: Moe’s Southwest Grill. Título: Chip Guitars Rock. Agência: Focus Brands. Direcção: Chris Bailey. USA, Setembro 2015.

O site Culture Pub (http://www.culturepub.fr/) contempla uma categoria chamada “quand la musique est bonne”. Este anúncio é um sério candidato. Pete Townshend, guitarrista dos The Who, participa no anúncio. Pretexto para relembrar a banda: Baba O’Riley e Behind blue eyes, são duas canções do álbum Who’Next, de 1971.

The Who. Baba O’Riley. Who’s Next. 1971.

The Who. Behind blue eyes. Who’s Next. 1971.

Ser diferente

Arte por crianças com autismo. Amigos, por  Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Arte produzida por crianças com autismo. Amigos, por Wil C. Kerner, com 12 anos de idade.

Há mundos e mundos. Os teus, os dos outros e os nossos. E aqueles que nem sequer suspeitamos. Mundos da vida. Mundos sensoriais. O que ouve um autista? Este anúncio da National Autistic Society esboça um cenário (para mais informação, consultar http://www.autism.org.uk/living-with-autism/understanding-behaviour/the-sensory-world-of-autism.aspx).

Anunciante: National Autistic Society. Título: Sensory Overload. Agência: The News. Direcção: Steve Cope. USA, Abril 2014.

O anúncio Sensory Overload lembra a ópera rock Tommy (1969), dos The Who, filmada por Ken Russell. Durante a guerra, o capitão Walker é dado como morto. Deixa a mulher grávida. Nasce Tommy. A mãe tem um amante: Frank. Passados alguns anos, o pai, inesperadamente, regressa e é assassinado por Frank. Tommy presencia a tragédia através de um espelho. A mãe e o padrasto insistem que ele nada viu, nem ouviu, logo nada contará a ninguém. Tommy torna-se, de facto, cego, surdo e mudo…

Os anos corroeram a memória dos The Who e do realizador Ken Russell, que ganhou um óscar em 1969 pelo filme Women in love. Em 1971, estreou o estranho e excessivo The Devils. Em 1980, é a vez da ficção científica com Altered States. Realizou, também, vários filmes dedicados a compositores musicais (Elgar, Liszt, Mahler, Tchaikovsky).

Sobram fórmulas para enterrar talentos. A mais vulgar é R.I.P. e a mais eufemística, “estava adiantado em relação ao seu tempo”: a obra de Ken Russel tinha traços pós-modernos, mas antes da declaração do fim das grandes narrativas, e barrocos, mas antes do neobarroco…

Segue a faixa See Me Feel Me – Listening to you, do album Tommy (1969) dos The Who.