Relaxe! O Teste do PSA

“Relax your tight end”, da Novartis, é um anúncio de sensibilização que alerta para a importância de monitorizar o estado da próstata através da medida do nível de PSA no sangue. Focando-se em jogadores de futebol americano, o anúncio opta por uma imagem bastante peculiar da masculinidade: uma virilidade descontraída e amaciada.
A deriva do gosto

“Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse não sei quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal. Pensamentos).
É fenómeno antigo mas sempre surpreendente: conversar sobre nada com muito interesse. É impressionante! Uma hora, duas horas, a pastar palavras! Para além da conversa fiada, está na moda promover experiências com seres humanos. A estes apanhados chamam testes. Confrontados com o mesmo produto, rotulado com preços distintos, as pessoas escolhem o mais caro. E se, em vez de preços, fossem marcas? E se um estivesse colocado ao nível dos joelhos, outro ao nível da cintura e o terceiro ao nível do peito? Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto… Os seres humanos não são racionais, mas têm as suas lógicas (Vilfredo Pareto; Max Weber).
O aguilhão da inteligência
Concentração! Muita concentração… O teste é manhoso. Na sala, nem um murmúrio. Apenas o zumbido de uma abelha, que pousa no ombro. Veio para ficar. Longos minutos, pele contra patas, braços contra asas. Estaremos perante uma nova técnica de alavancagem de testes? Algo como um aguilhão à inteligência? Vinte garantido. Esta experiência, recente e verídica, lembra o anúncio, antigo, da companhia de seguros Centraal Beheer, protagonizado por um funâmbulo e uma abelha.
Marca: Central Beheer. Título: Wasp. Agência: Result/DDB. Direcção: Paul Vos. Holanda, 1999.
A beleza que toca o coração

O tempo deu ao tempo o tempo que o tempo não tem. Este anúncio português é longo. Dura quase quatro minutos. Propõe uma experiência com um painel composto exclusivamente por homens. Num primeiro momento, regista a reacção perante fotografias de modelos femininos. A beleza estereotipada. Seguem imagens de mulheres com laços familiares (esposa, filha, irmã, avó). Casos apostrofados, únicos e próximos. A “beleza real”. A razão e a análise dão lugar à emoção e ao sentimento, à “beleza que toca o coração”. Um medidor de frequência cardíaca avalia o impacto das imagens. A frequência cardíaca associada aos modelos não ultrapassa as 85 pulsações por minuto. No caso de pessoas significativas, ultrapassa as 100 pulsações por minuto. “É isso que eu sinto, ela é única”. A “beleza real” ultrapassa a beleza por catálogo.
Quando não temos em que pensar, pode-se seguir o conselho de Ernst Bloch e perguntar como seria o que não é. Se fossem mulheres a reagir a homens? E mulheres a reagir a mulheres? E homens a reagir a homens? Falhava-se o alvo? Ainda persiste a ideia de que as mulheres se vêem através do olhar dos homens?
Abordar um fenómeno atendendo ao que ele não apresenta, àquilo que pressupõe ou exclui, é uma postura fecunda na investigação social, descurada, aliás, pela maioria dos livros de metodologia. Sustentava Gaston Bachelard que “só existe ciência do escondido”. Mas o oculto é apenas uma parte do que não aparece. Neste quadro, prefiro a máxima de Ernst Bloch: se a história está cheia de impossíveis realizados, mais cheia está de possíveis não realizados.
Marca: Dove. Título: Beleza Real. Agência: Black Ship. Portugal, Setembro 2016.
Anglicismos
Ainda criança, a electricidade vinha de Espanha. O peixe fresco vinha de Vigo. As calças de ganga, o pão (cacetes), o bom chocolate e a Coca-cola, proibida em Portugal, também vinham de Espanha. A televisão era a espanhola. Para Espanha, contrabandeava-se, em batelas (pequenas embarcações do rio Minho): café, azeite, sabão, ovos, cobre, prata, ouro… Nós, os transfronteiriços, somos meio espanhóis. Mas nem os espanhóis diziam calças, nem nós, pantalones. Um dia, seriam jeans.
O anúncio Lengua madre solo hay una, da Real Academia de la Lengua e da Academia de La Publicidad Española, é duplamente feliz: porque reage à epidemia dos anglicismos, designadamente na publicidade, e porque não adopta a nossa política da língua.
Anunciante: Real Academia de la Lengua e Academia de la Publicidad Española. Agência: Grey Spain. Espanha, Maio 2016.
O Teste do Elevador
Para Aristóteles, o segredo do humor era a surpresa. E quando o centro de gravidade da surpresa se situa abaixo do umbigo, o humor parece só ter a ganhar. É o caso deste teste de roupa interior, num anúncio da Bonds, com fraca resolução, mas com humor reserva 1995.
Marca: Bonds. Título: Lift. Agência: DMB&B. Direção: David Deneen. Austrália, 1995.
O cúmulo dos testes
Este anúncio da Lenovo é uma paródia de um teste, uma hipérbole da razão argumentativa. Para aferir a rapidez de início de um portátil, nada mais apropriado do que içá-lo às alturas da estratosfera e deixá-lo cair para verificar se o pára-quedas incorporado abre ou não antes da colisão com o solo. Engenhoso, lógico e convincente. Não restam dúvidas: o pára-quedas é bom!
Marca: Lenovo. Título: Boot or bust. Agência: Mckinney. Direcção: Sam Stephens e John Budion. EUA, Julho 2011.



