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O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.

Ternura

René Magritte. Os amantes. 1928.

Dois computadores avariados. O fixo e o portátil. Uma orfandade eletrónica? Nem por isso. Existe vida para além do ecrã. A música, por exemplo. E sentimentos frescos. A ternura, por exemplo. Segue La Tendresse, de Daniel Guichard.

Daniel Guichard. La Tendresse. La Tendresse. 1973. Ao vivo em Lille, em 2015.

Grotesco de estimação

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai é um brilhante realizador de publicidade tailandês, cujos anúncios tendem para um grotesco ímpar. Conciliam delírio e ternura, a exemplo do Shrek. Recordo o primeiro anúncio de Thanonchai Sornsriwichai a que acedi: King Kong, para a Ford Ranger. Estreado em Dezembro de 2004, ganhou vários prémios, incluindo o Leão de Ouro do Festival de Cannes. O Tendências do Imaginário contém uma dúzia de anúncios de Thanonchai Sornsriwichai, incluindo o King Kong, que integrou a selecção de anúncios da instalação Emoções Confortáveis, na exposição Vertigens do Barroco  (Mosteiro de Tibães, 2007). Não resisto à tentação de o recolocar. Mas acrescento um novo: Tummy, da LMN (2012). Desconcertante. Mágico e violento: a barriga tem forma de cabaça e é perfurada por uma flecha. É arte de Thanonchai Sornsriwichai dar vontade de rir com desgraças insólitas. Estranhamentos agradáveis. “Os deuses devem estar loucos”.

Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.

Marca: LMN. Título: Tummy. Agência: Creativeland Asia. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Índia, 2012.

O trunfo do amor

Vintage Valentine_s Day cards all came from RiptheSkull on Flickr.

Vintage Valentine_s Day cards all came from RiptheSkull on Flickr.

Regresso ao vício: a publicidade. As grandes marcas monopolizam a economia e, eventualmente, a política. Não basta, querem também monopolizar o coração. Os dois anúncios da McDonald’s ilustram um pressentimento antigo: para assegurar adesão e emoção, nada como uma história bem contada, com crianças, velhos ou animais. Há anos que a McDonald’s aposta na afectividade e na ternura. O trunfo do amor.

Mais ou menos a despropósito, acrescento duas canções populares (ao gosto do povo) de Michel Sardou; La Maladie d’Amour (1973) e En Chantant (1978).

Marca: McDonald’s. Título: La porte. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Louis Sutherland. França, Julho 2017.

Marca: McDonald’s. Título: Grand-père. Agência: TBWA (Paris). Direcção: Martin Werner. França, Julho 2017.

Michel Sardou. La Maladie d’Amour. La Maladie d’Amour. 1973.

Michel Sardou. En Chantant. Je Vole. 1978.

Ternura

ternura

Ternura

Mais longe? Mais perto? A distância certa é aquela em que se abraça mais as virtudes e menos os defeitos. Não deixe que a ternura se afaste do tabuleiro da sua vida. ”Sem a ternura, o amor não seria nada” (Bourvil, Tendresse, 1963) . A ternura não tem tamanho, lugar ou momento fixo. Num simples gesto, num simples olhar, numa simples atitude, num infinitamente nada, cabe uma galáxia de sentimentos.

Hoje é dia de São Valentim, um bispo romano, do século III, que celebrou casamentos contra a lei do Imperador Cláudio II. São Valentim diz-me pouco, mais me diz Inês de Castro.

“Apercebeu-se que havia mais no mundo do que as especulações da Sorbonne e os versos de Homero, que o Homem tinha necessidade de afectos, que a vida sem ternura e sem amor era apenas uma engrenagem seca, estridente e desoladora” (Hugo, Victor, Notre-Dame de Paris, 1831).

O anúncio Eternal Love, da Instrumentarium, e a canção La Tendresse, de Bourvil, são dois postais ilustrados em dia de namorados. Hoje, não é Fevereiro, nem chove no quintal. Hoje, nas margens do rio Coura, caem do céu as sombras das árvores do luar de Agosto.

Marca: Instrumentarium. Título: Eternal Love. Agência: Cassius Helsinki. Direcção: Pete Riski. Finlândia, Fevereiro 2017.

Bourvil. La tendresse. Letra de Noël Roux. Música de Hubert Giraud. 1963.

La Tendresse (Bourvil)

On peut vivre sans richesse
Presque sans le sou
Des seigneurs et des princesses
Y’en a plus beaucoup
Mais vivre sans tendresse
On ne le pourrait pas
Non, non, non, non
On ne le pourrait pas

On peut vivre sans la gloire
Qui ne prouve rien
Etre inconnu dans l’histoire
Et s’en trouver bien
Mais vivre sans tendresse
Il n’en est pas question
Non, non, non, non
Il n’en est pas question

Quelle douce faiblesse
Quel joli sentiment
Ce besoin de tendresse
Qui nous vient en naissant
Vraiment, vraiment, vraiment

Le travail est nécessaire
Mais s’il faut rester
Des semaines sans rien faire
Eh bien… on s’y fait
Mais vivre sans tendresse
Le temps vous paraît long
Long, long, long, long
Le temps vous parait long

Dans le feu de la jeunesse
Naissent les plaisirs
Et l’amour fait des prouesses
Pour nous éblouir
Oui mais sans la tendresse
L’amour ne serait rien
Non, non, non, non
L’amour ne serait rien
Quand la vie impitoyable
Vous tombe dessus
On n’est plus qu’un pauvre diable
Broyé et déçu
Alors sans la tendresse
D’un coeur qui nous soutient
Non, non, non, non
On n’irait pas plus loin
Un enfant vous embrasse
Parce qu’on le rend heureux
Tous nos chagrins s’effacent
On a les larmes aux yeux
Mon Dieu, mon Dieu, mon Dieu…
Dans votre immense sagesse
Immense ferveur
Faites donc pleuvoir sans cesse
Au fond de nos coeurs
Des torrents de tendresse
Pour que règne l’amour
Règne l’amour
Jusqu’à la fin des jours.

 

Noël Roux

O berço e a arca: crianças e animais

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A inclusão de crianças e de animais nos anúncios é uma tentação da publicidade. Cativam e sensibilizam o público. As crianças e os animais são amorosos, desprotegidos, surpreendentes e expressivos. E gostam de nós! A escolha do primeiro anúncio não podia ser mais apropriada: bebés experimentam alimentos. O olhar atarda-se nas bocas e nas reacções faciais. A ternura de uma expressão canina vale mil imagens. Duplamente afeiçoado, o cão revela quão perturbador pode ser um coração dividido.

Marca: Superbrugsen. Título: How to get good eating habits. Agência: Konstellation & Republica, Copenhagen. Dinamarca, Setembro 2016.

Marca: Honda. Título: Lost and Found. Agência: RPA. USA, Setembro 2016.

Ternura

É uma ternura este anúncio da Allan Gray, uma empresa de investimentos financeiros. O rapaz é um anjo da guarda incansável. Tamanha dedicação encerra, porém, um fundo especulativo: a filha sai à mãe. “Always look for potential, and than have the patience to wait for it!” Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou neste endereço:  http://www.culturepub.fr/videos/allan-gray-patience?hd=1.

Allan Gray. Patience.

Marca: Allan Gray. Título: Patience. Agência: King James. Direção: Keith Rose. África do Sul, 2008.

A palavra ternura lembra algumas canções ditas francesas. Por exemplo, “la tendresse” de Bourvil (1963) ou de Jacques Brel (1959). É também o título de uma canção de Daniel Guichard (1972). Muito conhecida dos portugueses? Palpita-me que pouco. O que enternece… Portugal já foi o país da rosa-dos-ventos; agora, é um país cataventos, cada vez com mais urgências e cada vez com menos memória.

Daniel Guichard. La Tendresse. 1972.