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Limites da fidelidade

Sem Título (2)

A fidelidade convoca, muitas vezes, o desconforto. Exige uma dádiva de si que a enaltece. Este é o assunto do anúncio I’ll be there for you. Um cão persegue a ambulância onde vai o dono, mas desiste tentado por um cobertor IKEA. Esta suspensão da fidelidade canina colide com os limites da nossa consciência, aproxima-se do inconcebível (Lucien Goldmann, Structures mentales et création culturelle, 1970).

O anúncio I’ll be there for you não provém de uma marca, supostamente a IKEA. Foi elaborado por estudantes de uma Academia de Filme alemã, sob a direcção de Alexander Kuhn. Esta origem justifica,em parte, a ousadia. Um anúncio efectivo de uma marca real causaria uma impressão de estranheza. Mas as viragens da segunda metade do século XIX tornaram tudo possível. Dantes tudo era apenas provável (estou a brincar). Em suma, um anúncio criativo, com esmero profissional.

Acabo de regressar de Melgaço, dos Filmes do Homem. Abraços, palavras e a convicção de que para o ano haverá mais. Estou em Moledo do Minho onde me confronto com uma aberração, uma impossibilidade sociológica: o encontro da aristocracia e do povo. Na areia, ao sol, na água, na espuma, nas esplanadas, nos comércios, nas estradas… Balouço, assim, entre, como diria Pierre Bourdieu (A Distinção, 1979), a forma da aristocracia e a substância do povo.

Título: I’ll be there for you. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: de Alexander Kuhn. Alemanha, Maio 2018.

Azul celeste e vermelho fogo

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelona, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

Ars moriendi, Provence 15th century.

Ars Moriendi. Provença. Século XV.

Este descrição assenta que nem um sapatinho de cristal no anúncio Final Breath, da Audi, com a ressalva de que Philippe Ariès aborda a “arte de morrer” nos séculos XV e XVI. Parentes e amigos rodeiam o moribundo. Invisíveis, as forças celestiais e infernais disputam a sua alma. Submetido a uma prova, o moribundo vê desfilar o livro da vida. Um automóvel Audi insinua-se como última tentação. Para onde vai alma? Para o vermelho fogo, a cor do carro, a cor dos demónios. Even a life lived to its absolute fullest isn’t immune to the stopping power of the all-new 2018 Audi.

A morte e o morrer tornaram-se tema corrente na publicidade. Neste caso, estamos perante uma citação, ou uma paródia, com referência implícita. Um excelente anúncio.

Marca: Audi. Título: Final Breath. Agência: Venables Bell & Partners. Direcção: Martin de Thurah. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Consumidor masoquista

Pfizer Animal Health. Koala. Pentamark. Itália, 2007.

Pfizer Animal Health. Koala. Pentamark. Itália, 2007.

Valha-me Santo Antão! Parece uma tentação dos demónios. Está a pegar a figura do consumidor masoquista? Algum estudo internacional, com patrocinadores de topo, universidades de alto ranking, centros de investigação de excelência, supervisão de prémios Nobel, assessoria de imprensa e direcção de um génio desconhecido, descobriu que, na publicidade, o que importa não é convencer, seduzir, comover, envolver ou chocar, mas agredir. Depois da dor, vem o alívio! Não vem?

Marca: Acierto.com. Titulo: Koala. Agência: Remo. Direcção: Marco de Aguilar. Espanha, Julho 2014.

A parábola dos para-choques

O que é que uma mulher e um carro têm em comum?

Marca: Bmw. Título: Eyes on. Agência: Serviceplan (Munich). Alemanha, 2012.

Para bem dos meus pecados

O que motiva a publicidade a convocar cada vez mais valores negativos? O egoísmo, por exemplo. Onde se enfiou a miragem do ser humano perfeito? A propósito do anúncio Monsi, a agência Leo Burnett Argentina explica: “Este comercial sigue con el posicionamiento que venía teniendo la marca. Creo que logramos dar un paso más y hacer una buena evolución de la campaña contando el egoísmo que producen las Tentaciones, sobre todo, si tienen chocolate Aguila”. Que o egoísmo está em alta, não falta quem o proclame há décadas. Que vende bem, também sobram os casos de sucesso. Que o egoísmo se apresente cada vez menos eufemizado e cada vez mais em bruto, eis uma tendência que merece atenção.