Restolho dos Serões dos Medos

A quarta edição dos Serões dos Medos (sexta, 24 de outubro) quase encheu o auditório da Casa da Cultura de Melgaço (com capacidade para 195 pessoas). De ano para ano, cada vez mais jovens e forasteiros. Uma iniciativa original, imaginativa e ousada, a assumir a população, simultaneamente, como protagonista e público. Em suma, um enxerto que pegou no programa mais alargado da Noite dos Medos.

Mal começo a falar, após a exibição do vídeo de apresentação, um frisson de assombro e espanto apodera-se da audiência: uma “alma do outro mundo”, uma noiva penada translúcida, hasteada à minha esquerda, de tamanho natural, põe-se a estremecer teimosa e ostensivamente…
Não tive outro remédio, senão prosseguir o discurso, como se nada fosse.
Imagem: Noiva Penada. Noite dos Medos. Melgaço
Estive demasiado tagarela. Ainda mais do que de costume. Talvez por causa 1) da cafeína da coca-cola que os meus tios me ofereceram, b) de eventuais fluídos de papagaio provenientes da mediunidade da Mariana, sentada, eloquente e bem-disposta, ao meu lado, ou c) da intenção de aliviar a carga sobrenatural com disparates do tipo:
“há uns tempos, não me largavam os pesadelos com entes falecidos. Antes de deitar, bebia café com leite acompanhado com pão e queijo. Por obra e graça de um sexto sentido, antecipei a refeição uma hora. Desapareceram os pesadelos e as visitações do Além”.
Como nas edições anteriores, sem tempos mortos entre as 21 horas e perto das doze badaladas, confesso que acabei por sentir o espírito maligno do tabaco a chamar por mim. No fim, felicitei o Abel Marques pela organização, com destaque para o vídeo de abertura e o efeito da “boneca animada”. Disse-me que não foi de propósito. Pois, pois… acode-me o testemunho contado durante a sessão por um primo:
“O meu avô residia no lugar da Lavandeira e namorava no lugar dos Bouços, ambos da freguesia de Prado, a uma distância de perto de dois km, por carreiros estreitos, num tempo em que não havia eletricidade. Numa noite de luar, quando regressava a casa, a meio do caminho, no lugar da Barronda, sente-se agarrado pelo ombro, faz força para se soltar e vê no chão a sombra de algo que pairava no ar. Desata a correr, sem se atrever a olhar para trás. No dia seguinte, volta ao mesmo local: a boina baloiçava numa silva”.


Até para o ano, se os astros assim o entenderem! Entretanto, na próxima sexta, 31 de outubro, será a vez da Noite dos Medos.
Diabo de guarda
O anúncio neozelandês da Energy Online propõe um dispositivo contra vendedores porta a porta: uma aldraba grotesca mais uma espécie de gárgula gótica, ambas animadas e furibundas. Um susto a dobrar. Com esta parceria diabólica, não há vendedor que se atreva. Este anúncio é fruto da época: aproxima-se o Halloween, a festa do horror para todas as idades. Trick or treat.
Marca: Energy Online. Título: Door Knocking. Agência: Contagion, New Zealand. Direcção: James Anderson & Jess Griffin. Nova Zelândia, Setembro 2015.
Susto
A publicidade também serve para pregar sustos. Neste caso, até faz sentido: trata-se de promover um parque de diversões. A quadra é propícia. Partidas, de bom e de mau gosto, sempre existiram. Algumas, como esta, são impróprias para cardíacos. Às vezes, pergunto: de que matéria somos amassados para apreciar rostos de espanto e medo?
Marca: Grona Lund. Título: The Hounted Poster. Agência: Pool, Stockholm. Suécia, Outubro 2014.
Nódoas assustadoras
Nunca vi um anúncio a detergentes tão disparatado. Estamos habituados a acidentes com sujidade garantida, mas tamanha série de catástrofes é inédita. Alguns episódios, como o do gato, são espantosos. Este anúncio israelita comporta duas características próprias do grotesco: o exagero e a listagem, estudada por Umberto Eco.
Marca: RB / Colon. Título: Colon 101- Removes 101 stains. Agência: Inbar Merhav Nissan. Direção: Adam Sanderson. Israel, Maio 2014.


