Imaginação a dois


O mundo da realidade tem os seus limites; o mundo da imaginação não tem fronteiras (Jean-Jacques Rousseau)
A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro. (Albert Einstein)
Patas de caranguejo

Tinha içado a vela, navegava à deriva obliquamente, como um caranguejo; depois, ao chegar ao fim do seu percurso, corrigia a deriva a baixa velocidade, posicionava-se de lado a três quartos do vento e a sua proa robusta abria-lhe caminho. (Roger Vercel, Remorques, 1935).
Apesar de estar com pouco tempo livre, assoberbado a escrever um capítulo intitulado A Senhora da Cabeça, São Bartolomeu e o sagrado em Penso, dei-me ao luxo, com imenso prazer, de revisitar o artigo A canção da morte a passo de caranguejo, colocado em 11 de setembro de 2017. A primeira parte retoma o artigo A passo de caranguejo. A canção da morte, publicado em 24 de abril de 2015. Versa sobre postais ilustrados, embora o mais interessante não seja o conteúdo, mas a indagação e a digressão, ao jeito de um crustáceo. O resultado não é pequeno. As coisas com que me entretinha em tempos adversos! Quando tiver uma folga, recomendo uma espreitadela. Já agora, o meu signo é o caranguejo.
O avô do surrealismo

Jean I. I. Gérard (1803 – 1847) foi um ilustrador e caricaturista francês que publicou sob o pseudônimo de Grandville (…) Historiadores e críticos da arte chamaram-no de “a primeira estrela da grande era da caricatura francesa” e descreveram suas ilustrações como apresentando “elementos do simbólico, onírico e incongruente”, mantendo um senso de comentário social e “a transfiguração mais estranha e perniciosa da forma humana já produzida pela imaginação romântica” (Wikipedia, 11.08.2026)
O futuro já começou


Os anúncios publicitários propendem a prometer felicidade. Pelo caminho, alguns dão-nos prazer. Por exemplo, os da Sony ou da rival Samsung.
Surrealismo grotesco


Ontem, selecionei quatro “artigos do dia” (27 de junho). Recoloquei apenas dois: “A roseira dos cravos”, de 2014, e “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter”, de 2016, ambos com imagens medievais. Divertido numa sunset party com os alunos de Cidadania, da Academia Sénior do Município de Braga, adiei “Matar o vício”, de 2018, e “A ceia dos pobres (eventualmente chocante)”, de 2013, para o dia seguinte. Ainda considerei colocá-los fora de horas, enquanto Portugal empatava com a Colômbia, mas sabia que arriscava provocar pesadelos…
“Matar o vício” e “A ceia dos pobres” relevam de uma espécie de surrealismo grotesco, mais próximo da conceção de Wolfgang Kayser (Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, 1957) do que da de Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 1941).

Na versão de Wolfgang Kayser, o grotesco gera um sentimento corrosivo de estranheza, em que o mundo familiar se revela, insolitamente, ameaçador e inquietante. Sério e visceral, provoca confusão, desorientação, mal-estar e angústia. Os quadros da chamada fase negra de Francisco de Goya representam um bom exemplo.

Em Mikail Bakhtin o grotesco é, pelo contrário, carnavalesco, animado por um movimento de rebaixamento coletivo, cómico e regenerador. Embora fantástico, desconcertante e excessivo, tende a resultar afirmativo e esperançoso.
Os vários livros de François Rabelais com os gigantes Gargantua e Pantagruel como protagonistas oferecem-se, agora, como um exemplo eloquente.
Em “Matar o vício”, o ambiente dos anúncios da revista Men’s Health é fantasmático, claustrofóbico e sinistro, com a figura do duplo, o outro eu, a insinuar-se como um intruso ambíguo, perturbador e ameaçador, senão fatal.
Com “A ceia dos pobres”, transitamos da publicidade para o cinema. O filme Viridiana (1960), de Luis Buñuel, encena uma paródia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que frisa a blasfémia.
O filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali, destaca-se como um marco incontornável da história do cinema. Não se pode afirmar que propicie boa disposição. Deveras criativo, desconcerta e impressiona, cravando-se, indelével, na memória. Um cúmulo emblemático do surrealismo grotesco ao jeito de Kayser. Não aconselhável a pessoas sensíveis.
Surrealismo grotesco, eis uma noção que pode manifestar-se interessante!
Surrealismo animado à Disney

Sou, afinal, uma pessoa “prendada”! A Ana Paula Alves Pinto enviou-me uma nova relíquia: Silly Symphony – Flowers and Trees, do Walt Disney, um dos primeiros filmes de animação a cores (1932). Persistem, portanto, obras magníficas que datam de há quase um século. Apoquenta-me, contudo, a impressão de que, com meios como nunca para rasgar horizontes, nos esmeramos tanto a estreitá-los.
Extravagâncias surrealistas da idade avançada
Ao Moisés
“É preciso chegar a velho de boa hora para permanecer velho mais tempo” (atribuído a Catão, o Velho, 234 – 149 a.C.; provérbio milenar bastante atual)

“65 anos de estar vivo”! Que quereis que vos diga? Está-me a saber bem a velhice! Mais do que as quatro décadas de atividade profissional e a meia dúzia de anos tóxicos que a antecedeu. Enquanto for possível, houver “saúde, dinheiro e amor” suficientes, entregar-me-ei ao que quero e não ao que os outros requerem. A velhice, além dos netos, tem proveitos e potencialidades apreciáveis. Mais árvore que ruína, encaro-a como um tempo, uma oportunidade, de libertação e esperança. Quem diria?! Efeitos do sol de Moledo, provavelmente…

Afeiçoo-me à velhice tal como adotei a morte como interlocutora (ando a adiar desde 2017 a edição do livro A morte na arte, porventura, para não terminar o namoro). Assim, escutar músicas dedicadas ao envelhecimento releva menos do exorcismo ou da lamentação e mais do encanto ou da celebração. Obtuso? Talvez se assevere um sentimento mais partilhado do que se pressupõe.
Octavio Ocampo. Visions of Quixote. 1989
De qualquer modo, esta espécie de “proclamação” traduz um estado de alma prenhe de visões quixotescas acalentadas por um aniversariante mimado… Não sendo a vida constante, outros seguirão. Tão certo como, agora, estas cinco velhas e belas canções castelhanas.



