Lama, excrementos e porcos (revisto)

Acontece desejar esquecer-me. De mim, claro! Rumo a um grau zero de reflexividade. Com o esplendor da técnica, há tanta mezinha para alívio da consciência interior. Mas é sonho impossível! Há sempre quem se lembre que existo, faço, penso, sinto e quero. Apetece mandar estes despertadores da subjectividade alheia chafurdar no charco da Dança do Cego, da Bugiada de Sobrado, em Valongo. Ou pegar “porcos bravos” no redondel de lama de Covas, em Vila Nova de Cerveira; de Romarigães, em Paredes de Coura (https://www.youtube.com/watch?v=3DPqOsEFfQY; este vídeo foi, entretanto, removido pelo YouTube provavelmente para proteger a imagem dos humanos); ou de S. Julião, em Valença (https://www.youtube.com/watch?v=geibjf60xOE). Temo, porém, que, adubados e enlameados, revigorem o assédio e a impertinência.
Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira.
Nos momentos sedentos de paz interior, costumo trautear uma canção, pouco conhecida, dos Doors: The mosquito (1972)!
E depois do adeus
Não se brinca com o fogo, com Deus, com os sentimentos, com a sombra… E com a morte? Num anúncio recente, uma viúva bebe chá com as cinzas do marido defunto (O cão que sabia demais). Neste anúncio, um cadáver é alvo de cosmética inconveniente. Sempre se brincou com a morte, realidade demasiado séria. Em tempos, não se brincou tanto quanto parece: as imagens medievais que, agora, consideramos engraçadas, como as danças da morte, não tinham, então, graça nenhuma. A relação actual com a morte é ambígua. Oscila entre o limpo e o sujo: a morte asséptica convive com a morte poluída. Por exemplo, a cremação de um morto e a exibição de cadáveres nos maços de cigarros.
Marca: National Jazz Awards. Título: Death becomes you. Agência: DDB Toronto. Direcção: Josefina Nadurata / James Davis / Jen Walker. Canadá, 2005.


