Pintarolas
A criatividade e o absurdo também se consomem. Com humor e gula!
Boa Disposição Divina (continuação)
Ontem, mudança na medicação: mais contra a tensão, menos calmante. Hoje, sinto-me quebrado. Nem sequer tive disposição para assistir à Liberdade à Deriva (Dia do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura). Afundei-me numa sesta arrastada.

Com alguma ajuda, por modesta que seja, os caminhos tornam-se mais acessíveis e amplos. Reagindo ao artigo “Boa Disposição Divina. A Virgem e o Menino Sorridentes”, uma amiga enviou-me uma imagem com a estatueta da Virgem com o Menino, dita da Sainte-Chapelle, datada do século XIII e localizada no Museu do Louvre (Figuras 16 e 17).
Resultam deveras gratificantes estes retornos.
Uma imagem desconhecida é fonte, ponte ou porta para outras, avulsas ou em cadeia, num efeito multiplicador. A partilha amiga ofereceu-se, portanto, como um estímulo, ou desafio, para retomar a busca.
Figura 13. Vierge à l’Enfant. Ca. 1240 a 1260. Ivoire. Musée de Cluny
Adoro esgaravatar, como as galinhas. É um vício. Não me recordo, por exemplo, de colocar os pés na praia de Moledo e resulta raro sentar-me nas esplanadas. Em contrapartida, não perco a mínima oportunidade para ir até à zona dos rochedos.

As pessoas que me acompanham costumam entreter-se a apanhar “beijinhos”, umas conchas minúsculas. O meu alvo é ainda mais raro e exigente: picos e bifaces pré-históricos, que remontam ao Paleolítico. De insucesso em insucesso, a coleção cresce. Há quem goste de oferecer flores do jardim, o meu cúmulo é surpreender com picos apanhados na areia ou resgatados de poças de água salgada, com sérios riscos de, apesar da bengala, escorregar e dar uma queda.
Picos descobertos em Moledo
Esgaravatar é um vício facilitado pela Internet. Em dois dias, o número de imagens guardadas na pasta “Virgem e Menino Sorridentes” disparou de meia dúzia para mais de uma quinzena (Figuras 13 a 27), excluindo aquelas em que a Virgem esboça um sorriso à Gioconda. Quase todas provêm do século XIII e da primeira metade do século XIV. A maioria é em marfim e provém da região parisiense, berço do estilo gótico.
Segue a colheita mais recente, mas, espero, não a definitiva. Repare-se que na figura 27 até os leões riem!
Galeria de imagens com a Virgem e o Menino Sorridentes (continuação)














Caras sorridentes

I just want to celebrate another day
Oh, I just want to celebrate another day of livin’
I just want to celebrate another day of life
Don’t let it all get you down, no, no
Don’t let it turn you around
And around and around and around and around
Round, round, round
Round, round, round, round, round
Don’t go round(Rare Earth. I Just Want To Celebrate. 1971).

Rare Earth é o nome de uma excelente banda dos anos sessenta e setenta bastante ignorada na altura e muito esquecida depois.
Small Smile Blue
Not selfie as Mona Lisa. Photography by Conceição Gonçalves.
Um esboço de sorriso azul! Estou quase recuperado. Quase. Seis meses após o internamento nos cuidados intensivos, debato-me com hérnias, contraturas e dores por todo o corpo. As pernas e o equilíbrio ainda não se dão ao luxo de uma dança, nem sequer um blues arrastado. Nos próximos dias, entre ecografia, análises e consultas, repartidas por cinco especialidades, acumulo sete atos médicos. Continuo a fazer fisioterapia três dias por semana. Quase não saio de casa. Não é um queixume. Sinto-me bem, muito bem! Após vários anos sempre a piorar, melhorar todos os dias representa um alívio abençoado, um incomensurável prazer. Uma regeneração! Sinto-me confiante. Trata-se apenas de um alerta, um testemunho, às pessoas medicadas com lítio: prestem a maior atenção aos respetivos efeitos, mesmo quando os resultados das análises se mantêm no intervalo dos valores terapêuticos, como foi sempre o meu caso. Contanto invulgar, a intoxicação por lítio não é um acidente meigo. O lítio não consta dos metais queimados pelos nascidos das brumas (Brandon Sanderson. O Império Final. 2006).
Um sorriso vale mil desculpas
E quantas lágrimas vale? Às vezes, é de chorar a rir; outras, chora-se e ri-se ao mesmo tempo. Quantas lágrimas são precisas para secar um sorriso? E para o congelar? Há algo mais cativante e mais contagioso do que o riso? O sorriso feminino seduz mais do que o masculino? Por que é a desgraça alheia tão risível? Os anúncios piscam-nos o olho com um sorriso? O absurdo serve-se com humor.
Marca: Trident Total. Título: Traffic Police. Agência: Saatchi & Saatchi Colombia. Direção: Alejandro Carreño. Colômbia, Julho 2013.
