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Transições e variações

“Mas, para além da figura do puzzle, o movimento de “decomposição de uma ordem e composição de uma desordem” comporta, ainda, a ideia de descentramento, se não de uma fragmentação policêntrica. Esta cosmogonia, este modo de estar e de sentir o mundo, remonta aos tempos de Giuseppe Arcimboldo abalados pela revolução Kepleriana que tanto influenciou a mundividência barroca. Com Johannes Kepler (1571-1630), o centro, que Copérnico deslocara da Terra para o Sol, perde-se no infinito: “Este pensamento – a infinitude do Universo – implica não sei que horror secreto; de facto, encontramo-nos errantes no meio desta imensidade a que recusamos qualquer limite, qualquer centro, ou seja, qualquer lugar determinado” (Kepler, 1609, citado por Severo Sarduy, Barroco, Paris, Ed. de Minuit, 1975: 89). Um sentimento partilhado por Blaise Pascal (1623-1662) que confessava: “O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me” (Pensamentos, 1ª ed. 1670).

Este descentramento marca também a nossa experiência. Deambulamos sem ponto fixo. Filhos da compressão do tempo e do espaço, comprazemo-nos com o simulacro, o zapping e o flash. “Vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, atirados de um lado para o outro”, o que é um jeito de navegar numa “esfera cujo centro está em toda a parte, a circunferência em parte nenhuma (Blaise Pascal, Pensamentos, 1ª ed. 1670). Nada, porém, que uma boa publicidade não possa contemplar. Por exemplo, o anúncio Worlds da Ford (Ford S-Max, Velocity Films, República da África do Sul, 2006). Um homem pega numa maçaneta, atravessa uma parede e entra num cenário de deserto; novo golpe de maçaneta, e passa para uma paisagem de neve; de porta em porta, segue-se um observatório, o oceano e, por último, um automóvel, que, num ápice, o transporta para uma estrada de montanha. O mundo da vida surge, assim, associado a um zapping numa espécie de origami japonês, dobrado e desdobrado à velocidade de um flash.” (Albertino Gonçalves, “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, Vertigens: Para uma Sociologia da Perversidade, Grácio Editora, 2009, pp. 47-63).

Recordo este excerto a propósito do anúncio All it takes is a Yes, da Lufthansa, lançado este mês. Qualquer semelhança com os anúncios Worlds, da Ford, The Dream, da Motorola ou Sony makes believe it’s everywhere, da Sony, é mera coincidência. Apenas, homólogos, partilham o mesmo modelo ou conceito: transição mágica disruptiva entre mundos ou momentos distintos.

Estive para intitular este artigo “Mais do mesmo”. Não seria justo! Constituem versões que valem por si, variações que acrescentam valor. Como escreve João Capela: “Haverá sempre um antes, e um antes do antes. Melhor é sempre o que vem depois, enaltecendo ou divergindo, acrescenta sempre”. E, como costume, os gostos dividir-se-ão, para enriquecimento geral.

Seguem os quatro anúncios, do mais recente para o mais antigo. Para acompanhar, o Adagio das Variações Goldberg, de J. S. Bach, interpretadas por Keith Jarrett.

Marca: Lufthansa. Título: All It Takes Is a Yes. Agência: Serviceplan Germany. Direção: Niclas Larsson. Alemanha, fevereiro 2025
Marca: Sony. Título: Sony makes believe it’s everyshere. Agência: 180 Amsterdam/LA. Direção: Noam Murro, 2009
Marca: Motorola Razr2. Título: The Dream. Agência: Cutwater San Francisco. Direção: Michel Gondry, USA, 2007
Marca: Ford S-Max. Título: Worlds. Produção: Velocity Filmes. República da África do Sul, 2006
J.S. Bach: Goldberg Variations, BWV 988: Var. 25. a 2 Clav. Adagio. 1741. By Keith Jarrett, 1989

Poesia audiovisual

De poesia em poesia: da “política” de Léo Ferré para a “comercial” da Sony, declamada por Leonard Cohen.

Marca: Sony. Título: Two Worlds. Agência: Grey (London). UK, 2011

Cenas

Fotografia de Álvaro Domingues. Habituei-me a chamá-la A Catedral

Entretive-me a procurar anúncios da Sony nos ficheiros do computador. Encontrei algumas relíquias. Dedico estes dois, com sequências de cenas quase fotográficas, ao Álvaro Domingues e à Almerinda Van Der Giezen. Lembranças do Natal, lembranças de sempre.

Imagem: Fotografia de Almerinda Van Der Giezen. Chamo-lhe Ofélia ou Rosa sobre Azul

Marca: Sony HD. Título: Beauty. Agência: Y&R, Singapore. Direção: Sam Tootal, 2010
Marca: Sony. Título: Soundville. Agência: Fallon London. Direção: Juan Cabral. UK, 2009

Petiscos

Mosaico romano com restos de um banquete. 20 ac – 200 dc. Museu Arqueológico Nacional de Aquileia.

Quando um anúncio antigo me chama a atenção, acode-me quase sempre uma dúvida: será que já o coloquei? Tenho que pesquisar para confirmar. Na verdade, o Tendências do Imaginário ultrapassa os 4100 artigos e a memória não ajuda.

Desta vez, confirma-se: já tinha publicado o anúncio “Sushi”, da Sony, em fevereiro de 2021. Mas fruto das inconstâncias e das filtragens da Internet, o vídeo está  indisponível e a imagem ausente; apenas o texto e as legendas (ver https://tendimag.com/2021/02/19/a-estetizacao-dos-alimentos/). Entendo não restaurá-lo, preservando-o como testemunho da vulnerabilidade digital. Limito-me, portanto, a retomá-lo.

A estetização dos alimentos

Mosaico romano. Séc. II. De uma villa em Tor Marancia, perto da Catacumba de Domitilia. Galeria dos Candelabros. Museus do Vaticano

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: Sony. Título: Sushi.  #4k Real 4k demo. 2019

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Pelos vistos, tenho uma aparência de mimalho. O que não significa que dispense mimos. Talvez seja fama sem proveito! Poucas pessoas possuem consciência disso. A Beatriz é uma das excepções. Não só me visita com alguma regularidade como costuma trazer numa cesta de Capuchinho uma prenda irresistível: um belo quindim com receita à maneira. O meu bolo preferido, nem mais, nem menos!

A estetização dos alimentos

Still-life. Mosaic, Roman artwork, 2nd century CE. From a villa at Tor Marancia, near the Catacombs of Domitilla.

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!

Marca: #Sony #4k Real 4k demo Sony. Título: Sushi. 2019.

Água do deserto

Sony Bravia. Desert Water. 2019

Os anúncios da Sony são extraordinários. Efeitos visuais fabulosos e uma estética fantástica. No anúncio Desert Water, o som é vedeta. Sai, incluindo a voz de Grace VanderWaal, do próprio ecrã. Uma gota de água avoluma-se, através de um dominó de monitores, até se despenhar numa cascata. O som, portentoso, é imersivo. Tão real como o real!

Da série de anúncios a televisores da Sony, o meu preferido é o Balls, de 2005 (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). Recordo, não obstante, o Strangely Beautiful / Ice bubbles, de 2014.

We soon see the beginning of life, as a single drop of water emerges into the scene through a BRAVIA AG9 TV. The drop turns into a river as the music grows to match its intensity and strength. As the spot leads us through an ever-emotive experience, we witness the river becoming a beautiful waterfall, a climatic finish that lets the viewer be immersed in sound and vision (Innocean).

Marca: Sony. Título: Desert water. Agência: Innocean. Reino Unido, Maio 2019.
Marca: Sony. Título: Strangely Beautiful / Ice Bubbles. Agência: Adam&Eve BBD (London). Direcção: Leila & damien de Blinkk. Reino Unido, 2014.

Oração

Diego Velázquez. Cristo Crucificado. ca. 1632.

Diego Velázquez. Cristo Crucificado (detalhe), ca. 1632 .

Porque gostas, Senhor, de quem gosto? (AG).

Não sei rezar! Peço emprestada uma oração: a Prece de Fernando Pessoa (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ática. 1966) declamada por Maria Bethânia.

Prece, poema de Fernando Pessoa declamado por Maria Bethânia. Pintura: Cimabue, Crucifixo (detalhe), 1268-71.

Prece, de Fernando Pessoa. Letra.
Senhor, que és o Céu e a Terra, que és a Vida e a Morte
O Sol és Tu e a Lua és Tu e o Vento és Tu, também
Onde nada está, Tu habitas
Onde tudo está – (o Teu templo) – eis o Teu corpo
Dá-me alma para Te servir e alma para Te amar.
Dá-me vista para Te ver sempre no Céu e na Terra
Ouvidos para Te ouvir no Vento e no Mar
E mãos para trabalhar em Teu nome. 

Torna-me puro como a Água e alto como o Céu
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos
Nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos
E Te servir como a um pai.
Minha vida seja digna da Tua presença
Meu corpo seja digno da Terra, Tua cama
Minha alma possa aparecer diante de Ti
como um filho que volta ao lar 

Torna-me grande como o Sol
para que eu Te possa adorar em mim
Torna-me puro como a Lua
para que eu Te possa rezar em mim
E torna-me claro como o Dia
para que eu Te possa ver sempre em mim
Senhor, protege-me e ampara-me
Dá-me que eu me sinta Teu

Olhos magoados

Screen eyes

Em relação às novas tecnologias, agradecia mais humor e menos sentença. O anúncio Screen Eyes, da Optex, é bem-vindo. Prevê-se o aumento de artigos complementares dos tablets, do tipo hands-free, selfie stick, headphones ou irritated eye spray. Escrevi headphones? Escrever em inglês sabe tão bem. Em português, escreveria auscultadores, mas headphones tem outra classe. Traduzindo à letra, uns headphones são uns fones da cabeça; com mais rigor, são uns transmissores electrónicos de som da cabeça. Em português, diz-se auscultadores, aparelhos de som para ouvir pelos ouvidos. Parece-me mais sensato.

Marca: Optrex. Título: Screen Eyes. Agência: Havas (London). Direcção: Owen Harris. Reino Unido, Outubro 2017

Death Stranding

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O meu rapaz mais velho, o João, ofereceu-me este excelente artigo. Vai resgatar o Tendências do Imaginário da sonolência que o traz enfeitiçado.

Hoje faço uma breve interrupção na revisão de artigos para responder a um desafio que me foi colocado diversas vezes pelo meu pai, contribuir para o blogue dele. Tendo tropeçado na morte, um dos seus assuntos predilectos que é também o tema central de um projeto na Universidade do Minho, pareceu-me a ocasião apropriada para o fazer.

Death Stranding é um videojogo para Playstation 4 que será publicado pela Sony Interactive Entertainment. Se o título deixa antever temas nefastos, o trailer em que o jogo foi revelado confirma essa intuição.

Sem qualquer contexto, dificilmente poderíamos concluir que as imagens estão associadas a um videojogo. Por entre as carcaças de animais marinhos, cordões umbilicais e a nudez de Norman Reedus é necessário um exercício de criatividade para pensar como é que este deambular apocalíptico se poderá transformar em algo jogável. Há, no entanto, alguns fatores externos que ajudam a legitimar este delírio, o envolvimento de um grande estúdio da Sony, a contratação de atores conhecidos e, acima de tudo, a associação ao nome de Hideo Kojima, uma das mentes mais criativas e célebres do mundo dos videojogos. Hoje foi divulgado o segundo trailer.

Quando Pac Man era ‘morto’ pelos fantasmas era o sinónimo do fim-do-jogo, do recomeçar. Quando se tornou possível salvar o jogo, a morte passou a ser apenas um contratempo. Em grande parte dos jogos de atirador na primeira pessoa (FPS) o que vem a seguir à morte não é um renascer, mas um reaparecimento. O revive deu lugar ao respawn. Jogos como Dark Souls tornam-se célebres por nos matar implacavelmente vezes sem conta, castigando o mais pequeno erro dos jogadores. Ainda no mesmo jogo, é possível ver o fantasma de outros jogadores que morreram perto de nós, transformando a morte numa experiência coletiva de aprendizagem. Em Nier, quando tentamos passar o jogo pela segunda vez, descobrimos as atrocidades que cometemos da primeira vez quando é dada voz (e humanidade) às sombras que erradicamos. No mesmo jogo, passado pela terceira vez, o jogador é confrontado no final com a escolha de fazer um sacrifício para salvar outra personagem. Este sacrifício não só resulta na morte do personagem controlado pelo jogador, como na eliminação efetiva de todos os dados gravados do jogo na consola, sendo o jogador impedido de criar outra personagem com o mesmo nome. A morte permanente (permadeath) é um pleonasmo que só faz sentido como resposta à excessiva leveza que a morte adquiriu no universo dos videojogos. Estes são apenas algumas das muitas interpretações que são dadas à morte pelos videojogos, estando sem dúvida omissas contribuições notáveis tanto de grandes produtores como de criadores indie.

Nenhum outro meio nos mata da mesma forma que os videojogos e talvez isso justifique este entusiasmo com Death Stranding. Quando menos esperamos, aparece um título que desafia as convenções estabelecidas para a morte nos videojogos e que nos leva a uma nova forma de jogar. Esta recente criação de Kojima até pode revelar-se uma desilusão, mas até ao seu lançamento irá estimular a imaginação de milhões de jogadores que tentam decifrar o jogo que se esconde entre os cadáveres.

Fotogenia

Albert EinsteinPor que motivo Einstein mostra a língua? É um dos mistérios do século XX, agora desvendado pela Sony graças a uma alta tecnologia de reconstituição fotográfica. Afinal, Einstein está a colar envelopes de correio, sendo a língua o humidificador. Quem pensou noutro motivo, pecou. Noutra fotografia célebre, o riso de Marilyn Monroe ofusca o sorriso da Gioconda. Funciona, segundo a Sony, como um recurso para se livrar de apuros. Quem pensou numa virtude, errou! Ambos os casos convocam a sedução: Einstein seduzido pela gula, Marilyn, sedutora por conveniência.

Marca: Sony Cybershot. Título: Einstein. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.

Marca: Sony Cybershot. Título: Marilyn. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.