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Umbigos flácidos

Quino. Quién anda ahí? Ediciones de la Flor. 2016.

Dizem que o mundo está líquido, como a lama. Pois, deixá-lo estar. Mas duvido. Continuo a dar cabeçadas. E se está mole, depressa fica vertebrado: atente-se na experiência do confinamento; até aos cemitérios e às urnas chegou o decreto de Estado. Isto anda mole? Se essa é a vossa opinião… Quando brilham os faróis, escurecem os pirilampos. A ser verdade, esta história da moleza tem consequências. Sem verticalidade nem consistência, não há lugar para pessoas firmes e hirtas, “feitas de uma peça só”. Onde vamos pendurar a honra? Neste mundo de plasticina estaladiça e identidades fugidias, hesita-se em firmar compromissos com quem quer que seja, cara de  roleta ou pés de barro. Numa sociedade sem honra nem narrativa, assiste-se ao milagre da multiplicação dos umbigos flácidos. Só quebra quem não torce. Kurt Cobain partiu.

Nirvana. All Apologies. In Utero. 1993. Live On MTV Unplugged, 1993.

Manifesto contra a liquidez

quinoterapia

Quino. Quinoterapia. 1995.

Em O Amor Líquido (Relógio D’Agua, 2008), o sociólogo Zygmunt Bauman diagnostica um afrouxamento dos laços sociais. Mais passageiros e mais “escorregadios”. Pois o anúncio Valores, da MoviStar, parece um manifesto contra a liquidez. Atente-se no texto:

Dizem que o Natal já não é como dantes
Dizem que hoje as crianças já não escrevem cartas
Que já não nos olhamos nos olhos
E que se perdeu a magia
Dizem que antes eramos felizes com nada
Que já não compartilhamos
Dizem que hoje não ajudamos sem pedir algo em troca
E que já ninguém se coloca no lugar do outro
Dizem que as famílias já não estão unidas
Que digam o que quiserem.

As imagens do anúncio revelam o contrário. Curiosamente, trata-se de um anúncio de uma operadora de telecomunicações. Poucas profissões lidam tanto com os valores como a publicidade. Investiga-os e mobiliza-os. Na sociologia, um erro corrige-se, na publicidade, paga-se. Não se pode sustentar que a publicidade é anti-líquida; muitos anúncios apostam na liquidez, mas numa liquidez que pode vir de longe, como de longe vem a “solidez” do espírito de Natal. A contemporaneidade é sólida e “desfaz-se no ar”? Ou é líquida e escorre por entre os dedos? Talvez sólida como a areia e líquida como os coágulos.

Marca: MoviStar. Título: Navidad “valores”. Agência: Dhélet Y&R Latam. Direcção: Maxi Blanco. Argentina, Dezembro 2016.