Smartphone
Só a música pode falar da morte (André Malraux, [1933] (1946), La condition humaine, Paris, Gallimard, p. 334)
O mundo é um espanto. No anúncio Relove, da Telefónica, a técnica salva-nos da própria técnica! Já tinha saudades destas dialécticas! Um casal, que o smartphone desencontra, reencontra-se graças ao smartphone. Live more love!
Existem objectos que são, simultaneamente, pessoais e civilizacionais. Alguns dignos de acompanhar o morto no outro mundo. Por exemplo, o relógio ou a aliança. Acrescento o smartphone. O relógio para não se atrasar na travessia, o anel para amar eternamente, e o smartphone para ouvir, no silêncio escuro, Fernando Pessoa e Maria Bethânia.
Marca: Telefónica. Título: Relove. Agência: África, São Paulo. Direcção: Vellas. Brasil, Junho 2017.
Maria Bethânia. Sonho Impossível. Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo. 1975. Poema de Fernando Pessoa.
Perdido

The Moody Blues
Conhece uma ilha de sonho? Esta é mais fantástica! Umas férias do outro mundo. Só, com a sua sombra! Sem que ninguém se aperceba. Mar, praia, palmeiras, caranguejos, coelhos… Tudo gratuito, ao seu alcance por um gesto: mandar o telemóvel às urtigas! Não é bem esta a mensagem do anúncio nigeriano Lost, da Airtel. Sem telemóvel, um indígena do século XXI não é nada. Um Robinson Crusoe descompensado. E a festa ali tão perto! Não vá o diabo tecê-las, acrescento uma canção dos Moody Blues para, caso disso, ouvir na ilha.
The Moody Blues. Lost in a lost world. Seventh Sojourn. 1972
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.
Marca: Airtel. Título: Lost. Agência: Noha’s Ark Lagos Nigeria. Direcção: Bruce Paynter. Nigéria, Novembro 2016.
Distracção fatal
A publicidade anda necrófila. Volta e meia, repete o mote: “Se insistir, morre!” A Maria João enviou-me o anúncio suíço “Anastase: The Magic Trick”, da Polícia de Lausanne. Escrever mensagens e ouvir música num smartphone na rua é fatal. Como ilustração, um jovem é atropelado por um carro. “Abracadabra! Se tu também queres realizar este truque incrível [a morte], basta um telefone móvel, alguns excertos de música, uma aplicação sms e, sobretudo, um pouco de inatenção”. Com humor negro, ficamos elucidados: o abuso do smartphone mata. Como o álcool, a droga, a obesidade, o tabaco.
Desconversemos.
O uso indevido do smartphone mata. E o resto, não mata, nem morre? Eis uma pitada de absurdo lógico.
A política, o desporto, o amor, o sexo, o sol, os medicamentos e os hospitais, não matam? Até o ridículo.
A OMS, que se presta a estes alertas, bem podia discriminar uma lista exaustiva com tudo quanto mata. Morreríamos mais felizes, para sempre!

Campanha contra a obesidade
O meu rapaz, que detesta absurdos lógicos, corrige: sustentar que o uso indevido do smartphone mata não significa que a ligação seja linear nem geral. Basta meia dúzia de vítimas para se poder afirmar que o “smartphone” mata. Assim, relativizada, a sentença de que o smartphone mata tende a esvaziar-se. O que incha, desincha e passa. O uso do smartphone na rua não mata, pode matar. Matar, sem mais nem menos, é um concentrado votado à propaganda.
Segundo a Polícia de Lausanne, na Suíça, em 2013, “1100 pessoas foram gravemente feridas ou faleceram devido à distracção. Entre os peões, 66% reconhecem que telefonam ou ouvem música durante as suas deslocações a pé”. Algumas informações têm o condão de desinformar: das 1100 pessoas, quantas morreram? Para além do smartphone, que outras fontes de distracção estão contempladas? Os números prestam-se a diversas embalagens.
Anunciante: Police de Lausanne. Título: Anastase: the magic trick. Direcção: Raphael Sibilla & Jerôme Piguet. Suíça, Maio 2015.
Para além da tecnologia
“Vimos algo muy cierto en estos tiempos, y es que las personas ya no eligen un producto solo porque tenga buena tecnología, sino porque existe una buena gestión de la marca, un diseño único y una excelente comunicación de por medio. La tecnología, por sí sola, ya no es suficiente para el éxito”.
(Tin Sánchez e Fernando Ivo, directores criativos executivos da campanha).
Este anúncio da Cibertec (Perú) é convincente. Pela escolha do smartphone como objecto técnico, pela inscrição dos três novos cursos da Cibertec (Design, Gestão e Comunicação) e pelo objectivo: conseguir que os “chicos se sientan movidos a optar por un instituto que vaya más allá de enseñar solo tecnología” (Claudia Horna, directora de marketing da Cibertec). Este discurso por parte de uma escola centrada nas tecnologias é admirável. Reconheça-se ou ignore-se, a realidade espera-nos. E a realidade é mais construída pelos homens do que pelas coisas.
Marca: Cibertec. Título: Smartphones. Agência: Young & Rubicam Perú. Direcção: Toño Sarria. Perú, Setembro 2015.




