Abraço digital

Não esqueças que o teu filho não é teu filho, mas o filho do seu tempo. (Confúcio)

Na tarde de sexta, 28, a família dividiu-se. O filho defendeu provas de doutoramento em Engenharia Mecânica, em Guimarães e o pai teve a conferência “Com o Filho no Colo: as esculturas da humildade e da piedade” em Braga. O abraço acabou por resultar extemporâneo. Compenso com este digital. Como não me sobra frescura, recorro a memórias musicais de estimação. [Não vai ter tempo para escutar]
Dois amores

A música fascina-me; a ciência massaja-me. Entre uma peça musical e um discurso académico não hesito. Costumo iniciar os encontros que organizo com um momento musical. A bênção antes da penitência. Se o charme da ciência não se extraviar, teremos, um dia, comunicações cantadas. Já coloquei, no Tendências do Imaginário, o Concerto para piano nº 2, de Dmitri Shostakovich. Não me importo de o repetir nem que seja uma centena de vezes. Não o faço com um discurso académico. Na verdade, não “nasci p’ra música”, como o José Cid, mas para a ciência, com os seus benefícios e os seus custos. Acrescento uma estreia: o Romance, de Dmitri Shostakovich.
O nariz
O nariz é um órgão injustiçado. Abaixo dos olhos (ai os olhos!), acima dos lábios (ai os lábios!), o nariz (ui o nariz!) fica entre as orelhas (ui as orelhas!). O nariz é um órgão simbolicamente menosprezado. Não fosse Cleópatra e a humanidade nunca teria um nose turning. Graças ao anúncio da companhia de seguros Geico, deparamo-nos com narizes músicos, o que já se previa. Abusando da imaginação, as trompetas de Jericó foram, na realidade, narizes. No anúncio, o avô adormecido toca com o nariz o Flight of the Bumblebee, de Rimsky-Korsakov (ver https://tendimag.com/2018/06/12/chuva-dissolvente/). Mas que tem este concerto nasal a ver com uma companhia de seguros? Assim como os cirugiões seguram as mãos, urge meter no seguro o nariz do avô e do cão.
Marca: Geico. Título: Grandpa´s Nose Solo. Estados Unidos, Outubro 2018.
O anúncio Grandpa’s Nose Solo lembra a ópera O Nariz (1928), de Dmitri Shostakovich, inspirada no conto homónimo de Nicolai Gogol, publicado em 1836. Na Metamorfose (1915), de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em insecto. Na ópera de Shostakovich, o Major Kovaliov acorda sem nariz. Para não tentar a desgraça, convém desligar os pesadelos ao acordar.
Dmitri Shostakovich. The giant tap-dancing noses scene. The Nose (1928). The Royal Opera.
A verruga
Uma pessoa habitua-se ao estranho: mãos, pés e órgãos genitais que se autonomizam e adquirem vida própria já não espantam. Até “o nariz” se separa do dono no conto de Nicolau Gogol (1836) e na ópera de Dmitri Shostakovich (1930). Mas uma verruga, nunca tal se viu! Os brasileiros não estão para meias medidas. Num anúncio que dura mais de cinco minutos, o Clube de Criação de São Paulo segue os passos de uma verruga que, uma vez liberta, logra uma vida de sucesso. A fama ultrapassa fronteiras. Portugal já convidou a verruga para um workshop dedicado ao empreendedorismo no estrangeiro. É bom regressar ao Tendências do Imaginário. A escrita de um prefácio manteve-me absorto.
Anunciante: Clube de Criação de São Paulo – CCSP. Título: The Fall and Rise of the Mole. Agência: Borghi/Lowe. Direcção: Carlão Busato. Brasil, Março de 2015.


