De saída
Estamos de saída. “Partem velhos e novos”. “Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão”. Para o estrangeiro ou para o purgatório. O mundo não é um baloiço, é um trampolim. Estas duas canções francesas falam da partida. Dos velhos e dos amigos, sem esquecer os que ficam. Duas excelentes prestações ao vivo de Daniel Guichard (Mon vieux, um cover de Jean Ferrat, 1962) e Jean-Jacques Goldman (Puisque tu pars, 1987). Pressinto que não vão gostar. Sempre que se proporciona, insisto em colocar um “tesourinho deprimente” italiano, francês, espanhol ou português. Neste capítulo, não coincido com o Estado Português. O meu mundo é latino e a minha língua não se esgota na tradução. Não é uma “língua à vinagrete”.
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Daniel Guichard, Mon Vieux, original de Jean Ferrat, 1962.
Jean-Jacques Goldman, Puisque tu pars, 1987.
Teledesejo
Penélope transformou o teledesejo em tapeçaria. Na Idade Média, os cavaleiros andantes queriam-se teledesejantes. A saudade é teledesejo embalado no colo dos dias vazios. E, no entanto, os corpos movem-se. Mas o desejo voa!
José Afonso, Menina dos Olhos Tristes, 1969.
Afrodisíaco de Estado
As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?
Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.
Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.
Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!
The earth is my grave: Don McLean.
Estreado em 1971, o álbum American Pie, de Don McLean, conheceu um enorme sucesso. Don McLean não é fácil de esquecer. Filmes e covers não param de nos beliscar. Do álbum American Pie, é complicado destacar uma música. As audiências apontam para American Pie e Vincent. Vincent é incontornável, mas American Pie tem concorrentes. Por exemplo, The Grave e Empty Chairs.
Sherlock Holmes acreditava que o cérebro era como uma caixa. Depressa se enchia; cada coisa que nele colocássemos, outra tinha que sair. Era, por isso, avisado filtrar o que se coloca no cérebro. Não acredito nesta teoria do Sherlock Holmes, caso contrário teria mais cuidado com a publicação destas memórias fundidas. Só não está no cérebro o que lá não entra.
He crouched ever lower, ever lower with fear.
“They can’t let me die! They can’t let me die here!
I’ll cover myself with the mud and the earth.
I’ll cover myself! I know I’m not brave!
The earth! the earth! the earth is my grave.”
Don Mclean. The Grave.
Don McLean. The Grave. American Pie. 1971.
And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did I never thought you would
Don Mclean. Empty Chairs
Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1971. Ao vivo.






