Tag Archive | separação

Estética da guerra

Bruno Aveillan é o Bernini da publicidade. Habituou-nos a vídeos belos, lentos e poéticos. Não é o caso deste “Eternels”, para o parque temático Puy du Fou, o segundo mais visitado em França a seguir à Disneylândia. O anúncio é brutal, acelerado e fragmentado. A sucessão de cenários lembra o anúncio Handle Doors, do Ford S-Max (incluído no vídeo A Construção do Impossível). De violência em violência, o anúncio regride desde as trincheiras da I Guerra Mundial até a um circo romano, para regressar no fim ao início: uma mulher despede-se do homem compartilhando uma fotografia rasgada, presente em todos os episódios. Bruno Aveillan, mais que um contador, é um encantador de histórias.

Marca: Puy du Fou. Título : Eternels. Agência : Les Gros Mots. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2019.

O anúncio de Bruno Aveillan Dolce Vita, para a Gaz de France, fecha a sequência de anúncios associada à comunicação “A Construção do Impossível” (2009), que versa sobre o espaço nos anúncios publicitários. Creio que ainda não a coloquei no Tendências do Imaginário. Como nenhum tesourinho deprimente merece aparecer só, acrescento o artigo correspondente: “Como nunca ninguém viu – O olhar na publicidade” (in Martins, Moisés de Lemos et alii, Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Editor, 2011, pp. 139-165).

Albertino Gonçalves. A construção do impossível. Encontro O Espaço em Todos os Sentidos, CECS, Museu D. Diogo de Sousa, Braga, 23 de Abril de 2009.

Não me consigo desligar

Hoje regressei de Melgaço. Dormi na casa de infância. Não acontecia há décadas. Melgaço anda a mimar-me. Durante a viagem, ouvi Damien Rice. Segue uma canção ao vivo (The Blower’s Daughter) e um vídeo musical (I Don’t Want To Change You, creio que uma adaptação).

Damien Rice. The Blower’s Daughter. Álbum O. 2002. Ao vivo: Sessions@AOL, 2003.
Damien Rice. I Don’t Want To Change You. Álbum My Favourite Faded Fantasy, 2014.

Bom dia, tristeza!

La Wally. Cartaz

La Wally. Cartaz.

“Bonjour tristesse” (Françoise Sagan)! A separação consta entre as mais temíveis experiências do ser humano. Não existe alma imune. Maria Callas canta a separação na ária Ebben? Ne andrò lontana, ópera La Wally Acto 1, do compositor italiano Alfredo Catalani, estreada em 1892.

Oh casa feliz da minha mãe
A Wally partirá para longe de ti, de ti
Muito longe, e talvez a ti
E talvez a ti, nunca mais regressará
Nunca mais a verás!
Nunca mais, nunca mais!
(Excerto de Ebben? Ne Andrò lontana; minha tradução).

Maria Callas. Ebben? Ne andrò lontana, La Wally Acto 1, Compositor Alfredo Catalani. 1892.

Até que a morte nos separe

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway.

Na Internet, esta escultura de Gustav Vigeland aparece quase sempre intitulada: “Até que a morte nos separe” (Till Death Do Us Part). A designação original é: “Death Parting Man and Woman (“A Morte Separando um Homem e uma Mulher”). O sentido é praticamente o mesmo: a separação pela morte.

Apetece-me desconversar. Renovemos o olhar. A escultura apresenta um homem e uma mulher abraçados e a Morte a interpor-se. Lembra as danças macabras. Mas o casal não está separado nem a morte está em pose de triunfo. O casal continua abraçado e a morte concentrada no seu trabalho. Será que o Amor pode resistir à Morte?

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

“Falava Camões daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Todos resistimos à mortalidade, uns valerosamente, outros nem tanto” (Rita Ribeiro). Camões sabe que não é apenas “por obras valerosas que nos vamos da lei da morte libertando”, pelo amor, também. No Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel o Velho, ninguém escapa à fúria de Morte. Ninguém excepto um par de namorados, alheados da tragédia envolvente (ver no canto inferior direito do quadro da Fig. 11). Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Pedro e Inês, “da lei da morte se libertaram”.

11. Pieter Bruegel the Elder - The Triumph of Death (1562).

11. Pieter Bruegel the Elder – The Triumph of Death (1562).

As obras de arte permitem várias interpretações, por vezes, opostas. São polissémicas. Quem vence? O Amor ou a Morte? Depende da perspectiva. Como num poema de Clarice Lispector, se o olhar desce, surpreende a morte a separar o casal; se o olhar sobe, vislumbra o casal a resistir à Morte. As obras de arte ganham em ser ambivalentes.

Qual é a opinião do escultor? Ignoro. Mas, por importante que seja, não é a única nem, porventura, a mais decisiva. Esta é uma questão polémica no seio da sociologia da arte. A interpretação alternativa resume-se a um enxerto de sentido, neste caso, apressado e atrevido? Naturalmente. É um mero exercício de pensamento, que convoca um provérbio distinto: “nem a morte nos separa”. Mas a sina das obras de arte reside, precisamente, em incorporar as interpretações que suscita, incluindo as mais bárbaras. Esta é outra questão polémica na sociologia da arte.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

Gustave Vigeland (1869-1943) é um reputado escultor norueguês. Em 1921, a cidade de Oslo disponibilizou-lhe um estúdio em Frogner, nos arredores de Oslo. É o início de uma obra monumental que culmina no actual parque Vigeland. Desenha o parque, ao mesmo tempo, que introduz as esculturas. Começa com o Monólito (Fig 3) e a Fonte (Fig 6 ). No conjunto, são mais de 200 esculturas da sua autoria. O Parque Frogner/Vigeland, o maior da cidade de Oslo, destaca-se como uma maravilha mundial.

Esculturas de Gustav Vigeland. Vigeland Park. Oslo. Noruega.

Passar pela Noruega sem ouvir Edward Grieg não me parece bem. Edvard Munch pode esperar. Opto pela famosa Solveig’s Song. A canção termina com os seguintes versos:

“If you are in heaven now waiting for me
In heaven for me
And we shall meet again love and never parted be
And never parted be!”

(Edward Grieg. Solveig’s Song).

No céu, ninguém nos separará! Nem sequer as asas dos anjos.

Edward Grieg. Solveig’s Song. Peer Gynt. Intérprete: Marita Solberg. Direcção de Neemi Jarvi.

A Mãe e a Guerra

Hoje é Dia dos Pais no Brasil. Só não são todos os dias dias da mãe porque alguém se lembrou de decretar um dia especial. A relação com a mãe desdobra-se numa tensão entre união e separação, em que vibram as cordas tangíveis do coração: sensação, sentimento e emoção. Com a emigração e com a guerra colonial, exacerbou-se esta tensão. Multiplicaram-se os poemas e as canções. Poemas e canções que faziam chorar, perto e longe. Há pessoas que ainda agora se comovem ao ouvir estas músicas.

Conjunto Oliveira MugeO Conjunto de Oliveira Muge, fundado nos anos cinquenta, é originário de Ovar, mas o essencial da sua carreira teve lugar em Moçambique. A canção Mãe, gravada em 1966 na África do Sul, alcançou um enorme sucesso: “O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial” (Conjunto de Oliveira Muge: http://guedelhudos.blogspot.com/2008/10/conjunto-de-oliveira-muge.html).

A Menina dos Olhos Tristes (1969), interpretada por José Afonso, dispensa apresentação.

Conjunto de Oliveira Muge. A Mãe. 1966.

José Afonso. Menina dos Olhos Tristes. 1969.

Os estrangeiros também têm mães. Algumas bastante complexas. Compõem, também, belíssimas canções. Retenho Mother, de John Lennon, interpretada ao vivo em 1972 no Madison Square Garden, bem como Mother (1979), dos Pink Floyd, numa interpretação dos Pearl Jam (2011?).

John Lennon. Mother. Ao vivo no Madison Square Garden. 1972.

Pearl Jam. Mother (cover dos Pink Floyd). 2011 (?).

O laço e a trela

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Edvard Munch. Melancholy II. 1898.

É costume associar a separação a uma experiência negativa. Depois do adeus, a solidão, o luto e a saudade. Trauma insuperável? Quem se afasta, aproxima-se. De uns e de outros. Custa? Apegamo-nos às pessoas e às coisas, tóxicas ou não. Criar novas relações também custa? São necessárias pontes. Melancolia à parte, aguentar uma situação é, muitas vezes, pior do que a abandonar. Quem se despede não deixa de existir. Um grupo não é uma caravana no deserto. A separação é uma crise, um momento de fractura e abertura. Em latim, crisis significa “momento de decisão”, e o verbo grego Krino significa “separar, decidir, julgar”. Entretanto, Julio Iglesias canta Y la vida sigue igual (1968).

Julio Iglesias. Y la vida sigue igual. 1968.

Y la vida sigue igual. Julio Iglesias.1968.

Unos que nacen, otros morirán;
Unos que ríen, otros llorarán.
Aguas sin cauce, ríos sin mar,
Penas y glorias, guerras y paz.

Siempre hay
Por que vivir,
Por que luchar.

Siempre hay
Por quien sufrir
Y a quien amar.

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

Pocos amigos que son de verdad;
Cuantos te alagan si triunfando estas;
Y si fracasas, bien comprenderás:
Los buenos quedan, los demás se van.

Siempre hay
Por que vivir,
Por que luchar.

Siempre hay
Por quien sufrir
Y a quien amar.

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

Al final
Las obras quedan, las gentes se van.
Otros que vienen las continuarán.
La vida sigue igual!

De saída

Estamos de saída. “Partem velhos e novos”. “Este parte, aquele parte, e todos, todos se vão”. Para o estrangeiro ou para o purgatório. O mundo não é um baloiço, é um trampolim. Estas duas canções francesas falam da partida. Dos velhos e dos amigos, sem esquecer os que ficam. Duas excelentes prestações ao vivo de Daniel Guichard (Mon vieux, um cover de Jean Ferrat, 1962) e Jean-Jacques Goldman (Puisque tu pars, 1987). Pressinto que não vão gostar. Sempre que se proporciona, insisto em colocar um “tesourinho deprimente” italiano, francês, espanhol ou português. Neste capítulo, não coincido com o Estado Português. O meu mundo é latino e a minha língua não se esgota na tradução. Não é uma “língua à vinagrete”.
Para aceder aos vídeos, carregar nas imagens.

Daniel Guichard

Daniel Guichard, Mon Vieux, original de Jean Ferrat, 1962.

Jean-Jacques Goldman

Jean-Jacques Goldman, Puisque tu pars, 1987.

Teledesejo

Max Klinger. Penelope. 1895.

Max Klinger. Penélope. 1895.

Penélope transformou o teledesejo em tapeçaria. Na Idade Média, os cavaleiros andantes queriam-se teledesejantes. A saudade é  teledesejo embalado no colo dos dias vazios. E, no entanto, os corpos movem-se. Mas o desejo voa!

Chris Peters. At Rest.

Chris Peters. At Rest.

José Afonso, Menina dos Olhos Tristes, 1969.

Afrodisíaco de Estado

Natalidade

As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?

Marca: Nestea. Título: Confession. Agência: Zulu Alpha Kilo. Direcção: JJ Adler. Canadá, Julho 2014.

Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.

Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.

Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, http://www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.

O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!

The earth is my grave: Don McLean.

americanpieEstreado em 1971, o álbum American Pie, de Don McLean, conheceu um enorme sucesso. Don McLean não é fácil de esquecer. Filmes e covers não param de nos beliscar. Do álbum American Pie, é complicado destacar uma música. As audiências apontam para American Pie e Vincent. Vincent é incontornável, mas American Pie tem concorrentes. Por exemplo, The Grave e Empty Chairs.
Sherlock Holmes acreditava que o cérebro era como uma caixa. Depressa se enchia; cada coisa que nele colocássemos, outra tinha que sair. Era, por isso, avisado filtrar o que se coloca no cérebro. Não acredito nesta teoria do Sherlock Holmes, caso contrário teria mais cuidado com a publicação destas memórias fundidas. Só não está no cérebro o que lá não entra.


Don McLean. Vincent. American Pie. 1971.

He crouched ever lower, ever lower with fear.
“They can’t let me die! They can’t let me die here!
I’ll cover myself with the mud and the earth.
I’ll cover myself! I know I’m not brave!
The earth! the earth! the earth is my grave.”
Don Mclean. The Grave.

Don McLean. The Grave. American Pie. 1971.

And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did I never thought you would
Don Mclean. Empty Chairs


Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1971. Ao vivo.