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O nariz

The giant tap dancing noses

Dmitri Shostakovich. The Nose (1928). The Royal Opera.

O nariz é um órgão injustiçado. Abaixo dos olhos (ai os olhos!), acima dos lábios (ai os lábios!), o nariz (ui o nariz!) fica entre as orelhas (ui as orelhas!). O nariz é um órgão simbolicamente menosprezado. Não fosse Cleópatra e a humanidade nunca teria um nose turning. Graças ao anúncio da companhia de seguros Geico, deparamo-nos com narizes músicos, o que já se previa. Abusando da imaginação, as trompetas de Jericó foram, na realidade, narizes. No anúncio, o avô adormecido toca com o nariz o Flight of the Bumblebee, de  Rimsky-Korsakov (ver https://tendimag.com/2018/06/12/chuva-dissolvente/). Mas que tem este concerto nasal a ver com uma companhia de seguros? Assim como os cirugiões seguram as mãos, urge meter no seguro o nariz do avô e do cão.

Marca: Geico. Título: Grandpa´s Nose Solo. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio Grandpa’s Nose Solo lembra a ópera O Nariz (1928), de Dmitri Shostakovich, inspirada no conto homónimo de Nicolai Gogol, publicado em 1836. Na Metamorfose (1915), de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda transformado em insecto. Na ópera de Shostakovich, o Major Kovaliov acorda sem nariz. Para não tentar a desgraça, convém desligar os pesadelos ao acordar.

Dmitri Shostakovich. The giant tap-dancing noses scene. The Nose (1928). The Royal Opera.

Consumidor masoquista

Pfizer Animal Health. Koala. Pentamark. Itália, 2007.

Pfizer Animal Health. Koala. Pentamark. Itália, 2007.

Valha-me Santo Antão! Parece uma tentação dos demónios. Está a pegar a figura do consumidor masoquista? Algum estudo internacional, com patrocinadores de topo, universidades de alto ranking, centros de investigação de excelência, supervisão de prémios Nobel, assessoria de imprensa e direcção de um génio desconhecido, descobriu que, na publicidade, o que importa não é convencer, seduzir, comover, envolver ou chocar, mas agredir. Depois da dor, vem o alívio! Não vem?

Marca: Acierto.com. Titulo: Koala. Agência: Remo. Direcção: Marco de Aguilar. Espanha, Julho 2014.

Acidentes

Mr. MagooAnúncios com acidentes!!! Por que não? Desde que acertem no alvo… Os anúncios publicitários não estão reféns do belo, do bom e do bem. Os resultados podem surgir por várias vias, algumas perversas. A desgraça alheia consta entre os espetáculos que mais interesse despertam. Mal dos outros? Maldade nossa? Há imensos anúncios publicitários com acidentes. E a tendência é para o crescimento. Em alguns casos, a desventura é servida com humor. No anúncio Keep Going (vídeo 1), da Amersfoortse, os acidentes são embalados numa paródia cómica, ao jeito do cinema mudo ou dos desenhos animados. Os desastres em cadeia de Buster Keaton (vídeo 2) e de Mr. Magoo (vídeo 3) são proverbiais.  Mas há anúncios em que as imagens de acidentes não dão vontade de rir. Chocam, assustam, indispõem. O recurso ao simulacro é frequente. O real encenado torna-se mais real do que o real. Logra mais impacto. Pela surpresa, pelo contraste. No anúncio Restaurant (vídeo 4), do Texas Department of Transportation, o acidente ocorre durante o jantar num restaurante. Ou talvez tivesse sido na estrada… Multiplicam-se os anúncios publicitários que causam uma sensação de risco. Não é por acaso que o primeiro anúncio é de uma companhia de seguros e o último, de um Departamento de Estado dos Transportes. Estes anúncios inscrevem-se num tempo em que o apreço pela segurança se apresenta em recuperação. Contra a opinião de Ronald Inglehart, os valores materialistas como a segurança, opostos aos valores pós-materialistas, como a autonomia, continuam a circular nesta “roda da vida”.

Marca: Amersfoortse. Título: Keep Going. Agência: John Doe Amsterdam. Direção: Hein Mevissen. Holanda, Setembro 2013.

Mr Magoo Opening Theme

Hooked on a Can Can an Buster Keaton by El Kaye

Marca: Texas Department of Transportation. Título: Restaurant. Agência:  Sherry Matthews. Direção: Josh Miller. USA, Setembro 2013.

A Maçã, o Desejo e o Caos

Allstate Insurance. MayhemA maçã é um fruto pretensioso e perverso. Ainda sinto o caroço na garganta. E as duas laranjas que Eva tem no peito, não são laranjas, não: são duas metades de maçã, fontes primitivas do desejo. As maçãs caem como anjos na cabeça de Newton e brilham tenebrosas nas mãos da bruxa malvada. São diabólicas. “Pomo da discórdia”, semeiam caos. Erotizam a vida. A macieira é do género Malus (Malus domestica). E o planeta é cada vez mais a uma grande maçã. Proteja-se! Você não é o Guilherme Tell. Entregue-se nas mãos da Allstate Insurance, e beberá sidra para sempre.

Marca: Allstate Insurance. Título: Mayhem. Agência: Leo Burnett. Direção: Phil Morrison. EUA, Janeiro 2013.